quinta-feira, 26 de junho de 2014

Gershwins' PORGY AND BESS - Danish Royal Opera House, Copenhaga - 26.03.2014

(Review in English below)


A ópera Porgy and Bess de George Gershwin foi composta e estreada em 1935. O libreto é de George e Ira Gershwin, DuBose e Dorothy Heyward.


Estreou com bastante polémica, não só por ser uma história cujos protagonistas são pessoas de raça negra, como pela inovação musical que introduzia, numa aproximação clara ao jazz e com uma muito marcada influência folclore. Gershwin, um compositor judeu, foi acusado (e ainda hoje o é) de racismo e de uma visão sectária e demasiado preconceituosa. Mas o que é facto é que, independentemente das críticas que se possam consubstanciar em algo (?), a ópera de Gershwin tem múltiplas melodias extremamente famosas de onde se destaca Summertime que, hoje em dia, é mais famosa através do jazz.


A nova encenação da escocesa Liz Ascroft é, do ponto de vista visual, muito interessante. Baseia-se numa enorme estrutura em madeira com aspecto deteriorado, mas que representa a comunidade muito familiar em que aquele povo vivia. O cenário existe em 3 planos: uma espécie de pátio e um rés-do-chão e primeiro andar. A acção passa-se nesses 3 planos, sem nenhuma ordem especial e sem qualquer incoerência com o libreto. Pode dizer-se que em todos os aspectos a encenação é clássica: cenário, guarda-roupa, iluminação, direcção de actores. A única coisa que não percebi e que me intrigou foi a presença de Clara com o bebé nos braços do início até que parte em busca de salvar Jake do temporal. Mas foi uma encenação muito bem feita e agradável de seguir.


A orquestra da Royal Danish Opera dirigida por Michael Boder apresentou um bom nível de entrosamento e de interpretação, sem qualquer falha importante e tendo em conta os cantores. Excelente!

No que respeita aos cantores, há a destacar uma óbvia diferença de qualidade entre os elementos dos elencos feminino e masculino: a vantagem foi, claramente, para o primeiro.

Bess foi interpretada pelo soprano americano Lisa Daltrius. A voz é pujante, sobretudo no registo agudo, fazendo ecoar as notas mais altas com facilidade, mas mantendo o timbre agradável. Não podemos dizer o mesmo do registo mais grave onde não esteve tão forte. Mas teve uma boa interpretação vocal. Quanto às capacidades cénicas foi uma intérprete que conseguiu transmitir a densidade da personagem.

Clara foi interpretada pelo soprano Jeanine de Bique. O timbre da voz é bonito, a técnica eficaz e as capacidades expressivas de qualidade. Ofereceu-nos um excelente Summertime e em termos cénicos esteve muito bem.


Sabrina Carten, Serena mulher de assassinado Robins, foi a voz que mais me impressionou. É um mezzo de voz com ampla tessitura que sabe moldar bem. Os seus agudos são brilhantes e vívidos e os graves cheios. As suas capacidades cénicas são também assinaláveis. Talvez, a par da orquestra, a melhor da noite.

Judith Skinner foi Maria tem uma voz de mezzo-soprano muito adequada, com uma postura e sotaque da Carolina do Sul muito interessante e que muito contribuiu pra a construção da personagem.


Porgy foi o baixo-barítono Kenneth Overton. A voz tem um timbre agradável, mas não é um cantor particularmente dotado em qualquer registo: grave, médio ou agudo. Cenicamente, cumpriu com destreza as exigências de andar com uma canadiana improvisada. Foi, pois, melhor actor do que cantor. Teria preferido ao contrário.

Também Sporting Life, aqui interpretado pelo tenor Robert Mack, esteve, vocalmente, muito abaixo do que a personagem exige. O seu problema era que, muitas vezes, se tornava praticamente inaudível, uma vez que a projeção não é o seu forte. Poder-se-ia pensar que foi da orquestra, mas não. Outros cantores conseguiam ouvir-se perfeitamente. Já cenicamente foi o mais empenhado e capaz de todo o elenco. Desse ponto de vista, foi um Sporting Life perfeito.

Crown foi o baixo Ntobeko Rwanga. A voz não tem um timbre particularmente agradável, mas foi sempre audível. Em termos cénicos cumpriu bem, sem entusiasmar.

O Coro esteve em excelente nível, mostrando-se muito entrosado entre si e também com a orquestra.


Foi uma noite muito agradável passada num dos mais cativantes e modernos edifícios de ópera mundiais. É um edifício lindíssimo situado junto ao rio e que faz lembrar um enorme barco. Está decorado com extremo bom gosto e a sala interior tem excelente visibilidade de qualquer ponto. No intervalo fiz um tour pelos vários pisos e até os lugares de pé permitem uma visão completa do palco. Pena que a acústica não seja espectacular. Esse foi o maior defeito que senti. Dias depois, um italiano perguntou-me qual a minha opinião sobre a acústica: também ele vê aí o único defeito da sala. Será, pois, uma experiência a repetir, até porque, apesar de a Dinamarca ser um país muito caro, tem um povo muito simpático, educado e prestável, além de uma gastronomia que, para mim, foi inesperadamente surpreendente.

Deixo-vos fotos e vídeos do edifício.

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(Review in English)

Porgy and Bess by George Gershwin is an opera that was composed and premiered in 1935. The libretto is by George and Ira Gershwin, DuBose and Dorothy Heyward.

Debuted quite controversial, not only because it is a story whose protagonists are black people, but also because of the musical innovation introduced, in a clear approach to jazz and with a very marked influence of folklore. Gershwin, a Jewish composer, was accused (and still is) of racism and of a sectarian and too biased view. But the fact is that regardless of the criticisms that may constitute something (?), Gershwin's opera has many extremely famous melodies, which highlights Summertime that nowadays is more famous by jazz.

A new staging of the Scottish Liz Ascroft is, in the visual point of view, very interesting. It builds on a huge wooden structure with deteriorated aspect, but that is very familiar to the community in which these people lived. The scenario exists in 3 planes: a kind of courtyard and ground floor and first floor. The action takes place in these 3 plans with no particular order and without any inconsistency with the libretto. You could say that in all respects the scenario is classic: scenery, wardrobe, lighting, actors directing. The only thing I did not understand and that intrigued me was the presence of Clara with the baby in her arms until the start of searching to save Jake from the temporal. But it was a performance well done and enjoyable to follow.

The Orchestra of the Royal Danish Opera conducted by Michael Boder showed a good level of rapport and interpretation without any major failure and taking into account the singers. Excellent!

Regarding singers, we can highlight an obvious difference in quality between the elements of female and male casts: the advantage was clearly for the first.

Bess was interpreted by American soprano Lisa Daltrius. The voice is booming, especially in the high register, echoing the high notes with ease, while maintaining the pleasant timbre. We cannot say the same of most low register, which was not as strong. But had a good vocal performance. As for scenic capabilities she was a performer who managed to convey the density of the character.

Clara was played by a soprano Jeanine Peck. The timbre of the voice is beautiful, and of quality and effective technical and expressive capacities. She was excellent in scenic terms and offered us a beautiful Summertime.

Sabrina Carten as Serena, Robins’ widow, was the voice that impressed me most. She has a mezzo voice with wide tessitura she knows well how to mold. Her treble is bright and vivid and bass is full. Her scenic capabilities are also notable. Perhaps, along with the orchestra, she was the best of the night.

Judith Skinner was Maria has a voice of mezzo-soprano quite adequate, with an attitude and accent of South Carolina very interesting that contributed largely to the building of character.

Porgy was the bass-baritone Kenneth Overton. The voice has a nice tone, but he is not a particularly gifted singer in any register: low, medium or high pitch. Scenically, he complied well with the disability Porgy has. He was therefore better actor than singer. We would have preferred the opposite.

Sporting Life here played by tenor Robert Mack was vocally far below what the character requires. His problem was that often became almost inaudible, since the projection is not his best characteristic. It might be because of the orchestra, but it was not. Other singers could be heard perfectly. Scenically he was the most committed and capable of the entire cast. From this point of view, he was a perfect Sporting Life.

Crown was the bass Ntobeko Rwanga. The voice does not have a particularly pleasant timbre, but he was always audible. In scenic terms he fulfilled without enthusiasm.

The choir was in excellent level, being highly regarded among themselves and with the orchestra.

It was a very nice evening in one of the most captivating and modern buildings of opera world. It is a beautiful building situated next to the river and resembles a huge boat. It is decorated with exquisite taste and the interior room has excellent visibility from any point. At halftime I made a tour of several floors and even the standing room allow a full view of the stage. Too bad the sound is not spectacular. That was the greatest flaw I felt. Days later, an Italian asked me about my opinion on the acoustics: he also feels it as the only defect of the hall. It will therefore be an experience to repeat, because even though Denmark is a very expensive country, has a very friendly, polite and helpful people, and a cuisine that, for me, was unexpectedly amazing.


I leave you photos and videos of the building.

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