sexta-feira, 19 de novembro de 2010

19 de Novembro – Primeiro Aniversário do Fanáticos da Ópera


O blogue Fanáticos da Ópera faz hoje um ano!


Eu e o wagner_fanatic, dois colegas de profissão e amantes da lírica, tínhamos por hábito discutir as experiências operáticas que íamos vivendo. Por vezes recordávamos espectáculos antigos e lamentávamos não ter um registo mais objectivo de factos que evocávamos: uma récita fabulosa, uma (ou várias) interpretações arrasadoras, uma encenação marcante, um encontro inesperado (ou procurado na stage door) com um artista, um episódio insólito. Então surge a ideia de … um blogue! Assim poderíamos gravar de forma mais permanente as nossas memórias e estas poderiam ser lidas por outros.

Mas, como fazê-lo? O melhor seria, humildemente, assumir a nossa ignorância sobre como entrar activamente na blogosfera e pedir ajuda a amigos. Todos nos disseram que era facílimo! “Bastava seguir as instruções”. Resolvemos começar, a medo, e o início do Fanáticos da Ópera é um espelho da nossa total inexperiência.

Fomos fazendo os nossos relatos e eis que, quatro meses depois (!), surge o primeiro comentário de um desconhecido! O que fazer agora? Agradece-se? Responde-se?
Deixámos passar. Até que escrevemos sobre a uma ópera (de má memória) no São Carlos, Die Fledermaus. Chovem os comentários de diversas naturezas (a expressão parece exagerada mas, até aí, tínhamos recebido apenas um), o que foi uma revelação para nós e o primeiro indício que havia mais gente do que pensávamos a ler o blogue.

Em Julho dá-se uma grande mais valia – a inclusão de outro autor – o FanáticoDois. De agora em diante, passamos a ser três!

Entretanto, a chegada de comentários passou de rara a ocasional e, posteriormente, de ocasional a frequente. Com satisfação verificámos que alguns dos que comentavam o faziam repetidamente, o que indiciava visitas regulares, talvez por interesse ou curiosidade.

Verdadeiramente impressionante para nós foi o acesso à informação estatística que nos passou a ser facultada, já não me recordo quando, mas penso que no verão. Ficámos incrédulos com a quantidade e diversidade (geográfica) dos visitantes. Por curiosidade, vimos páginas do blogue traduzidas em inglês,



mas também em idiomas menos esperados como polaco, búlgaro,



hebraico, grego,







russo, chinês,



e japonês.



Ficámos contentes, orgulhosos e um pouco ambiciosos. Sim, ambiciosos porque introduzimos novidades, sempre pela mão do wagner_fanatic – em Agosto a inclusão de vídeos gravados no final dos espectáculos, em Setembro a tradução dos textos em inglês (o inglês "possível"!). E a coisa deu frutos porque recebemos referências no YouTube sobre os vídeos e apareceram os primeiros comentários em inglês (em Outubro), presumimos de quem não conheça a nossa língua.

Entretanto, ao fim de um ano de existência:
- Escrevemos sobre 72 espectáculos que vimos e ouvimos.
- Temos 27 seguidores “registados”, (incluindo nós próprios).
- Tivemos cerca de 23.400 visitantes desde o início de Julho de 2010.
- Verificámos que cerca de 45% das visitas foram de países estrangeiros (principalmente do Brasil mas no “top 10” estão também Alemanha, EUA, Reino Unido, Espanha, França, Áustria, Suiça e Itália).

Temos procurado acompanhar outros blogues escritos em português (e não só) que também dedicam parte significativa dos seus conteúdos à ópera. Da maioria dos seus autores e de outros comentadores temos recebido contributos muito enriquecedores. Mais uma vez os refiro:

- Paulo do Valkirio.
- Plácido Zacarias do Ópera Lisboa.
- Blogger do Ópera para Principiantes.
- Alberto Velez Grilo do Outras Escritas.
- Elsa Mendes do Ars Super Omnia.
- lotus-eater do Operasora
- Il Dissoluto Punito do Ópera e Demais Interesses (com pena nossa, do Dissoluto nunca tivemos um comentário, mas a elevada qualidade do blogue é sempre por nós salientada).
- Gus on Earth, demoura, Bartolomeu, Sr. José Mlinsky, e, os muito recém-aparecidos, Ali Hassan Ayache, LG, sonsprinter.

A todos, artistas dos espectáculos, autores dos outros blogues, comentadores e leitores, o nosso muito obrigado por enriquecerem este espaço com os vossos contributos! Bem hajam!

Quem diria, há um ano, quando começámos, que hoje estaríamos assim??




November 19th - The First Anniversary of OPERA FANATICS


Today is the first anniversary of The Opera Fanatics blog!


Wagner_fanatic and I, two colleagues in profession and opera lovers, had a habit of discussing the operatic experiments we were living. Sometimes we recalled old performances and we regretted that we did not have a more objective record of memorable moments: a fabulous recital, one (or several) extraordinary performances, a remarkable staging, an unexpected encounter (or searched for at the stage door) with an artist. Then, the idea of a blog came to mind! We could record in a more permanent medium our memories and at the same time these could be read by others.

But how could we go about it? The best would be to humbly accept our ignorance on how to actively engage in the blogosphere and ask for help from friends. Everyone told us it was a breeze! "Just follow the instructions." In fear, we decided to dive in. The beginning of the ”Opera Fanatics” is a mirror of our total inexperience.

We started our reports and, four months later (!), comes the first comment from a stranger! What now? Shall we thank? Or answer? In the end we did not respond to this comment. Until we wrote about an opera in the “São Carlos” opera house, Die Fledermaus (of bad memory). Comments of various kinds suddenly exploded (the term seems exaggerated, but until then we had received only one), these were a revelation for us and the first signal that there were more people than we thought reading the blog.

In July a big improvement takes place - the inclusion of another author - the “FanáticoDois”. From now on, we were three regular contributors!

And still the frequency of comments went from rare to occasional, and later from occasional to frequent. With satisfaction we found that some of those who commented did so repeatedly, which suggested regular reading of the blog, perhaps by interest or curiosity.

Truly impressive for us was the access to statistical information that we began to be provided to us, I do not remember when, but I think in the summer. We were incredulous at the amount and geographic diversity of our visitors. Surprisingly, we saw pages of the blog translated into English,


but also into less expected languages like Polish, Bulgarian,





Hebrew, Greek,







Russian, Chinese,




and Japanese.





We were happy and proud and became a little ambitious. Yes, ambitious because we introduced new features, always pushed by wagner_fanatic - in August the inclusion of videosrecorded at the end of performances (curtain calls) and in September the translation into English of the texts (the "possible" English!). These changes paid off because we got references on YouTube about our videos and the first comments in English appeared in the blog (in October), we assume from those who do not understand Portuguese.

Meanwhile, after a year of existence:
- We wrote about 72 performances we saw and heard.
- We have 27 "registered" followers, (including ourselves).
- We had 23 400 visitors since the beginning of July 2010.
- We found that about 45% of visitors were from foreign countries (mainly from Brazil but also in the "top 10" are Germany, USA, UK, Spain, France, Austria, Switzerland and Italy).

We have followed other blogs written in Portuguese (and not only), also devoted to opera. From the majority of their authors (and from other people) we have received enriching contributions. We mention them again:
- Paulo from the blog Valkirio.
- Placido Zacarias from the blog Opera Lisboa.
- Blogger's from the blog Opera para Principiantes.
- Alberto Velez Grilo from the blog Outras Escritas.
- Elsa Mendes from the blog Ars Super Omnia.
- lotus-eater do Operasora.
- Il Dissoluto Punito from the blog Opera e Demais Interesses (with regret, we never had a comment from Il Dissoluto, but the high quality of his blog is always underlined by us).
- Gus on Earth, demoura, Bartolomeu, Sr. José Mlinsky, and, the newcomers, Ali Hassan Ayache, LG, sonsprinter.

To all, artists, authors from other blogs, commentators and readers, our sincere thank you for the enrichment of our blog with your contributions!

Who would think a year ago, when we started, that “Opera Fanatics” would become what we are now?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vittorio Grigolo - The Italian Tenor

Vit.
(review in english below)

O tenor Vittorio Grigolo é um dos novos tenores em ascenção e a merecer a atenção dos Fanáticos. Tendo assistido à sua estreia na Royal Opera House, Londres, em Julho passado na produção da Manon de Jules Massenet, na companhia de Anna Netrebko, e da sua prestação, dois meses depois, no Rigoletto em Mantova com Plácido Domingo (críticas de ambos neste blog), o seu primeiro CD de árias era imperdível e impreterível na minha estante.


(Vittorio Grigolo como Des Grieux na Manon de Massenet - Royal Opera House - Jul 2010)

(Vittorio Grigolo como Duque de Mantua no Rigoletto de Verdi - Set 2010)



Aos 33 anos, e com um calendário comedido (opção sensata), parece apostar em formar a carreira em pequenos passos (poder-se-á escutar na Manon em Valência – Dezembro 2010, La Traviata em Berlim – Janeiro 2011 – 2 récitas, Rigoletto em Zurich – 1 récita, Romeu e Julieta em Milão – Junho 2011, com outras datas em Concertos pontuais).

Grigolo passeia-se com grande conforto e mestria sobre algumas das árias italianas mais famosas, maioritariamente de Verdi e Puccini.

Estamos a assistir a uma geração de cantores que, perdoem-me os que assim não acham, contrastam com alguns dos antigos ao não terem receio de exprimir na voz as emoções mesmo que isso implique sussurrar ou chorar notas. Grigolo é já mestre neste aspecto. Dotado de voz quente, de agudos fáceis mas seguros e fortes, timbre claro e sem vibrato constrangedor, tudo o que canta sente. Se cenicamente, por vezes parece exagerar, muito ao estilo de Villazon (o qual quase sempre exagera… ou exagerava ao ponto de se tornar algo irritante), ao escutar estas árias a sua expressividade parece mais equilibrada e no ponto ideal.

O seu ar de galã, no meu ponto de vista, torna-o provavelmente menos apto a representar papéis cómicos como os das óperas de Donizetti - O “Una Furtiva Lagrima” é talvez a ária menos conseguida neste CD. É nas árias do Rigoletto e de Il Trovatore que mais se consegue viver a potência de voz, fazendo paralelo com as de La Bohème e Tosca onde a emoção reina e nos comove facilmente.


(Vittorio Grigolo como Rodolfo em La Bohème - Metropolitan Opera, NY - Oct/Nov 2010)
Recomendo vivamente este CD a todos os Fanáticos por Ópera! Bravo Grigolo!



(as fotos apresentadas fazem parte do site do cantor www.vittoriogrigolo.com)

The tenor Vittorio Grigolo is one of the new tenors in a rising scale and he deserves the full attention of the Fanatics. Having seen his debut at the Royal Opera House, in London, last July, in the production of Jules Massenet's Manon, in the company of Anna Netrebko, and his performance, two months later, in Rigoletto in Mantova with Placido Domingo (both reviews on this blog), his first CD of arias was unmissable, and a must have on my shelf.


(Vittorio Grigolo as Des Grieux at Massenet's Manon - Royal Opera House - Jul 2010)

(Vittorio Grigolo as Il Duca di Mantova on Verdi's Rigoletto - Set 2010)

At the age of 33, and a well programmed schedule, avoiding excesses, he seems to be going on a “baby steps” career (he may be heard in Manon in Valencia - December 2010, La Traviata in Berlin - January 2011- 2 performances, Rigoletto in Zurich – one performance, Romeo and Juliet in Milan - June 2011, and in some isolated concerts on other specific dates).

Grigolo sings along on this CD with great comfort and mastery through some of the most famous Italian arias, mostly by Verdi and Puccini.

I am sorry for the ones that think otherwise but I believe we are seeing a generation of singers who contrast with some of the old singers in that they are not afraid to express emotions in their voices, even if it means to cry or whisper notes. Grigolo is already a master in this department. With its warm voice, easiness of high notes, which come out strong and secure, his clear tone without unpleasant vibrato, he clearly feels every note sung. If scenically sometimes he seems exaggerated, much to the style of Villazon (which almost always exaggerates ... or exaggerated to the point of becoming a bit annoying), when we listen to these arias, his expression appears more balanced.

His romantic looks, in my point of view, makes him less likely to be able to play roles such as the comic ones in the operas of Donizetti - The "Una furtiva lagrima" is perhaps the least successful aria on this CD. It is in the arias from Rigoletto and Il Trovatore that you can find the power of his voice. The ones from La Bohème and Tosca show you how his voice bursts in emotion and easily moves us into tears.

(Vittorio Grigolo as Rodolfo at the Metropolitan Opera La Bohème - Oct/Nov 2010)


I strongly recommend this CD to all the Opera Fanatics! Bravo Grigolo!


(The presented photos are from the tenor’s official site at www.vittoriogrigolo.com)

sábado, 13 de novembro de 2010

DON PASQUALE – Met Live em HD, Fundação Gulbenkian Novembro de 2010

Don Pasquale é uma ópera cómica de Gaetano Donizetti com libreto do compositor e de Giovanni Ruffini. Conta a história de um velho rico que se quer casar com uma jovem mulher que lhe vai fazer a vida negra até obter o que pretende.

Foi o terceiro presente do Met Live que a Fundação Gulbenkian nos ofereceu.

(Please see review in english below)

Don Pasquale velho e solteiro, quer casar-se com uma mulher jovem e assim deserdar o sobrinho Ernesto que está apaixonado por Norina. Pede auxílio ao amigo Dr. Malatesta que o ajuda a casar-se com “Sofronia”, uma tímida e recatada jovem (Norina disfarçada). Após assinado o (falso) contrato nupcial, esta revela-se e faz a vida negra a Don Pasquale, exigindo-lhe todas as extravagâncias que o dinheiro pode comprar. A relação degrada-se e há insinuação de infedilidade por Sofronia. Juntamente com o Dr. Malatesta a situação é desmascarada e Don Pasquale, apesar de enganado, fica aliviado por se ver livre da mulher e perdoa a todos.

Esta ópera está longe de ser uma das minhas preferidas mas contém algumas árias e duetos interessantes e melodiosos e, para nos recordar que estamos face a uma obra de um compositor belcantista, lá está, entre outras, a bonita serenata de Ernesto Com’ è gentile, talvez a ária mais famosa da ópera.

A encenação de Otto Schenk é clássica, explícita e eficaz. Foi James Levine, o maestro titular, que assumiu a direcção musical. Com a Orquestra da Metropolitan Opera, proporcionou-nos uma boa interpretação da obra. O Coro da Metropolitan Opera também esteve muito bem, como é habitual.

O baixo-barítono americano John Del Carlo foi um Don Pasquale extraordinário. Conseguiu cativar-nos ao longo de todo o espectáculo. A voz era forte, apesar de não ter grande beleza tímbrica. Mas em cena foi insuperável. A figura do velho ridículo a babar-se pela jovem rapariga não podia ter sido melhor. Espantoso!

Anna Netrebko, soprano russo, foi uma Norina / Sofronia divertida e também marcante. O papel não se presta à expressão de grandes emoções mas, mesmo assim, emprestou-lhe uma óptima interpretação, cénica e vocal, e deliciou-nos com as suas intervenções. Continuo a achar que a voz está cada vez melhor.
Os leitores deste blogue sabem que, de entre os três Fanáticos que aqui regularmente escrevem, as opiniões sobre Anna Netrebko são muito divergentes, o que é salutar. Desde uma cantora da moda a uma intérprete avassaladora, de tudo se tem escrito por cá. Serei, seguramente, o que mais admira este grande soprano, a quem já vi e ouvi interpretações arrebatadoras como, por exemplo, em Julho passado na Manon de Massenet. Assim, tendo em conta os muitos momentos de incomensurável prazer que Anna Netrebko já me proporcionou, sinto um grande apreço pela cantora e, à partida, acho sempre que vou gostar de a rever. Foi o que aconteceu, embora reconheça que a prefiro ver em papéis mais dramáticos, apesar de ela ter afirmado que gosta de não morrer tantas vezes em cena.

O barítono polaco Mariusz Kwiecien foi um Dr. Malatesta surpreendente. Teve uma irrepreensível presença em palco e excelentes qualidades vocais, imprime nuances interessantes à interpretação, tem um timbre de beleza cativante e mantém a mesma qualidade em todos os registos. A cumplicidade cénica com a Netrebko foi admirável.

Ernesto foi interpretado pelo tenor americano Matthew Polenzani. Foi o elo mais fraco deste elenco superior. Cenicamente esteve aquém do que esperei. A voz também não me impressionou. Achei-a pouco expressiva, um timbre frequentemente metálico, que não era bonito e não mostrou grande maleabilidade.


Muitos consideram Don Pasquale a obra prima das óperas cómicas de Donizetti. Não partilho dessa opinião pois acho que O Elixir do Amor é superior. Tem personagens vocais semelhantes, Adina, Nemorino, Belcore e Dr. Dulcamara, mas todas elas com trechos musicais mais marcantes.

Esta récita ilustrou na perfeição o que referi no texto que escrevi no início da semana a propósito da importância que dou ao ouvir e ver a ópera. Se hoje só tivéssemos ouvido, seguramente teríamos perdido grande parte do espectáculo, que foi muito mais do que música e canto.
E, mais um excelente espectáculo que nos foi proporcionado pela Gulbenkian.
*****



DON PASQUALE - Met Live in HD, the Gulbenkian Foundation, November 2010

Don Pasquale is a comic opera by Gaetano Donizetti with libretto by the composer and Giovanni Ruffini. It tells the story of a rich old man who wants to marry a young girl who will make his life miserable until she gets what she wants.
This was the third Met Live opera offered this year by the Gulbenkian Foundation.



Don Pasquale, an old and single man, wants to marry a young girl and move away his nephew Ernesto, who is in love with Norina. He asks his friend Dr. Malatesta for help. Dr. Malatesta helps him to marry "Sofronia," a shy young woman (Norina in disguise). After signing the (fake) marriage contract, she reveals herself and makes Don Pascuale’s life miserable, demanding all the extravagances that money can buy. The relationship deteriorates and Don Pasquale discovers that his wife will meet another man, Ernesto. Along with Dr. Malatesta, the situation is unmasked, Don Pasquale is relieved to get rid of Sofronia, and forgives everyone.

This opera is far from being one of my favorite ones but it contains some interesting and melodious duets and arias. The opera includes, among others, the beautiful belcanto serenade of Ernesto Com 'è gentile, perhaps the most famous aria of the opera.

The staging by Otto Schenk is classic, clear and effective. James Levine conducted the Metropolitan Opera Orchestra and offered us a good interpretation of the work. The Choir of the Metropolitan Opera was also very good, as usual.

American bass-baritone John Del Carlo was an extraordinary Don Pasquale. He managed to captivate the audience throughout the performance. The voice was strong but the timbre was not extremely beautiful. But the performance unsurpassed. The ridiculous figure of the old man who wants a young girl could not have been better. Amazing!

Anna Netrebko, Russian soprano, was a fun and impressive Norina / Sofronia. The character is not prone to the expression of strong emotions, but even so, she had a great vocal and artistic performance, and delighted us on stage. I think her voice is getting better.
The readers of this blog know that among the three fanatics who regularly write here, opinions on Anna Netrebko are widely divergent. From “the fashion singer” to “a singer of overwhelming qualities”, everything has been written here. I am, for sure, the greatest admirer of Netrebko among the three of us. I have already seen several astonishing performances as, for example, last July in Massenet's Manon. Thus, taking into account the many moments of immeasurable delight that Anna Netrebko has given me, I feel a great appreciation for the singer and I am always sure I will like her whenever I see her again. That was what happened, although I admit I prefer to see her in dramatic roles, although she said “It is so nice not to die for a chance”.

Polish baritone Mariusz Kwiecien was a fantastic Dr. Malatesta. He had an impeccable stage presence, has excellent vocal qualities, with interesting vocal nuances. He has a captivating beauty of tone and maintains the same quality in all scale. The complicity with Netrebko was admirable.

Ernesto was played by the American tenor Matthew Polenzani. He was the weakest part of this excellent cast. Artistically he was less impressive than expected. The voice also did not impress me. I did not found it very expressive, often with a metal timber, which was not nice and did not show great flexibility.


Many consider Don Pasquale the masterpiece of comic operas by Donizetti. I do not share this view because I think L’Elisir d’Amore is better. It has similar vocal characters, Adina, Nemorino, Belcore and Dr. Dulcamara, but all with more striking pieces of beautiful music.

This performance illustrated perfectly what I said in the text that I wrote earlier this week about the importance I give to hear and see opera. If we had only heard today’s performance, surely we would have lost much of the show, which was much more than music and singing. This was another great performance that has been provided by the Gulbenkian Foundation.


*****

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Jonas Kaufmann, o tenor completo (e um belo presente do meu amigo wagner_fanatic)

Jonas Kaufmann, the complete tenor
(and a nice gift from my friend wagner_fanatic)
(Please see review in english below)


Jonas Kaufmann foi-me apresentado há já alguns anos, ainda não era uma super-estrela mundial, pelo wagner_fanatic. Viu-o ao vivo, penso que na Alemanha, e disse-me que me agradaria, dadas as qualidades que lhe reconheceu.
Pouco tempo depois tive oportunidade de o ouvir, pela primeira vez, numa impressionante produção do Fidelio, na Ópera de Zurique. Gostei, mas a boa impressão que me causou ficou diluída em todo aquele espectáculo marcante.

Pelos textos que aqui escrevo já dei a entender que, para mim, numa ópera, o que mais importa é o canto, mas valorizo muito também a interpretação musical, a capacidade cénica dos cantores e a encenação. Sei que vou contra a corrente dos puristas, mas é assim! Não sou daqueles que dizem que fecham os olhos. Acho que olhos e ouvidos abertos são compatíveis e complementares! E, talvez por isso, apesar de ter um enorme respeito pelos grandes cantores do passado, valorizo muito os que estão no activo, pois só eles nos podem surpreender com algo novo e transcendente.



Claro que estas considerações vêm a propósito de Jonas Kaufmann. Quando saiu o CD “Romantic Arias” o wagner-fanatic ofereceu-mo ainda antes da comercialização no país, como justificação da sua acertada recomendação (digo eu). Pouco tempo depois comprei o CD da “Madama Butterfly” (de Pappano, com a Gheorghiu que tanto gosto em grande forma) e o DVD do “Lohengrin” de Munique. Esta semana, acabo de receber novo presente do wagner_fanatic, o CD “Verismo Arias”.

Kaufmann é, para mim, um dos melhores da actualidade. Tem tudo, é o tenor completo! Uma voz quente e poderosa, de enorme grandeza e expressividade, capaz de transmitir todo o tipo de emoções. O timbre é belíssimo e ímpar, basta ouvir poucos segundos que se reconhece de imediato (são poucos os cantores em que isso acontece e, habitualmente, só com os de excepção). Há quem o compare a Vickers ou Corelli mas discordo, pois acho que é único. Aborda com igual qualidade um vasto reportório, do lírico ao dramático. O perfume baritonal da voz dá-lhe um encanto particular no registo mais grave, mas não deixa de ter uns agudos de arrepiar, juntando potência, beleza e altura. Também a mezza voce é notável, capaz de sussurrar com extrema elegância as notas mais suaves. Cenicamente é muito convincente porque alia uma figura óptima, compatível com as personagens que desempenha, a marcadas qualidades de representação, aspecto que nunca descura.
Assim foi sempre que o vi.



Não me é fácil fazer escolhas neste caso mas aqui sugiro algumas interpretações superlativas, uma de cada gravação: E lucevan le stelle da Tosca, o dueto de amor com Cio Cio San Vogliatemi bene, un bene piccolino da Madma Butterfly, o Lamento di Frederico de L’Arlesiana e todo o último acto do Lohengrin – único e sublime!



Jonas Kaufmann é, actualmente, membro efectivo do muito restito clube de tenores que aprecio incondicionalmente e que me fazem procurar os locais onde actuam. As únicas palavras de preocupação são precisamente neste aspecto, o seu calendário: canta quase tudo, por todo o lado e quase sempre, sem dar grande descanso à voz. Espero que não venha a ter dissabores. Seria uma pena para ele e. sobretudo, para todos nós!

Caro wagner_fanatic, muito obrigado por me ter apresentado este excepcional artista e, sim, acho que acertou em cheio no conselho que me deu! Bem haja!






Jonas Kaufmann was introduced to me some years ago by wagner_fanatic. He was not yet a superstar. My friend saw him live, I think in Germany, and told me that surely he would please me because of his performance qualities.
Shortly thereafter I had the opportunity to hear him for the first time in a stunning production of Fidelio at the Zurich Opera. I liked him, but the good impression he caused me was diluted in that striking performance of the opera.

In the texts that I write here I have already mentioned that, for me, in an opera, what matters most is the singing, but I also appreciate the musical interpretation, the artistic qualities of the singers and the staging. I know I'm against the thought of the opera purists, but it is so! I'm not on of those who say they close their eyes (though I also enjoy an occasional good opera in concert version). I think open eyes and open ears are compatible and complementary! And perhaps this is why, despite having an enormous respect for the great singers of the past, I much appreciate those who are singing now, because they are the only ones who can surprise us with something new and transcendent.


Of course these statements are related to Jonas Kaufmann. When the CD "Romantic Arias" appeared, wagner-fanatic offered it to me even before it was on sale in the country, as proof of his wise recommendation (my guess). Shortly after, I bought the CD of "Madama Butterfly" (by Pappano, with Gheorghiu in great style, whom I like so much), and the DVD of "Lohengrin" in Munich. This week, I just got this new present from wagner_fanatic, the CD " Verismo Arias”.

Kaufmann is, for me, one of the best. He has everything, he is the complete tenor! He has a warm, powerful and expressive voice of enormous magnitude, capable of expressing all sorts of emotions. The tone is beautiful and unique, we just listen a few seconds and we recognize it immediately (these happens with only few singers, and usually only with the excellent ones). Some compare his voice to Vickers’ or Corelli’s but I disagree. I think his voice is unique. He sings a vast repertoire with equal quality, from lyrical to dramatic. The baritone perfume of the voice gives it a particular charm in the lower range, but he is also capable of singing striking high notes with power and beauty. Also notable is his mezza voce. He is able to whisper with extreme elegance softer notes. On stage he is very convincing because he combines a figure with good looks, compatible with the characters he plays, with high performance qualities, an aspect he never neglected.
So it was whenever I saw him.


It is not easy for me to make choices in this case but here are some superlative interpretations, one from each mentioned recordings: E lucevan le stelle from Tosca, the love duet with Cio Cio San Vogliatemi bene, un bene piccolino from Madama Butterfly, Lamento di Federico from L'Arlesienne and the last act of Lohengrin - unique and sublime!



Jonas Kaufmann is currently a rare member of the club of the tenors that I appreciate unconditionally and that make me look for the places where they perform. The only words of concern are precisely in this respect: Kaufmann’s calendar. He sings almost everything, almost everywhere and almost everyday, without giving rest to his voice. I hope he will have no problems with it. It would be a shame for him and, mostly, for us!

Dear wagner_fanatic, thank you for introducing me to this exceptional artist and, yes, I think you were totally right with your advice. Thanks a lot!

(Concerning translation, this is the best we can do. Please do not hesitate to comment if you feel it is not correct. We decided to translate this post into english because we know we have several visitors from abroad that, we guess, do not understand portuguese. Thank you).

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Wagner, Berg, Mahler & Schubert – Fundação Calouste Gulbenkian – 4 de Novembro 2010

O maestro Lawrence Foster abriu o concerto de hoje, no palco da Gulbenkian, com um muito íntimo Idílio de Siegfried de Richard Wagner. Imagino realmente o que Cosima terá sentido ao acordar com este trecho musical de beleza e serenidade tão profundas. Com um final tão relaxante pergunto-me: “Porquê a ânsia do aplauso?!” Deixem que a música viva e assente no vosso espírito, escutem o silêncio pós obra, espectadores da Gulbenkian!



Perdoem-me aqueles que adoram música do século XX mas, para mim, dodecafonismo, atonalismo e outros ismos do género não encontram formatação (pelo menos ainda) no meu cérebro e no meu coração. Foi-me algo penoso escutar o Concerto de Câmara de Alban Berg...

A segunda parte iniciou-se com os Funf frühe Lieder de Mahler com a orquestração de Luciano Berio. O solista foi o barítono Detlef Roth. Dotado de clássica voz de barítono, timbre bonito, voz expressiva, fez-me lamentar não ter apostado em ir a Genebra, em Março deste ano, e ouvir o Parsifal em cena. Fez de Amfortas e presentemente é o Amfortas na produção de Bayreuth. Esperemos pela transmissão da Antena 2 para avaliar a sua capacidade interpretativa neste papel wagneriano.



A acabar, Foster ofereceu-nos uma obra que frequentemente tem trazido ao palco da Gulbenkian: a 8ª sinfonia de Schubert. E compreende-se a razão. Apesar de incompleta, encerra talvez os andamentos mais líricos das 9 sinfonias do compositor. A Orquestra da Gulbenkian ao seu mais alto nível encerrou um concerto mais do que agradável.



Gravações recomendadas para o Idílio de Siegfried e para a 8ª Sinfonia:







Wagner, Berg, Mahler & Schubert - Calouste Gulbenkian Foundation - November 4, 2010

The conductor Lawrence Foster opened the concert today with a very intimate Siegfried Idyll by Richard Wagner. I can only imagine what Cosima felt when she woke listening to this piece of music so full of profound beauty and serenity. With a final so relaxing I wonder: "Why the eagerness of applause?" Let the music live and settled in your spirit, listen to the silence at the end, my Gulbenkian listeners!



Forgive me for those who love music of the twentieth century, but to me, dodecaphonism, atonalism and other “isms” of the kind are not formatted (at least yet) in my brain and my heart. It was somewhat painful to listen to the Chamber Concerto by Alban Berg ...

The second half began with the Funf frühe Lieder of Mahler's with orchestration by Luciano Berio. The soloist was the baritone Detlef Roth. Featuring a classic baritone voice, beautiful tone, expressive voice, he made me regret my absence at the Geneva Parsifal early this March. He played Amfortas and he is currently the Amfortas of the Bayreuth production also.



At the end, Foster gave us a work he has often brought to this stage: the 8th Symphony of Schubert. And we understand why. Although incomplete, it contains perhaps the most lyrical movements of the nine symphonies of the composer. The Gulbenkian Orchestra was at its highest level concluding a more than pleasant concert.



Recommended for recordings of Siegfried Idyll and the 8th Symphony:



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CAVALLERIA RUSTICANA – Teatro de São Carlos, Lisboa, Novembro de 2010

Admitindo que a Dona Branca era um espectáculo do ano passado, embora tenha sido apresentado em Outubro, poderemos considerar esta Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, a primeira ópera da temporada 2010-2011 do nosso principal teatro de ópera nacional.

Uma apresentação em versão concerto (a isto nada a dizer) com o novo Maestro / Director, Martin André, e “novo” conceito – contar uma ópera. Confesso que ia com alguma expectativa e na esperança de ser positivamente impressionado. Infelizmente, nada disso aconteceu. De novo o teatro com muitos lugares vagos, apesar de os bilhetes não serem caros e, ao que consta, muitos até foram oferecidos.




Uma obra marcante e de grande beleza do verismo italiano é paulatinamente destruída ao longo da récita. Contar uma ópera – o conceito é interessante, mas para contá-la deve arranjar-se alguém que saiba do que está a falar para não dizer apenas banalidades obvias. Não foi o que aconteceu! E as interrupções sucessivas “matam” a apreciação da evolução musical. Em minha opinião seria melhor contar tudo antes (e com mais qualidade!) e deixar ouvir a peça na íntegra (que até é curta) de seguida.

A Orquestra Sinfónica Portuguesa também não esteve bem, com grandes variações de ritmo e entradas fora de tempo de alguns instrumentos, penso que o maior responsável por isto foi o maestro. Deve ser impossível fazer um bom trabalho assim. O Coro do Teatro de São Carlos esteve novamente mal, ruidoso e com desacertos.

Os solistas também não ajudaram à qualidade do espectáculo. A Santuzza de Sónia Alcobaça (que já fez coisas boas, como a Gutrune no Crepúsculo do ano passado) foi monótona e cantou sem qualquer entusiasmo (e a personagem é das que faz brilhar as intérpretes, quando estão ao nível), Maria Luísa de Freitas deu-nos uma Lola de timbre agreste mas consistente, Fernando del Valle foi um Turiddu irregular na emissão, embora o timbre não fosse feio, mas foi irregular e frequentemente disfónico, Luís Rodrigues confirmou que continua em baixo de forma e foi um Alfio desinteressante e, finalmente, Laryssa Savchenko como Lúcia, fez-se ouvir bem porque gritou muito e com vibrato excessivo.

Tudo junto, parecia que não tinham ensaiado! Não vale a pena gastar mais palavras com este triste espectáculo.
Enfim, começa mal (ou deverei dizer … continua mal) a temporada do São Carlos!
*