quinta-feira, 10 de junho de 2010

Royal Opera House, Covent Garden, Londres - Temporada 2010-2011

A Royal Opera House (ROH), Covent Garden, Londres é uma das catedrais mundiais da ópera, templo recorrentemente visitado pelos Fanáticos da Ópera, talvez mesmo a sua alma mater. A qualidade dos espectáculos aqui apresentados é, quase sempre, elevada e a oferta muito diversificada.

A associação qualidade, quantidade e diversidade condiciona a atribuição do estatuto de catedral da ópera pelos Fanáticos que, no caso de Londres, é inquestionável. Como inquestionáveis são o Met de Nova Iorque, a Staatsoper de Viena e, poucos mais.
A temporada 2010-2011 não é, infelizmente, muito estimulante (2008-2009 e 2009-2010 foram incomparavelmente melhores), mas tem alguns motivos de interesse que poderão justificar uma ida a Londres.

Indicamos a maioria dos espectáculos de ópera anunciados e, de entre eles, alguns que pensamos poderem constituir experiências gratificantes.

- Così fan Tutte (Mozart) em Setembro (10, 13, 15, 17, 19, 22 e 24) de 2010. A temporada abre com uma das melhores óperas de Mozart, numa encenação moderna de Jonathan Miller. Os dois pares apaixonados (e postos à prova…) serão interpretados por Pavol Breslik (tenor), Stéphane Degout (barítono) Jurgita Adamonyté (Mezzo) e Maria Bengtsson (soprano). Thomas Allen será Don Alfonso e Rebecca Evans, Despina.





- Don Pascuale (Donizetti) em Setembro (12, 14, 16, 18, 20 e 21) de 2010.



 - Niobe, Regina di Tebe (Steffani) em Setembro (23, 25, 27 e 29) e Outubro (1 e 3) de 2010.

- Les Pêcheurs de Perles (Bizet), versão concerto, em Outubro (4 e 7) de 2010.
 - Rigoletto (Verdi) em Outubro (11, 14, 16, 19, 21, 23, 27 e 30) e Novembro (2, 4 e 6) de 2010. Encenação de David McVicar (1ª – a primeira de 5 nesta temporada!) conta com intérpretes sonantes como Dmitri Hvorostovsky, alternando com Paolo Gavanelli num dos mais exigentes papeis de barítono de Verdi, o tenor Wookyoung Kim no Duque de Mantua e o soprano Eglise Gutiérrez como Gilda.

- Roméo et Juliette (Gounod) em Outubro (26 e 29) e Novembro (1, 5, 8, 11, 13 e 17) de 2010. Referência para os vários duetos entre os dias amantes, aqui encarnados por Piotr Beczala, excelente tenor polaco como Romeu e Nino Machaidze, soprano Georgiano, como Julieta (alternando com María Alejandres).

- Hänsel und Gretel (Humperdinck) em Dezembro (23, 28, 29 e 31) de 2010 e Janeiro (1, 3, 4 e 7) de 2011, numa produção de Moshe Leiser e Patrice Caurier.

- Adriana Lecouvreur (Cilea) em Novembro (18, 22, 25, 27 e 30) e Dezembro (4, 7 e 10) de 2010. Uma nova produção de David McVicar (2ª) desta ópera que contém trechos musicais notáveis e que, nesta produção, conta com intérpretes de primeiríssima água, nomeadamente Angela Gheorghiu como Adriana Lecouvreur, Jonas Kaufmann como Maurizio , Olga Borodina como Princesa de Boullion, Maurizio Muraro como Príncipe de Boullion e Alessandro Corbelli como Michonet.
Angela Gheorghiu, ao que consta, é uma verdadeira prima donna (no sentido pejorativo do termo) e é talvez a campeã dos cancelamentos. Contudo, quando inspirada, nos papeis certos e no seu melhor, é uma cantora sublime. Quem poderá ficar indiferente à sua interpretação em concerto (ao vivo, no Covent Garden, em 2001, dirigida por Ion Marin, EMI Classics) da aria desta ópera Ecco respiro appena. Io son l’umile ancella. É um dos momentos marcantes da beleza transcendental do canto lírico.

- Tannhäuser (Wagner) em Dezembro (11, 15, 19, 22, 27 e 30) de 2010 e Janeiro (2) de 2011. Mais uma produção nova, de Tim Albery (que impressionou com a produção do Navio Fantasma em 2009 na ROH) com cantores notáveis, incluíndo o excelente heldentenor Johan Botha que assumirá o papel de Tannhäuser, a grande soprano Eva-Maria Westboek como Elisabeth e a mezzo Michaela Schuster como Venus.


 - Il Barbiere di Siviglia (Rossini) em Janeiro (18, 21, 24, 26, 29 e 31) e Fevereiro (2, 5 e 8) de 2011. Uma produção animada de Moshe Leiser e Patrice Caurier que já viu melhores intérpretes (por exemplo na temporada passada!) mas que, ainda assim, inclui nomes que merecem referência, como Aleksandra Kurzak, Bruno Praticò e Ildar Abdrazakov.




- Die Zauberflöte (Mozart) em Fevereiro (1, 3, 7, 9, 11, 16, 22 e 24) de 2010. Produção muito engraçada da Flauta Mágica, de David McVicar (3ª), sempre uma boa escolha.


 - Anne Nicole (Turnage) em Fevereiro (17, 21, 23 e 28) e Março (1 e 4) de 2011, em estreia mundial.

- Aida (Verdi) em Março (11, 14, 19, 22, 26 e 30) e Abril (2, 6, 10, 13 e 15) de 2011. Uma ópera de grande espectáculo em mais uma encenação de David McVicar (4ª) com nomes como Micaela Carosi, Roberto Alagna, Olga Borodina e Michael Volle.

- Fidelio (Beethoven) em Março (29) e Abril (1, 5, 9, 11 e 16) de 2011. Ópera de grande intensidade dramática que conta com as interpretações de dois grandes artistas, Endrik Wottrich e, sobretudo, Nina Stemme, o que faz prever que esta seja um dos melhores espectáculos da presente temporada.

 - The Tsar’s Bride (Rimsky-Korsakov) em Abril (14, 18, 20, 23, 27 e 29) e Maio (2) de 2011. Uma nova produção maioritariamente cantada por intérpretes russos. Força seguramente não vai faltar, já harmonia vocal …

- Werther (Massenet) em Maio (5, 8, 11, 14, 17 e 21) de 2011. No elenco está anunciado Rolando Villazón (que já impressionou neste papel mas, na actualidade, é uma incógnita) e a fantástica mezzo francesa Sophie Koch.


- Macbeth (Verdi) em Maio (24, 27 e 30) e Junho (3, 6, 10, 13, 15 e 18). Uma notável ópera de Verdi, a primeira baseada em Shakespeare que tem como principal motivo de interesse (e que motivo!) o barítono inglês Simon Keenlyside no papel principal.

- Tosca (Puccini) em Junho (7, 11, 14, 17, 20, 23, 28 e 30) e Julho (14 e 17) de 2011. Talvez o expoente máximo da temporada, uma das melhores óperas de Puccini e de sempre, conta com uma constelação inultrapassável de estrelas que incluem Karita Mattila, Martina Serafin e Angela Gheorghiu alternando no papel de Tosca, Marcello Giordani e Jonas Kaufmann como Cavaradossi e Juha Uusitalo e Bryn Terfel como Scarpia.
A não perder, sobretudo as récitas de Julho, que têm Angela Gheorghiu (como são só duas talvez não cancele), Jonas Kaufmann (foi arrasador neste papel há poucos meses no MET) e Bryn Terfel (o melhor Scarpia da actualidade)!





- Peter Grimes (Britten) em Junho (21, 24 e 27) e Julho (1 e 3) de 2011.



- Madama Butterfly (Puccini) em Junho (25 e 29) e Julho (2, 4, 8, 12, 15 e 16) de 2011. Mais uma produção de Moshe Leiser e Patrice Caurier em que actuarão nos dois papeis principais os cantores americanos Patricia Racette (uma habitual em Cio-Cio-San) e James Valenti.

- Cendrillon (Massenet) em Julho (5, 7, 9, 11, 13, e 16) encerra a temporada. O conto de fadas que inspirou La Cenerentola de Rossini, numa nova produção de Laurent Pelly, dirigida por Bertrand de Billy e com um elenco feminino de elevada qualidade, liderado pela estupenda mezzo americana Joyce DiDonato, acompanhada pela contralto polaca Ewa Podles e e pela soprano cubana Eglise Gutiérrez.

Não posso deixar de recordar Joyce DiDonato que, no ano passado no Barbeiro de Sevilha também aqui em Londres, cantou (de forma soberba!) o papel de Rosina numa cadeira de rodas, após ter partido o pé na récita havida dois dias antes. Numa época em que as grandes divas da ópera cancelam muito facilmente espectáculos, o comportamento de DiDonato foi notável e um brinde para todosos que tivémos o privilégio de a apreciar.

(As fotografias apresentadas são do Season Guide 2010-2011 da Royal Opera House)
Há ainda óperas contemporâneas na Royal Opera House 2.
Toda a informação disponível em:
http://www.roh.org.uk/season/index.aspx

terça-feira, 1 de junho de 2010

Gran Teatre del Liceu, Barcelona - Temporada 2010-2011

Uma nota sobre a nova temporada de ópera (2010-2011) do Liceu de Barcelona, um teatro onde gosto sempre de ir e onde, frequentemente, se podem ver excelentes espectáculos.

É mais uma óptima temporada que conta com 16 óperas, para além dos concertos, recitais e espectáculos para crianças. Não conheço tudo o que será apresentado mas, como fazemos habitualmente, aqui vão algumas referências ao que penso poderá vir a ser marcante e, quem sabe, justificar uma viagem a Barcelona.


- Iphigenie auf Tauris (de Gluck, versão alemã de Iphigénie en Tauride), em Setembro de 2010, espectáculo de ópera e dança que, nos dias 4 e 6 conta com a interpretação de Elisabete Matos.

- Carmen (Bizet) em Setembro e Outubro de 2010 e Julho de 2011. É sempre uma ópera espectacular, ideal para iniciados. Conta com uma constelação de estrelas nos intérpretes, incluindo Béatrice Uria-Monzon, Roberto Alagna, Marina Poplavskaia, Erwin Schrott e, em Julho, Anna Caterina Antonacci, Fabio Armiliato, Neil Schicoff e Maria Bayo. 


- Falstaff (Verdi) em Dezembro de 2010.



 

  - Anna Bolena (Donizetti) em Janeiro e Fevereiro de 2011 com Edita Gruberova e Elina Garanca a alternarem com Fiorenza Cedolins e Sonia Ganassi. Imperdível, para os amantes do belcanto (nos quais me incluo).

  - Parsifal (Wagner) em Fevereiro e Março de 2011. Todos os anos o Liceu brinda-nos com Wagner. Elenco também notável com Klaus Florian Vogt, Anja Kampe, Alan Held e Hans Peter König alternando com Simon O’Neill, Susan Bullock, Boaz Danielk e Eric Halfvarson.
-Cavalleria rusticana (Mascagni) e Pagliacci (Leoncavallo) em Abril de 2011 também com excelentes intérpretes, incluindo Luciana D’Intino, José Cura, Inva Mula, George Gagnidze, Ángeles Blancas, Marcello Giordani e Carlos Alvarez. Der Freischütz (von Weber) em Maio de 2011 com Peter Seiffert, Petra Maria Schnitzer, Solie Isokoski, Matti Salminen.
 
 - Tamerlano (Haendel) em versão concerto em Julho com Placido Domingo, Bejun Mehta, Anne Sofie von Otter. (O meu parceiro de blog Wagner_fanatic não me perdoaria se não destacasse este espectáculo, mas faço-o com a certeza que será um dos grandes!).

 E muito mais… mas não posso deixar de referir especialmente os recitais de Violeta Urmana (4 de Outubro de 2010), Jonas Kaufmann (10 de Outubro de 2010) e de Andreas Scholl (16 de Maio de 2011), bem como os concertos de Rolando Villazón (3 de Abril de 2011, se ainda tiver voz) e de Diana Damrau (26 e 28 de Maio).

(As ilustrações apresentadas são do site do Gran Teatre del Liceu, Barcelona)

Vale a pena explorar todos os pormenores em: http://www.liceubarcelona.com/

domingo, 30 de maio de 2010

ARIADNE AUF NAXOS – Fundação Calouste Gulbenkian, Maio de 2010

A Fundação Calouste Gulbenkian encerrou com chave de ouro a temporada de música 2009-2010 com esta impressionante Ariadne auf Naxos de Richard Strauss. Já referi anteriormente, a propósito de outra récita da ópera a que assisti em Fevereiro último no Met que ela não é das minhas favoritas. Contudo, quando a interpretação, ainda que em versão de concerto, é do nível que se assistiu hoje na Gulbenkian, o espectáculo enche plenamente os ouvidos e a alma.

A direcção musical, de Lawrence Foster, esteve acima do que é habitual no maestro titular da Orquestra Gulbenkian e contribuiu significativamente para o exito da noite. No início saltou-lhe a batuta da mão, caindo em cima de um espectador da primeira fila mas o episódio, apesar de invulgar, em nada perturbou o espectáculo. A orquestra, em versão reduzida e com a presença em força dos seus instrumentistas mais jovens, teve um desempenho impecável.
Os cantores foram, na sua globalidade, notáveis e responsáveis pela qualidade do espectáculo oferecido.
No Prólogo destacou-se, de forma incontestável, Heidi Brunner, soprano suiça que foi talvez a melhor de toda a récita. Na interpretação do Compositor revelou um invulgar poder vocal, de grande beleza e segurança, sempre audível sobre a orquestra e nunca perdendo qualidade em qualquer registo. Já a ouvira antes na Gulbenkian, mas nunca me impressionou como hoje. Notável.
Olesya Golovneva, soprano russa, interpretou a Zerbinetta de forma segura e em crescendo ao longo da récita, tendo sido excelente na segunda parte, na sua aria mais famosa - Grossmächtige Prinzessin… Noch glaub’ich demeinem ganz mich gehörend – que desencadeou um prolongado período de aplausos do público. A figura da cantora era franzina, revelou-se detentora de uma coloratura notável e a voz, sobretudo no registo mais agudo, foi sempre grande, afinada e cristalina.
Ariadne foi interpretada pela soprano norte americana Dara Hobbs que também esteve à altura do papel apesar de ser detentora de um timbre próximo do banal e, no registo mais agudo e em fortissimo, a voz perder qualidade, tornando-se baça e com tendência para a estridência.
Michael König, tenor alemão, foi O Tenor e Bacchus. Teve uma boa prestação, sobretudo na segunda parte como Bacchus, mas esteve aquém das cantoras principais. Contudo, a voz tem um timbre agradável e manteve a afinação durante toda a récita.
Merecem ainda menção positiva o barítono Jochen Schmeckenbecher (Professor de Música e Arlequim) e o baixo Marko Spehar (Truffaldin e Lacaio).
Mais um excelente espectáculo na Fundação Gulbenkian, que acaba de apresentar o programa da temporada 2010/2011, assunto a que voltarei mais tarde neste blogue.
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sábado, 15 de maio de 2010

Carmen - Wiener Staatsoper - 9 de Maio 2010

Depois da desilusão que foi o cancelamento da récita de Simão Boccanegra no Scala, chegou o ponto alto da minha Temporada operática 2009-2010: Carmen na Ópera Estatal de Viena, 9 de Maio.

Quando saiu o ano passado, por esta altura, a temporada da Ópera Estatal de Viena, o elenco da Carmen surgia como, sem margem para dúvidas, o melhor elenco de qualquer produção operática da Temporada 2009-2010 pelo menos na Europa e, acho que me atrevo a dizer, do Mundo.

Tinhamos reunidos nada mais, nada menos, que Rolando Villazon como Don José (antes da cirurgia e ainda com esperança da parte dos fanáticos da ópera que se mantivesse mais ou menos bem...), Elina Garanca como Carmen (talvez a maior referencia deste papel da actualidade - posso dizê-lo agora após tanto que fez durante a presente temporada), Anna Netrebko como Micaela (o que dizer? perfeita!) e Ildebrando D'Arcangelo como Toreador (igualmente uma referência no papel), conduzidos por Mariss Jansons. Os planos do Teatro, segundo soube recentemente, seria a gravação (pelo menos) em DVD da récita.

Villazon foi operado e saiu dos planos. Em troca entrou Massimo Giordano. Elina Garanca e Mariss Jansons sairam talvez cerca de 2 a 3 semanas antes (altura em que revi o elenco no site) e entraram Nadia Krasteva como Carmen e direcção por Andris Nelsons.

Mesmo com estas alterações prometia e devo dizer que esta foi a RÉCITA DA MINHA VIDA até agora (temo que até mesmo a coloque à frente de muitas com Domingo...).

Os lugares? Perfeitos: 2ª fila da plateia à direita, sem ninguém nos lugares da frente (talvez reservados para convidados de alguém e que não compareceram segundo um senhor japonês que estava sentado ao nosso lado... seriam para Villazon e Garanca?!...:)). Não posso deixar de frisar algo que me deixou impressionadíssimo. Não é só em Portugal que existem "Chicos espertos"... 3 pessoas, com lugares inferiores, vendo estes vagos na primeira fila, decidiram ocupar nos intervalos os mesmos, tendo sido educadamente corridos pela senhora dos programas. Fantástico!!! Primeira vez que assisti a tal e confirmou a regra que não há duas sem três.

A encenação foi clássica, transmitindo o ambiente ideal ao pormenor para esta ópera.

A Orquestra fenomenalmente dirigida e sem falhas conseguiu criar a tensão nos momentos-chave do drama de forma exímia.

Nadia Krasteva é uma Carmen que, na minha opinião, fisicamente se enquadra mais na personagem do que Elina Garanca. Vocalmente segura, timbre perfeito, uma boa actriz que foi crescendo ao longo da récita, sem um sequer gesto supérfulo ou mal equacionado; sedutora embora não sendo uma mulher tão atraente como Garanca (embora os gostos se discutam, certo?).


Massimo Giordano foi um Don José muitos pontos acima do que assisti o ano passado em Berlim na Deutsche Oper em Março. Boa aparência, vocalmente em excelente forma, com agudos cristalinos e seguros, sem desafinar, com alma na voz em cada passagem; excelente actor soube transmitir com convicção toda a evolução da personagem desde o indiferente ao patologicamente apaixonado capaz de matar por ciúme. Se tivermos que apontar algo, a única coisa que posso dizer é que a sua pronuncia francesa, em algumas situações, não é perfeita mas isso são pormenores insignificantes face ao que de bom transmitiu.





Anna Netrebko é simplesmente fenomenal. Sendo apenas a 3ª vez que a vejo (previamente como Donna Anna no Don Giovanni e Adina do Elisir) é apaixonante. Vocalmente acho que não posso dizer mais nada a não ser que não falha... nunca! É impressionante! A beleza do timbre, a projecção, a alma com que canta... Não posso deixar de referir uma passagem que, para mim, foi do melhor que assisti em Ópera como forma de arte total: no dueto com Don José no primeiro acto, Micaela traz uma carta da mãe de José, algum dinheiro "et puis... et puis..." e quando canta isto tira timidamente uma maça da sacola que traz (alusão às oferendas clássicas de enamorados) que volta a colocar dentro rapidamente. Que momento não de teatro ou música, mas de ARTE!


Ildebrando D'Arcangelo esteve na melhor interpretação que lhe conheço. Nas últimas 3 vezes que o vi pareceu-me sempre estar a cantar em "mono". Aqui esteve pujante e com força (talvez esa ideia minha estja enviesada pelo facto dos lugares serem melhores do que os que habitualmente tenho), em perfeito "stereo". Sedutor, muito bom actor, perfeito!


Costumo ter formigueiros quando vejo algo que me surpreende e toca durante uma récita e nesta devo ter tido uns 1000 AITs sensitivos!!!

Tudo foi anormalmente perfeito!!!

Não costumo classificar as récitas numericamente mas se me pedirem para o fazer: 20 valores para tudo, incluíndo a senhora dos programas que expulsou os "penetras" da fila da frente...

Nos bastidores pareciam sardinhas pelos autografos e fotos. Eu, uma das sardinhas, consegui o programa assinado e algumas fotos que partilho aqui.


Simon Boccanegra - 4 de Maio 2010 - Teatro alla Scala, Milão - GREVE!!!




Talvez considerado como o Teatro de Ópera mais famoso do mundo, o Scala de Milão, imortalizado por tantas figuras lendárias da ópera, em particular do bel canto, foi palco, no passado dia 4 de Maio, da maior desilusão da minha vida de (acho que me posso considerar como tal) melómano.

A greve dos sindicatos dos trabalhadores do Scala apanhou todos de surpresa no dia 3 à noite. Não pude acreditar que, ao entrar no site pela internet no lobby do hotel para rever elenco, o director do Teatro lamentava o cancelamento da récita.

Depois da Cirurgia de Domingo (que o afastou do Tamerlano revisto por mim anteriormente neste blog), da sua recuperação célere permitindo estar em forma para esta produção do Simão Boccanegra; depois da nuvem de cinzas islandesa ameaçar (sem sucesso) o meu comparecimento em Milão; chegava agora isto. Tinha o artista disponível, eu tinha lá chegado e uma barreira que pecava pela imprevisibilidade e singularidade (foi só cancelada esta récita das várias que houve...) impedia o acontecimento por mim muito esperado: Domingo servir de padrinho na minha estreia no Scala (como o fez na Royal Opera, no Palau des Arts em Valência, no Gran Teatro do Liceu de Barcelona e na Staatsoper Unter den Linden de Berlim).

Ainda não consigo compreender como é possível uma greve ser convocada na véspera e assim se estragar a imagem do Teatro e causar tamanho constrangimento aos que a ele se deslocam para ver Ópera. Não tanto por aqueles que vivem em Milão porque para esses é praticamente "igual ao litro" mas para quem vem de fora... Consigo agora falar sobre este assunto com alguma ponderação e sem a raiva e fúria do momento. Claro que me devolveram o valor dos bilhetes na bilheteira que fica na estação de Metro do Duomo. à minha frente lamentava-se uma senhora que tinha vindo de Paris para ver esta récita. Enviei um email a pedir alguma informação, alguma justificação, algum pedido de desculpa mais pessoal e formal mas até hoje nada.

Se alguém me voltar a perguntar se já fui ao Scala quando disser que gosto de ópera vou ter que dizer: "Sim... mas fiquei à porta!".

Na altura o meu pensamento foi nunca mais apostar no Scala. A próxima temporada é dada a conhecer a 21 de Maio e adivinha-se uma Valquíria com elenco brutal... Se se mantiver o padrão de cancelar a estreia (como fizeram no último dia 13 de Maio com a estreia do Ouro do Reno) e a penúltima récita, acho que se consegue tentar uma ida em alturas que não correspondam a estas datas... :) Estou a brincar, claro...

Deixo a quem quiser uma foto da fachada do Scala no dia 4 de Maio por volta das 19h15 com a "fachada" que foi não estar do lado de dentro. Tudo se resumiu a uma palavra: Vergonhoso!!!




domingo, 2 de maio de 2010

AS BODAS DE FIGARO (Le Nozze di Figaro) –Teatro de São Carlos, Lisboa, Maio de 2010

As Bodas de Figaro (Le Nozze di Figaro) é uma das grandes óperas de Mozart que, se bem tocada, bem cantada e bem encenada, proporciona momentos musicais sublimes. Infelizmente não foi o que aconteceu na récita a que assisti no Teatro Nacional de São Carlos.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve sob a direcção de Julia Jones e foi, de longe, o melhor da tarde. A maestrina conduziu a orquestra com garra e conseguiu desta uma muito boa prestação. Ouviu-se Mozart! Foram ambas (orquestra e maestrina) incomparavelmente melhores e mais credíveis do que no Morcego, há poucos meses.
Guy Montavon, encenador com curriculo firmado e muito premiado (conforme assinalado na bio do programa) foi responsável por uma encenação que achei kitsch e de mau gosto. Apenas algumas tonalidades de azul ao longo da récita foram interessantes. No primeiro acto o amontoado de caixotes não resultou em qualquer efeito interessante, apenas dificultou a mobilidade dos cantores (já de si “perra”). No segundo, o quarto da Condessa parecia o da Imelda Marcos, pejado de caixas de sapatos, sem outros atractivos cénicos. No jardim do último acto apareceram retratadas, para o casamento, muitas figuras públicas, desde Lili Caneças à princesa Diana, passando por Berlusconi, Carla Bruni e diversos membros das famílias reais europeias, entre outros. Tudo muito kitsch, repito, e de gosto duvidoso.
O baixo Marco Vinco foi o Conde de Almaviva. Boa figura, a voz fazia-se ouvir com facilidade, apesar de o timbre não ser bonito e a expressividade ficar aquém do desejado. Mas foi um dos melhores em palco. A Condessa (Rosina) foi interpretada pela soprano Jessica Muirhead. Não esteve bem nem cenica nem vocalmente. A voz era aceitável no registo médio mas nos agudos perdia qualquer qualidade melódica, transformando-se em gritos. E foi pena porque a Condessa tem algumas das mais belas arias (exprimindo tristeza) escritas por Mozart. Joana Seara foi uma Susanna interessante, sem deslumbrar, mas melhor que qualquer das cantoras estrangeiras com papeis principais. Figaro foi cantado pelo barítono Leandro Fischetti. Teve uma prestação muito irregular ao longo da récita. Começou mal, foi pouco credível em cena, teve intervenções interessantes mas outras decepcionantes. Cherubino foi interpretado pelo mezzo Kristina Wahlin. Irregular na emissão, timbre aspro, desafinações frequentes e desastrosa em cena, não colocou nenhuma credibilidade na personagem. Em papeis menores ouviram-se alguns dos melhores da récita, nomeadamente Donato di Stefano como Dr. Bartolo e Mário João Alves como Don Basilio.
Foi ainda digno de registo a frequente falta de entrosamento das várias personagens, cada uma cantando para seu lado, fatal nesta ópera, onde os ensembles são tão frequentes e importantes.


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sábado, 17 de abril de 2010

La SONNAMBULA – Wiener Staatsoper, Viena, Abril de 2010

De Vicenzo Bellini, um dos meus compositores favoritos (confesso-me um grande apreciador do belcanto), La sonnambula é a sua ópera que já tive oportunidade de ver mais vezes, muitas delas fruto do acaso, mas quase sempre com excelentes intérpretes. E, novamente, foi isso que aconteceu em Viena.

As minhas expectativas estavam no nível mais elevado, pois teria a oportunidade de ver juntos dois dos meus cantores favoritos, Natalie Dessay e Juan Diego Flórez. E, seguramente, não era o único pois qualquer destes artistas mas, sobretudo, Florez, faz esgotar todas as récitas em que actua, tal a expectativa que cria, sem nunca, até à data e que seja do meu conhecimento, defraudar.

A encenação de Marco Arturo Marelli é moderna, não particularmente excitante, mas decente e passada, toda ela, num cenário de festa de casamento (num hotel de montanha). Enfim, afinal esse é o enredo principal…

O maestro foi, novamente, Marco Armiliato que voltou a não estar bem, criando algumas dificuldades aos cantores, mas menores que no Rigoletto que vira na véspera. Dito isto, passo não tanto a uma crítica, mas mais a um exercício laudatório.
Natalie Dessay foi, como sempre, uma artista estupenda. No difícil papel de Amina, esteve cenicamente irrepreensível e vocalmente ao nível que esperava. A figura, pequena, magra e frágil, é inversamente proporcional à voz, pujante e segura. Não sendo já uma menina, faz um papel convincente, enche facilmente uma sala grande como esta, canta e representa com enorme credibilidade e emoção, e comove qualquer apreciador do estilo. Confesso que, por vezes, me pareceu ter ligeiras dificuldades vocais mas, se assim foi, foram superadas com maestria técnica e, no compto final, deu-nos uma interpretação magnífica da personagem.


Elvino foi interpretado por Juan Diego Flórez, um dos artistas que persigo sempre que posso e que nunca me desiludiu, como referi. Mais uma vez foi sublime! Já vai sendo um lugar comum, mas acho que esta foi a sua melhor interpretação que presenciei. A técnica vocal é prodigiosa, o talento extraordinário, a musicalidade única, o timbre belíssimo, os agudos fáceis e luminosos, o fraseado perfeito e o trinar na estratosfera surge com uma naturalidade que o faz parecer trivial. É, em minha opinião, a perfeição no belcanto, para a qual não há rival na actualidade, que provoca uma emoção e entusiasmo no público como raramente se vê. Conto-me entre os admiradores incondicionais de Juan Diego Flórez e a minha admiração não sofre qualquer beliscadura pelo facto de o artista não ter uma voz enorme (mas tem uma técnica perfeita) nem ser, do ponto de vista teatral, um óptimo actor, apesar de manter uma figura excelente para os papeis que representa.

Se as duas personagens principais foram excepcionais, o mesmo direi dos restantes artistas. Michele Pertusi foi um conde Rodolfo seguro, convincente e de voz potente e muito agradável. A jovem Theodora Gheorghiu foi uma Lisa brilhante, cénica e vocalmente, mostrando uma frescura e suavidade na voz que penso que lhe trarão grandes interpretações no futuro. Também Janina Baechle como Teresa e Tae Joong Yang como Alessio estiveram em grande forma.

Tive o privilégio de assistir a um superior espectáculo de ópera, um daqueles que nos fazem sentir que vivemos uns momentos mágicos onde, para além dos cantores principais terem estado ao seu melhor nível, todos os restantes foram óptimos e poderiam ter sido solistas em qualquer espectáculo de ópera. Um espanto!


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O PÚBLICO EM VIENA

Viena é seguramente um dos melhores teatros do mundo para ver ópera. É uma sala grande, não particularmente bonita no auditório principal, mas magnífica em todos os outros recantos.
O público, maioritariamente austríaco mas com muitos estrangeiros, sobretudo japoneses, veste-se a rigor, o que não deixa de ser interessante e nos recorda que, mesmo na Austria, assistir a um espectáculo de ópera não é uma trivialidade do dia a dia. As tosses são escassas e não ouvi quaisquer ruidos perturbadores à minha volta. Contudo, disse-me um amigo que lá encontrei numa das récitas que, uma mulher russa sentada atrás de si, atendeu e falou ao telemóvel mais de uma vez!! (Só pode ser a excepção que confirma a regra!).
Aqui ouve-se verdadeiramente tudo o que os compositores escreveram. Muito conhecedor das obras em cena, não há aplausos intempestivos em nenhum momento, podendo apreciar-se a música até ao fim. É um dos raros teatros de ópera de primeira grandeza onde tal acontece. Uma maravilha! Quando é altura de aplaudir, se os intérpretes são bons (o habitual neste teatro), não se poupam a demonstrar satisfação que, quando os cantores são excepcionais, para além dos aplausos, dos bravos, dos assobios, das flores e de outras manifestações de júbilo, também surgem pateadas que, entre nós, teriam significado oposto.

Neste teatro, aliás como em tudo na Austria, os horários cumprem-se ao minuto. Apenas para se ter uma ideia do que pode acontecer, na récita da Sonambula que vi, e que deveria terminar às 22h00, a prestação da Natalie Dessay e, sobretudo, do Juan Diego Flórez foi de tal qualidade que, com os aplausos que lhes foram presenteados, o espectáculo terminou próximo das 22h45m!



O que verdadeiramente me surpreendeu e pensava ser impossível é o mercado negro da venda de bilhetes. É à descarada, à porta do teatro, ou mesmo dentro dele quando chove, pedindo-se quantias exorbitantes (e há sempre quem pague, pois as récitas estão esgotadas há muito). Não compreendo como isto é permitido num local destes, mas foi assim nas 4 récitas que vi.