quinta-feira, 23 de junho de 2011

LES HUGUENOTS – La Monnaie, Bruxelas, Junho 2011

(review in English below)


Les Huguenots é uma ópera de Giacomo Meyerbeer com libretto de Eugène Scribe e Émile Deschamps.


É um retrato histórico do fanatismo religioso em França em 1572 quando, na noite de São Bartolomeu (24 de Agosto), foram assassinados cerca de 3000 protestantes (huguenotes) pelos católicos em Paris. Neste contexto, decorre a história de amor trágico entre o protestante Raoul e a católica Valentine.


O rei Carlos IX quer por termo às guerras religiosas em França. O Conde de Nevers, católico, dá uma festa em que é convidado e bem recebido um protestante, Raoul de Nangis. Este conta que se apaixonou por uma bela mulher que salvara das mãos de um grupo de estudantes inoportunos. Marcel, um discípulo de Raoul, canta uma canção huguenote e recusa juntar-se à festa. Uma mulher (a que Raoul salvara) vem romper o noivado com Nevers. Chega um pajem, Urbain, com uma carta para Raoul. Todos (excepto Raul) reconhecem o brasão da rainha Marguerite de Valois. A rainha quer casar Valentine com Raoul, aproximando católicos de protestantes, mas esta diz que o seu pai, o conde de Saint-Bris, se opõe. Raoul, ao reconhecê-la como a antiga noiva de Nevers, recusa-a e insulta os católicos. Nevers casa com Valentine. Marcel informa Saint-Bris que Raoul pretende um duelo. Saint-Bris decide fazer-lhe uma emboscada.. Valentine, escondida por um véu, avisa Marcel. A rainha exige saber o que se passa e quando Valentine levanta o véu, todos ficam surpresos. Saint-Bris diz a Raoul que a filha está já casada com Nevers. Valentine lamenta o seu destino mas aparece Raoul e confessam o seu amor. Raoul ouve os planos de Saint-Bris para matar os protestantes e vai avisá-los, recusando fugir com Valentine. Nevers é assassinado. Os huguenotes estão com a Rainha quando Raoul os informa do massacre. Valentine surge e promete protecção a Raoul se ele se converter ao catolicismo, mas recusa. Então ela aceita tornar-se protestante e são casados por Marcel. Os católicos assassinam os protestantes. Saint-Bris, ao ver uma mulher com dois homens feridos, pede que se identifiquem e verifica que a sua própria filha foi atingida mortalmente. A rainha tenta travar a matança mas o banho de sangue prossegue até de manhã.

O teatro La Monnaie parecia estar em remodelação profunda, de tal forma que até havia placas a indicar onde era a ópera, mas as obras eram apenas no exterior.




A encenação, fantástica, foi de Olivier Py. A acção foi transposta para um período intemporal. Os trajos das personagens principais tanto são da época como modernos, as casas representadas em construções metálicas são mais actuais e os massacres são feitos com metralhadoras. O palco tem uma mobilidade muito interessante e inovadora, as mudanças de cena são frequentes e bem conseguidas.


Logo na abertura aparece um bailarino empunhando uma grande cruz, que rapidamente se separa em duas, uma em cada mão, retratando de forma eficaz a temática da ópera. As curzes virão a ser usadas com grande eficácia ao longo da récita, ora simbolizando a cruz de Cristo, ora espadas, consoante a parte em que são pegadas.


Apesar de muito eficaz, a encenação não deixa de ter algumas bizarrias. No primeiro acto, o bacanal entre os homens no castelo do conde de Nevers leva-os a despirem-se quase completamente e a cenas homossexuais, irrelevantes e fora do contexto da ópera. O 2º acto abre com uma coreografia de um par integralmente nu, ele com um enorme par de chifres, que também não acrescenta nada à obra. E as cenas de nudez continuam, sobretudo quando as raparigas tomam banho no rio, mas aqui já de acordo com o enredo. No último acto a rainha aparece toda ensanguentada, como se tivesse participado no massacre. Enfim, são pormenores que se ultrapassam dada a grande qualidade da encenação.




A direcção musical foi de Marc Minkowski. Estava situado numa posição privilegiada e foi um prazer apreciar a mestria com que dirigiu a obra. A Orquestra Sinfónica e os Coros do Teatra La Monnaie tiveram desempenhos excepcionais.


Chamo a atenção para os coros, que são primordiais nesta ópera, estando frequentemente em cena e representando estudantes, soldados, religiosos e populares.

A música de Meyerbeer é empolgante, cria atmosferas distintas ao longo da obra e tem grande força dramática.


O tenor americano John Osborn foi Raoul de Nangis. Não entrou bem mas quando aqueceu esteve sempre à altura do papel (e que papel!). A voz é de timbre agradável, claro, bem audível, as notas mais agudas surgem por vezes em esforço, mas nunca falhou. A interpretação é de elevada exigência, para além de a personagem estar quase sempre em cena. Cenicamente não esteve mal, mas ficou aquém das suas colegas.

A rainha Marguerite de Valois foi interpretada pelo soprano dinamarquês Henriette Bonde-Hansen. Teve um desempenho excepcional. A voz é lindíssima, redonda, potente, muito lírica e capaz de transmitir todas as emoções vividas pela personagem. De boa figura, a cantora esteve também irrepreensível cenicamente.


O soprano sueco Ingela Brimberg foi Valentine. Teve uma presença marcante. A voz de soprano dramático é de uma potência brutal e a cantora usou-a mais em força do que em jeito. Uma interpretação mais lírica teria sido mais adequada. Mas o impacto foi grande e revelou versatilidade na transmissão dos sentimentos que pretendeu imprimir à personagem. Outra cantora com uma excelente figura, o que ajudou muito na componente cénica.

Urbain, o pajem, foi o mezzo-soprano francês Blandine Staskiewicz . Apesar de um papel relativamente pequeno, foi outra interpretação superior, tanto vocal como cénica. A voz, bonita, era particularmente rica e encorpada no registo mais grave e, sempre que estava em cena, ouvia-se tanto sobre a orquestra como sobre o coro.


O Conde de Nevers foi o barítono canadiano Jean-François Lapointe. Esteve bem mas foi talvez o menos forte de entre os solistas. Tem uma boa figura, representou bem, mas a voz é menos versátil e, fazendo-se ouvir, não teve a pujança nem a harmonia dos outros cantores.

O barítono francês Phillipe Rouillon foi um Conde de Saint-Bris autoritário, com uma voz forte, versátil e expressiva.


Marcel foi o baixo francês François Lis. De todos os cantores principais foi o mais irregular, com períodos de voz bem timbrada e audível, alternando com outros em que se deixava facilmente abafar pela orquestra.


Inesperadamente, assisti a um dos melhores espectáculos da temporada, o que foi uma verdadeira surpresa, num teatro onde já vivi grandes dissabores no passado.

*****



Les Huguenots - La Monnaie, Brussels, June 2011

Les Huguenots is an opera by Giacomo Meyerbeer with libretto by Eugène Scribe and Emile Deschamps.

It is a historical picture of religious fanaticism in France in 1572 when, on the night of St. Bartholomew (August 24), about 3,000 protestants (Huguenots) were killed in Paris by catholics. In this context is the story of the tragic love between the protestant Raoul and the catholic Valentine.

King Charles IX wants an end to religious wars in France. The Count of Nevers, a catholic, gives a party where Raoul, a protestant, is invited and welcomed. He says that he fell in love with a beautiful woman who he saved from the hands of a group of troublesome students. Marcel, a follower of Raoul, sings a Huguenot song and refuses to join the party. A woman (the one saved by Raoul) arrives and breaks the engagement to Nevers. There comes a page, Urbain, with a letter to Raoul. All (except Raoul) recognize the arms of Queen Marguerite de Valois. The Queen wants Valentine to marry Raoul, bringing peace between catholics and protestants, but she says that her father, the Comte de Saint-Bris, opposes. Raoul, recognizes her as the former fiancee of Nevers, and refuses her, insulting the catholics. Nevers marries Valentine. Marcel tells Saint-Bris that Raoul wants a duel. Saint-Bris plans an ambush. Valentine, hidden by a veil, warns Marcel. The Queen demands to know what is happening and when Valentine lifts the veil, everyone is surprised. Saint-Bris informs Raoul that her daughter is already married to Nevers. Valentine laments her fate, but Raoul appears and confesses his love. Raoul listens to the plans of Saint-Bris to kill the protestants and warns them, refusing to run away with Valentine. Nevers is killed. The huguenots are with the Queen when Raoul informs them of the massacre. Valentine appears and promises protection to Raoul if he converts to catholicism, but he refuses. So she agrees to become protestant and they are married by Marcel. Catholics murder protestants. Saint-Bris, seeing a woman with two men wounded, asks their identity and verifies that his own daughter was shot to death. The Queen tries to stop the killing but the bloodshed continues until morning.

The staging by Olivier Py was fantastic. The action occurred in a timeless period. The costumes of the main characters were both old fashioned and modern, the homes represented in metal buildings were more modern and massacres were made with machine guns. The stage had a very interesting and innovative mobility, the scene changes were frequent and well done.
Right in the opening a dancer appears holding a large cross, which quickly is separated into two, one in each hand, effectively portraying the theme of the opera. The crosses will be used with great visual impact throughout the performance, either symbolizing the cross of Christ, or swords, as they were handled by the singers.

Although very efficient, the staging is not devoid of some oddities. In the first act, the orgy of men in the castle of the Count of Nevers leads them to almost completely undress, and perform homosexual scenes, irrelevant and outside the context of this opera. The 2nd act opens with a choreography of a nude couple, him with huge horns, which also adds nothing to the work. And the nude scenes continue, especially when the girls go bathing in the river, but here it is according to the plot. In the last act the Queen appears all covered with blood, as if she had participated in the massacre. All are small details that can be easily surpassed by the excellent quality of the staging.

The musical direction was by Marc Minkowski. I was placed in a privileged position and it was a pleasure to appreciate the skill with which he directed the work. The Orchestra and Chorus of La Monnaie were exceptional.
I mention the choruses in particular because they are paramount in this opera, often on the stage and playing students, soldiers, religious and common people.

Meyerbeer's music is exciting, creates different atmospheres throughout the work and has great dramatic force.

American tenor John Osborn was Raoul. He did not have a good start but after warming the voice he was always well in the role (and what a role!). The timbre of his voice is pleasant, light, well heard, the top notes sometimes are sung in effort, but he never fails. The role is very demanding and he is almost always on stage. Artistically he was well, but her colleagues were better.

Queen Marguerite de Valois was interpreted by Danish soprano Henriette Bonde-Hansen. She had an outstanding performance. The voice is beautiful, round, powerful, lyrical and very able to convey all the emotions experienced by the character. Good figure, the singer was also blameless artistically.

Swedish soprano Ingela Brimberg was Valentine. She had a strong presence. The dramatic soprano voice was strong and the singer used it more in power than in melody. A lyrical interpretation would have been more appropriate. But the impact was great and she showed versatility in conveying the different feelings of the character. She was another singer with an excellent figure, which helped her artistry.

Urbain was the French mezzo-soprano Blandine Staskiewicz. Although a relatively small role, she was responsible for another superior interpretation, both vocal and artistic. The voice, beautiful, was particularly rich and strong in the lower register and, whenever she was on stage, she could be heard over the orchestra and over the chorus.

The Count of Nevers was the Canadian baritone Jean-François Lapointe. He was well but he was perhaps the least strong among the soloists. He has a good figure, he acted well, but the voice was less versatile and had not the strength nor the harmony of the singers.

French baritone Philippe Rouillon was an authoritarian Count de Saint-Bris, with a strong, expressive and versatile voice.

Marcel was the French bass François Lis. Among all the principal singers he was the most irregular, with periods of well-modulated audible voice, alternating with others that led the orchestra drown him.

Unexpectedly, I attended one of the best performances of the season, which was a real surprise, in a theater where I have lived unpleasant experiences in the past.

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9 comentários:

  1. Wonderful pictures!
    I've read everywhere that this production is sensational. I'm looking forward to seeing the same production in Strassburg in next season!

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  2. Fanático,

    Uma das coisas que mais me incomodam em montagens heterodoxas é a mania dos diretores de enxergarem subtexto de pederastia onde não há a menor necessidade disso. Não sei se eles fazem isso apenas para causar polêmica ou porque querem nos impor sua visão GLS do mundo.

    Não tenho nada contra o homossexualismo, apenas acho que é ridículo forçar a barra para colocar esse tipo de situação em tudo.

    Tenho muita vontade de assistir uma ópera de Meyerbeer. Assisti uma vez pedaços de um video de L'Africaine e fiquei bem impressionado.

    Fico feliz que você tenha assistido a um bom espetáculo!

    Sds,

    Eduardo

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  3. @ lotus-eater,
    Yes, it is a sensational production. I am sure you will like it very much. I did.

    @ Eduardo Vieira,
    Foi uma produção sensacional. Também acho que a sexualidade é um assunto de cada um e não deve ser tema de crítica. O que critiquei foi que, no enquadramento desta ópera, as opções do encenador que referi não se enquadram na temática da obra e não trazem nenhuma mais valia.

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  4. Haven't you heard of that? The director Olivier Py is a homoxesual man who brings quite often the scene of the homoeroticism on stage. It doesn't matter for him, if the scene has something to do with the text or not. He seems to have an urge to sing loudly about his sexuality. That's the main issue. Those who like Py just get on the nerves! I'm heterosexual and don't sing about it all the time. Why some people can not keep their sexuality for themselves?

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  5. Lotus,

    That's exactly what I am saying.

    If people are really equal, the sexuality should be not a issue. No one needs to make propaganda of your sexuality.

    The gay movement doesn't want that gays be seen like equals. They want to be seen as the progressive people, and the straight ones as the square ones.

    Eduardo

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  6. Caro FanaticoUm

    Ainda bem que gostou do espectáculo. Do cantores, só conheço o Osborn, que me parece um bom cantor. Ainda bem que "aqueceu" e fez um bom espectáculo.

    Cumprimentos musicais

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  7. Because of the historical significance, I might really enjoy this production, although I could do without the irrelevant scenes.

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  8. Caro FanaticoUm,

    Excelente crítica!!! doro o pormenor das fotos iniciais do teatro em obras e como a pequena tabuleta indica a direçao da ópera com o título da mesma - parece que, ao lermos a sua crítica, seguimos também o percurso de entrada no teatro. O seu lugar era excelente o que nos permitiu ofereceu também fotos de grande qualidade da chamada ao palco.

    Fico curioso em ouvir esta ópera. Os pomenores da encenação que refere, principalmente o da dupla utilização/interpretação da cruz de Cristo, revelam pontos a favor de uma encenação de elevado nível conhecedor do enredo.

    Em relação aos músicos estou como o Alberto Velez Grilo - só conheço o Osborn. Mas, como já disse anterioremente neste blog, nem sempre são precisos grandes nomes para se fazer uma grande récita.

    Fico contente que esta produção tenha limpado um pouco a má imagem com que sei que ficou do Idomeneo no mesmo Teatro.

    Cumprimentos musicais.

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  9. @ lotus.eater and Eduardo,
    I did not know what you mentioned about Py btu I looked for it in the internet and you are right. But, even with those unadjusted punctual options, it was a sensational staging.

    @ Alberto,
    Muitas vezes assistimos a récitas fantásticas com cantores desconhecidos (como foi o presente caso para mim). Os nomes mais mediáticos são em geral bons a excelentes, mas há muitos outros de igual categoria que são muito menos conhecidos.
    Cumprimentos musiciais.

    @ wagner_fanatic,
    Estou certo que iria gostar muito desta ópera, conhecendo eu bem (penso) as suas preferências musicais. Dizem os mais entendidos que Meyerbeer foi um percursor que muito influenciou Wagner.
    Obrigado pelo comentário e esta é uma ópera a ficar "debaixo de olho".

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