segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SALOMÉ de Richard Staruss — Wiener Staatsoper, 24.9.2016

(Review in English bellow)


Salomé foi a primeira ópera de Richard Strauss. Esteada em Dresden no ano de 1905, baseia-se na obra homónima de Oscar Wilde, originalmente escrita em francês. Trata-se, no fundo, de uma tradução, quase ipsis verbis, para o alemão realizada por Hedwig Lachmann.

(Museo Picasso, Barcelona)

O texto tem, por base, episódios bíblicos. Trata-se de uma história de luxúria, incesto, morte e loucura. Salomé, guiada por uma luxúria intensa e pueril, exige que Herodes cumpra a sua promessa: se dançar para ele dar-lhe-á qualquer coisa até metade do reino. Exige, pois, a cabeça de São João Baptista por forma a cumprir o seu desejo de beijar a sua boca. Já com a sua cabeça numa bandeja de prata, beija a boca de Jochanaan, tecendo comentários sobre o amor, o seu mistério e o seu sabor amargo. A frase mais emblemática da obra é Und das Geheimnis der Liebe ist größer als das Geheimnis des Todes, ou seja, o mistério do amor é maior do que o mistério da morte. Tudo isto, perante um aterrado Herodes que, impulsivamente, ordena a morte da enteada entre os escudos dos solados.


A encenação de Boleslaw Barlog não pretende introduzir novas interpretações à obra. Tratando-se de uma ópera em um acto, optou por um cenário único com tons azulados e dourados, ao estilo do artista vienense Gustav Klimt. É visualmente agradável. Em tudo o mais, é uma encenação eficaz, clássica e que cumpre o propósito. Pode questionar-se o facto de não apresentar qualquer tentativa de ser arrojada, intrigante ou repulsiva.


A direcção da Orquestra da WSO esteve a cargo de Alain Altinoglu que se limitou a cumprir, não conseguindo policromatizar a música de Strauss ou dar-lhe uma pesada carga dramática. Ainda assim, não se põe em causa a qualidade da orquestra.

Gerhard A. Siegel foi um Heródes excelente. Grande voz, óptima projecção e interpretação superior. Jane Henschel fez de Herodias. A voz foi algo estridente, mas cumpriu. Narraboth (lamento não ter tirado fotografia ao elenco — o site da WSO não diz quem cantou o papel…) foi óptimo no seu pequeno, mas importante papel.

Matthias Goerne, que ouvira já várias vezes, mas sempre em Lied, foi um Jochanaan expressivo, intenso e escuro. A projecção vocal foi impecável e o seu timbre é de uma beleza conhecida, pelo que foi muito convincente.

Erika Sunnegardh foi uma Salomé doentia, muito embora creia que esta encenação não favorece demasiado a componente teatral da personagem. A voz é potente, o timbre muito agradável, com uns agudos cristalinos e sempre audíveis sobre a orquestra. Pena que no registo mais grave denote maiores dificuldades de projecção. 

O restante elenco cumpriu bem os seus pequenos papéis.

video

Foi, pois, uma récita muito clássica da Salomé de Strauss.

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(Review in English)

Salome was the first opera by Richard Strauss. Premiered in Dresden in 1905, it is based on the homonymous work of Oscar Wilde, originally written in French. It is, almost literally a translatio into German by Hedwig Lachmann.

The text is based on biblical episodes. It is a story of lust, incest, death and madness. Salome, driven by an intense and childlike lust, requires Herod to fulfill its promise: if she dances to him, he must give her everything she asks up to half the kingdom. Therefore, she calls for the head of St. John the Baptist in order to fulfill her desire to kiss his mouth. Already with his head on a silver platter, Salome kisses the mouth of Jochanaan, commenting about love, its mystery and its bitter taste. The most emblematic phrase of the work is the Geheimnis Und der Liebe ist als größer of Geheimnis des Todes, that is, the mystery of love is greater than the mystery of death. All this, before a grounded Herod who impulsively, orders the death of his stepdaughter between the shields of the soles.

The staging of Boleslaw Barlog does not intend to introduce new interpretations to the work. Since this is an opera in one act, he had chosen a unique setting with bluish and golden tones, the style of Viennese artist Gustav Klimt. It is visually pleasing. In all, it is an effective and classical staging. You can question the fact that show no attempt to be bold, intriguing or repulsive.

The WSO Orchestra was directed by Alain Altinoglu. He limited to fulfil his task, failing to give us the blend of different colours Strauss music has or impress with an heavier dramatic weight. Still, I can't doubt of the great quality of the orchestra.

Gerhard A. Siegel was an excellent Herod. Great voice, great vocal projection and top interpretation. Jane Henschel did Herodias. The voice was something shrill, but she fulfilled the task. Narraboth (I regret not having taken photograph of the cast list - the site of the WSO does not say who sang the role...) was great in his small but important role.

Matthias Goerne, whom I've heard several times in Lied, was a very expressive Jochanaan, intense and dark. The vocal projection was impeccable and his tone is of known beauty. Thus, his interpretation was very convincing.

Erika Sunnegardh was a sickly Salome, although I believe that this staging did not  favors the theatrical component of the character. The voice is powerful, very nice timbre, with a crystal clear highs and always audible over the orchestra. However, she denotes greater difficulties in lower register.

The remaining cast went well in their minor roles.


It was therefore a very classical recital of Strauss's Salome.

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