sábado, 5 de dezembro de 2015

CAVALLERIA RUSTICANA / PAGLIACCI Royal Opera House, Londres, Dezembro 2015 / London, December 2015

(review in English below)

Estão em cena na Royal Opera House de Londres as duas operas do verismo italiano que mais vezes se apresentam em conjunto – Cavalleria Rusticana de P Mascagni e Pagliacci de R Leoncavallo.

A encenação, da equipa chefiada pelo italiano Damiano Michieletto, é fantástica. Numa abordagem convencional, trouxe a acção para os finais do século passado e fez várias pontes de ligação entre as duas operas. O palco é rotativo, permitindo mostrar 3 cenários sucessivamente e há elementos comuns como um crucifixo grande, uma imagem da virgem Maria, e vários outros elementos.


A Cavalleria Rusticana começa com o Turiddu morto, numa poça de sangue, e a mãe Lucia, lamentando a morte. Depois a história retoma o curso habitual, passa-se numa padaria e ao seu redor. Um dos empregados da padaria é o Silvio da ópera Pagliacci que, num interlúdio musical, oferece um lenço à cliente Nedda, por quem se apaixona, e beijam-se. Tudo decorre sem canto e só na segunda ópera se percebe esta ligação. Também são colados cartazes a anunciar a ópera Pagliacci, que aparecerão na segunda ópera. Na procissão a imagem da virgem Maria ganha vida e aponta o dedo à Santuzza, pecadora, num dos momentos cenicamente mais marcantes. A ópera termina como começou, com a morte do Turiddu.

(Fotografia / Photo Catherine Ashmore, Royal Opera House)

(Fotografia / Photo Catherine Ashmore, Royal Opera House)

 Pagliaci decorre no que poderá ser um salão de festas de um bairro popular. Toda a acção se passa no salão, onde decorre o espectáculo dos palhaços, no camarim anexo, e nas redondezas. Nas portas, estão os cartazes que anunciam o espectáculo, já vistos no primeiro acto. A produção é bem melhor que a da ópera anterior, há uma simbiose perfeita entre a realidade e o espectáculo dos palhaços. No interlúdio musical entre os dois actos, aparece a Santuzza ainda a chorar a morte do Turiddu, consolada por um padre e que se reconcilia com a Mamma Lucia, informando-a que está grávida. Novamente, tudo acontece em silêncio.

(Fotografia / Photo Catherine Ashmore, Royal Opera House)

(Fotografia / Photo Catherine Ashmore, Royal Opera House)


Foi uma das encenações mais conseguidas que vi destas óperas, mas no público houve quem não gostasse, pois houve alguns booos entre os aplausos muito entusiásticos da maioria.



A direcção musical, excelente, foi de Antonio Pappano.



O tenor Aleksandrs Antonenko foi o Turiddu e o Canio. Teve uma óptima interpretação vocal, sobretudo como Canio. O registo médio da voz é excelente, mas nos agudos por vezes parece ter dificuldades, embora sempre bem audível. Não é um actor nato e isso reflecte-se no desempenho, embora na ópera Pagliacci tenha estado ao mais alto nível.



O barítono Dimitri Platanias também cantou dois papéis, Alfio na primeira e Tonio na segunda ópera. Tem uma voz poderosíssima, muito expressiva e bem timbrada. Também achei que a interpretação foi melhor em Pagliacci onde, logo no prólogo, foi absolutamente sensacional.



Eva-Maria Westbroek foi uma Santuzza desesperada e revoltada, de voz enorme e expressiva, mas com um vibrato excessivo. Na cena da procissão esteve particularmente bem, quer cénica quer vocalmente, sempre sobre a orquestra e o (enorme) coro.



Fantástica foi a Mamma Lucia de Elena Zilio. Cantou de forma impecável e representou como se estivéssemos a ver um filme.



A Lola de Martina Velli também foi muito expressiva, voz bonita, afinada e presença muito sensual no palco.



Carmen Giannattasio foi uma Nedda fabulosa, outra intérprete excelente tanto no canto como no desempenho cénico. A voz é muito poderosa, afinada, bonita, apenas nas notas mais agudas tem uma ligeira tendência para a estridência.



Também Dionysios Sourbis como Silvio foi outro intérprete de grande qualidade que aliou à interpretação vocal doce e expressiva uma postura cénica de superior qualidade.



Mais um espectáculo de grande qualidade na Royal Opera House.







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CAVALLERIA RUSTICANA / PAGLIACCI Royal Opera House, London, December 2015

On stage at the Royal Opera House in London are the two operas of the Italian verismo that more often are presented together - Cavalleria Rusticana by P Mascagni, and Pagliacci by R Leoncavallo.

The Italian director, Damiano Michieletto, did a fantastic job. In a conventional approach, he brought the action to the end of the last century and made several bridges linking the two operas. The stage is rotatable, allowing three scenarios show successively and there are common elements to the two operas such as a large crucifix, an image of the Virgin Mary, and various others.

Cavalleria Rusticana begins with Turiddu dead in a pool of blood, and mother Lucia, mourning the death. After, the story takes the usual course, takes place in a bakery and around. One of the bakery employees is of Silvio from the opera Pagliacci, during a musical interlude he offers a scarf to customer Nedda, with whom he falls in love, after a kiss. It all stems without singing and this link is perceived only during the second opera. Posters announcing the opera Pagliacci are also pasted, which will appear in the second opera. In the procession the image of the Virgin Mary comes to life and points the finger at Santuzza, sinful, one of the scenically most memorable moments. The opera ends as it began, with the death of Turiddu.

 Pagliaci takes place in what could be a ballroom of a popular neighborhood. The entire action takes place in the hall where the show takes place, in the dressing room, and nearby. On the doors are posters advertising the show, already seen in the first opera. This production is much better than the previous opera, there is a perfect symbiosis between reality and the show of the clowns. In the musical interlude between two acts, Santuzza appears, still mourning the death of Turiddu, consoled by a priest and reconciliates with Mamma Lucia, informing her that she is pregnant. Again, everything happens in silence.

It was one of the most accomplished performances I saw of these operas, but in the audience there were those who did not appreciate, because there were some booos among the very enthusiastic applause of the majority.

The great musical direction was by Antonio Pappano.

Tenor Aleksandrs Antonenko was Turiddu and Canio. We had a great vocal performance, especially as Canio. The medium register of his voice was excellent, but in the top notes sometimes he seemed to have difficulties, though he was always well audible. He is not a born actor and this is reflected in the performance, although in Pagliacci he has been at the highest level.

Baritone Dimitri Platanias also sang two roles, Alfio and Tonio in the first second operas. He has a powerful and very expressive voice. I also found that the performance was better in Pagliacci where as early as the prologue, he was absolutely sensational.

Eva-Maria Westbroek was a desperate and revengeful Santuzza, her voice was huge and expressive, but with excessive vibrato. In the procession scene she was particularly well both scenic and vocally, always over the orchestra and the (huge) choir.

Fantastic was Elena Zilio’s the Mamma Lucia. She sang flawlessly and performed as if we were watching a movie.

Martina Velli's Lola was also very expressive, with a beautiful tuned voice, and a very sensual stage presence.

Carmen Giannattasio was a fabulous Nedda, another great performer both vocally and onstage. The voice is very powerful, refined, beautiful, only on high notes she has a slight tendency to shrillness.

Also Dionysios Sourbis as Silvio was another high quality interpreter who teamed with sweet and expressive vocal interpretation a stage performance of superior quality.

Another great quality performance at the Royal Opera House.


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1 comentário:

  1. O conceito da encenação soa muito interessante! Estou a ver que o tenor Antonenko está a dar muito que falar e desperta opiniões diversas na Internet.

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