domingo, 16 de março de 2014

WERTHER de Jules Massenet — MET Live in HD, FCG, 15.03.2014

(Review in English below)

 (www.gulbenkian.pt)

A ópera em quatro actos Werther de Jules Massenet (1842-1912) foi composta em 1887. O libreto é de Édouard Blau, Paul Milliet e Georges Hartmann e baseia-se no romance homónimo do escritor alemão do período romântico Johann Wolfgang von Goethe.

(www.wikipedia.com)

A obra de Goethe é um dos expoentes máximos do romantismo alemão. O texto é riquíssimo na abordagem que faz da natureza humana intimista; da sua alegria e tristeza; da paixão, do amor e do ódio; da esperança, da fé, do querer e do desespero que, por vezes, resvala para a doença mental. É o ser humano nas suas dimensões mais interiores, na sua relação consigo e com o outro próximo e na procura da ausência de solidão.

(www.wikipedia.com)

É disso que trata a ópera de Massenet. Como ópera do período romântico, e não fossem os compositores franceses os que talvez mais bem tenham exploraram essa corrente, é daquelas que tem sempre os sentimentos à flor da pele e em que a música e o texto se fundem num turbilhão arrebatado de emoções.

A adaptação do texto é de uma qualidade exemplar, não só pela forma como relata a história, como pela própria beleza poética, uma vez que cada frase se adapta na perfeição ao canto e às melodias, permitindo explorar vários registos, do mais lírico ao mais dramático.

Poderão ler uma sinopse aqui.

(internet)

Inicialmente, no primeiro acto cria-se o cenário propício a uma paixão arrebatada. Werther sente em plenitude os esplendores da natureza, o que fica bem patente na ária “Je ne sais si je veille ou si je rêve enconre!” que termina com um “et toi, soleil, veins m’inonder de tes rayons!”. Entretanto, surge Charlotte por quem se apaixona instantaneamente. Ao declarar-lhe o seu amor, surge, de imediato, um presságio trágico (“Je donnerais ma vie pour garder à jamais ces yeux”). Imediatamente a seguir, o pai de Charlotte anuncia o regresso do seu prometido Albert. Charlotte, já esquecida do que prometera à sua mãe, cai em si e Werther percebe que não terá Charlotte: “A ce serment... restez fidèle! Moi... j’en mourrai! Charlotte! Un autre! Son époux!”. Termina o 1.º acto.

(internet)

No segundo acto, Werther surge desesperado. Charlotte e Albert casaram e, assim, todo o seu ser chora (“tout mon être en pleure!”). Albert sugere-lhe que procure a felicidade, por exemplo, na alegria de Sophie. Mas Werther continua apaixonado por Charlotte, embora, por momentos, se tente, junto de Albert, convencer do contrário. Ao sentir que mentiu, crê  dever afastar-se, mas não consegue (“Partir? Non! Je ne veux que me rapprocher d’elle”). É Charlotte quem o afasta: o dever não cede ao desejo. E ele parte até ao Natal entre questões sobre a morte e Deus (“Et si la force m’abandonne... Ah! C’est moi pour toujours qui me reposerai!” e “Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi! Appelle-moi!”). Albert apercebe-se, num claro contraste com o final do primeiro acto, que Werther ainda ama Charlotte (“Il l’aime!”).

(internet)

O terceiro acto começa com a leitura das cartas de Werther. Lê-se nelas a melancolia e o desejo do jovem, aos quais Charlotte não consegue ficar indiferente (“Ces lettres! Ah! Je les relis sans cesse...”). Werther está deprimido e só (“Je vous écris de ma petite chambre: au ciel gris et lourd de Décembre, pèse sur moi comme un linceul, et je suis seul! Seul! Toujours seul!”), antevendo-se o desejo de suicídio. Mais tarde, Werther regressa ante uma Charlotte dividida entre o amor e o desejo e o dever conjugal de fidelidade. Mas a sua moral é rígida e não cede. Werther lê os versos de Ossian que espelham a sua alma: soa a ária “Pourquoi me réveiller” onde se diz “Ils ne trouveront plus que deuil et que misère!”. Nisto, perdido, declara-se de novo, enquanto Charlotte pede a Deus que a proteja, pois teme ceder à tentação. Werther beija-a e ela diz-lhe, num Ah! agónico, que ele não mais a verá (“Vous ne me verrez plus!”). O terceiro acto acaba com uma declaração fúnebre, desesperada e de morte, naqueles que são, provavelmente, os mais trágicos versos da ópera: “Prends le deuil, ô nature! Nature! Ton fils, ton bien aimé, ton amant va mourrir! Emportant avec lui l’éternelle torture, ma tombe peut s’ouvrir!”. Werther condena a sua própria natureza. Depois, é Albert quem manda Charlotte, não sem que tal soe a castigo, entregar as suas próprias armas ao mensageiro de Werther que lhas pedira. Esta, desesperada, entrega-as “Dieu! Tu ne voudras pas que j’arrive trop tard!”. Será, pois, Charlotte quem, de alguma forma, fica responsabilizada por entregar à morte o seu amado, morte essa que acontecerá com as armas do seu próprio marido.

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No quarto acto, na noite de Natal, Werther jaz no seu quarto, depois de ter dado um tiro em si próprio. Chega Charlotte, ofegante, à sua procura. É tarde. Werther vai morrer. Charlotte sente-se culpada e, com a mão de Werther na sua, acompanha a sua agonia, entre declarações de amor mútuo que se fundem num beijo quente antes do sopro de vida final do suicida. Lá fora, soam as vozes joviais das crianças e de Sophie (“Noel! Noel! Noel!”, “Dieu permet d’être heureux!”). Cai o pano.

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A nova produção de Werther para o MET esteve a cargo do encenador Richard Eyre. Esta ópera obriga a um cenário pequeno, intimista e doméstico, que se centre na relação dual Werther-Charlotte e em que tudo o mais surja apenas como contexto. Penso que o consegue.

No primeiro acto, Eyre começa por introduzir a cena da morte da mãe de Charlotte com recurso a projecções de vídeo (por exemplo, as árvores a encherem-se de corvos aquando do enterro) que contextualiza a acção. Depois segue-se a transição para o 2.º acto com um baile.

(internet)

Não é que nenhuma destas cenas estejam nas indicações cénicas, mas permitem usar o prelúdio e o interlúdio como momentos narrativos, que, no meu ver, acrescentam beleza e enriquecem a encenação. A direcção de actores, nestes dois actos, pareceu-me, todavia, por vezes, demasiado impulsiva, tudo muito em de repentes... O cenário é também um pouco amplo de mais e há uma ponte no centro do palco que não faz qualquer sentido: não estabelece ligação entre nada e está lá apenas por estar. Não desempenha qualquer função na acção. Mais valia ter lá uma fonte ("cette source limpide").

Onde Eyre consegue estar sublime é a partir do 3.º acto. A sala está extremamente bem montada e decorada (de acordo com o libreto, embora provavelmente demasiado sumptuosa para uma casa rural) e cria um ambiente doméstico e acolhedor. Mas é o 4.º acto que é arrebatador. Werther surge no seu quarto: uma caixa acolhe o seu quarto, encolhe o cenário e avança sobre o palco. No interlúdio, vê-se Werther desesperado com a ideia da morte. O suicídio está prestes a consumar-se e Werther, de arma na mão, hesita. Ao pegar numa carta, ganha coragem e dispara sobre o peito: cai no leito, a luz apaga-se e a parede surge tingida de sangue, num pormenor extremamente bem conseguido do ponto de vista cénico. Aliás, toda esta cena é carregada de um dramatismo trágico arrepiante. A encenação foi, pois, um dos grandes atractivos da tarde. Podemos, sobretudo no final, encontrar muitas semelhanças com a encenação de 2004 para a ROH/Ópera de Paris de Benoît Jacquot, encenação essa, que em minha opinião, nada deve à de Eyre. Aliás, gosto mais da do francês. Mas são ambas excelentes.

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A direcção da Orquestra do MET esteve a cargo do maestro Alain Altinoglu. Esteve em excelente nível, com um bom tempo, a dar peso à orquestra quando necessário e a respeitar os cantores. A forma como explorou as diferentes colorações melódicas foi óptima. Interpretou muito bem Massenet!

Jonathan Summers (barítono) foi o pai de Charlotte. Gostei da sua postura, embora não especialmente da voz, mas cumpriu bem. Philip Cokorinos (baixo) e Tony Stevenson (tenor) fizeram o duo Johan e Schmidt: estiveram em bom plano vocal e cénico. O coro das crianças teve, igualmente, uma excelente performance.

(internet)

Lisette Oropesa (soprano) foi Sophie. A sua voz é jovem, fresca e melodiosa, com projecção fácil. A figura adequa-se ao papel de jovem irmã de Charlotte. Assumiu a postura naive que se espera e interpretou a personagem com muita qualidade cénica e vocal. Pena que o seu francês não sejam o mais perfeito, o que teria elevado a sua prestação a um patamar de excelência.

(internet)

David Bizic (barítono) foi Albert, marido de Charlotte. Gostei da sua postura cénica e da sua voz. Teve um bom desempenho, sem que, todavia, tenha deslumbrado.

(internet)

Sophie Koch (meio-soprano) foi Charlotte. É um dos papéis que marcam a sua carreira, pelo que lhe assentou na perfeição para a estreia, mais do que merecida, no palco americano. A sua voz é excelente e interpreta sublimemente a personagem Charlotte. Esteve em grande plano vocal no 3.º acto na leitura das cartas e a sua interpretação cénica foi muito convincente. Penso que será difícil, hoje em dia, encontrar melhor cantora/actriz para o papel!

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Deixo, propositadamente, para o fim, o tenor Jonas Kaufmann que interpretou Werther. Não compreendo os críticos que se deleitam a criticar o seu tom baritonal. Insistem nesta tecla, o que só poderei entender como inveja. É que as senhoras têm uma predileção especial por Kaufmann… O seu Werther foi a todos os níveis excepcional! Se no “Je ne sais si je veille”, ária de entrada de extrema dificuldade, não esteve perfeito, mas a partir daí foi imparável. Que dizer da forma como termina “Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi!”? O terceiro appelle-moi foi incrivelmente bem interpretado. O seu “Pourquoi me reveiller” foi perfeito marcado por um longo aplauso. E o seu 4.º acto: foi inigualável. Cenicamente é um actor de excelência: gesto, postura, intensidade, mímica. Extremamente verosímil. Eyre comparou-o a Robert de Niro e Al Pacino (talvez exagere um bocadinho...). E o canto é perfeito. Ninguém nos dias de hoje, excepto Kaufmann, canta e interpreta daquela maneira. A forma como diz, tão melodiosamente, “et d’une douce larme, en son ombre tombée le mort”. A palavra larme dita por ele não me sai do ouvido. Enfim... Foi a interpretação da tarde e que privilégio temos nós todos de ser contemporâneos de Kaufmann! Não lhe tiro o chapéu apenas porque não uso…

Cena final: http://bcove.me/rkk5o7ed (vídeo dos 16 minutos finais de ontem que são disponibilizados, entre outros vídeos, no site do Met — www.metoperafamily.org. A não perder!)

Grande tarde de ópera!

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(Review in English)

Werther by Jules Massenet (1842-1912) is an opera in four acts composed in 1887. The libretto is by Édouard Blau, Paul Milliet and Georges Hartmann and is based on the homonymous novel by German writer of the romantic period Johann Wolfgang von Goethe.

Goethe's work is one of the foremost exponents of German Romanticism. The text is rich in intimate approach on human nature, with its joy and sorrow, passion, love and hatred, hope and faith, desire and despair that sometimes slips into mental illness. It is the human being in its most interior dimensions and their relationship with himself and with the other, and about the demand of the absence of loneliness.

That's what comes in Massenet's opera. As an opera of the Romantic period, and the French composers were those who best exploited this feeling, it is one that always has the extreme feelings reaching us and the music and text merge into a heady whirlwind of emotions.

The adaptation of the text is an exemplary quality, not only by the way tells the story, as the poetic beauty of its own, since each phrase fits perfectly into the corner and melodies, allowing to explore different registers, from the lyrical to more dramatic.

You can read a synopsis here.

The new production of Werther for the MET was in charge of director Richard Eyre. This opera requires a small, intimate, domestic setting, which focuses on the dual relationship Werther and Charlotte in which everything else arises only as context. I think Eyre did it.

In the first act, Eyre begins by introducing the scene of death of the mother of Charlotte with the use of video projections (e.g., the trees fill with ravens at the funeral) that contextualizes the action. Then follows the transition to the 2nd act with a dance. Note that none of the scenes are in the scenic indications, but they allow you to use the prelude and interlude as narrative moments, which, in my view, add beauty and enrich the scenario. The direction of actors, in these two first acts, seemed to me, however, sometimes too impulsive, all very in bursts... There is a bridge that I can’t understand why it is there: it does not link anything. Where Eyre can be sublime is from the 3rd act till the end. The room is extremely well fitted and decorated (according to the libretto, a little bit too expensive, perhaps) and creates a domestic and welcoming environment. But is 4th act that is stunning. Werther appears in his room: a box welcomes his room and shrinks the scene. In the interlude, Werther sees himself in despair at the idea of death. Suicide is about to be consumed and Werther, gun in hand, hesitates. He then pick a letter, get courage and shoots himself on his chest: he falls in bed dying, the light turns off and the wall comes tinged with blood, a detail extremely well done in a scenic viewpoint. This whole scene is loaded from a creepy tragic drama. The staging was therefore one of the major attractions of the afternoon. I, especially towards the end, find many similarities with the 2004 scenario for ROH/Paris Opera by Benoît Jacquot, this scenario, which in my opinion, being as good as Eyre’s or even better. But they both are excellent.

The direction of the MET Orchestra was in charge of conductor Alain Altinoglu. He did an excellent level conducting, with good tempo, giving weight to the orchestra when needed and respecting singers. The way he explored the different melodic coloration was great. Massenet played very well!

Jonathan Summers (baritone) was the father of Charlotte. I like his attitude, though not especially his voice, but he went well. Phiilip Cokorinos (bass) and Tony Stevenson (tenor) were Johan and Schmidt duo: they were at a good vocal and scenic plane. The choir of children also had an excellent performance.

Lisette Oropesa (soprano) was Sophie. Her voice is young, fresh and melodious with easy projection. The figure fits the role of younger sister of Charlotte. She took the naive stance that is expected and played the character scenic and vocally with quality. It is a pity her French is not the most perfect, which would have elevated her performance to a standard of excellence.

David Bizic (baritone) was Albert, husband of Charlotte. I like his scenic attitude and his voice. He performed well, without, however, dazzling.

Sophie Koch (mezzo-soprano) was Charlotte. It is one of the roles that mark her career, so it sat perfectly for the well-deserved premiere at the American opera stage. Her voice is great and she sublimely plays the role of Charlotte. She was in great voice plan 3rd act, reading Werther’s letters and her scenic interpretation was very convincing. I think it will be difficult, nowadays, to find a better singer/actress for the role!

I leave purposely tenor Jonas Kaufmann to end. He played Werther. I do not understand the critics who are always delighted criticizing his baritonal tone. They insist on this topic, which I can only understand as envy. The ladies have a special fondness for Kaufmann... His Werther was exceptional at all levels! If the "Je ne sais si je veille" entrance aria (of extreme difficulty) was not perfect, he was unstoppable from there. What about the way he ends "Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi!”? The third appelle-moi was incredibly well played. His "Pourquoi me reveiller" was perfect. And what about his 4th act? He has no parallel. Scenically he is an actor par excellence: gesture, posture, strength, mime. He is extremely true. Eyre compared him to Robert de Niro and Al Pacino (perhaps Eyre exaggerated a little, but...). And the way he sung is perfect. Nobody these days, except Kaufmann, sing and play that way. The way he says, so melodiously, “et d’une douce larme, en son ombre tombée le mort”. The word larme said the way he did it not get out of my ears. Anyway... It was the interpretation of the afternoon and we all have the privilege of being Kaufmann contemporaries!


Great afternoon of opera!

sexta-feira, 14 de março de 2014

IL TROVATORE, Theatro Municipal de São Paulo

IL TROVATORE NO MUNICIPAL DE SÃO PAULO COM O SOPRANO HUI HE. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE DO BLOG DE ÓPERA E BALLET.
  


   Quando debutei na ópera em tempos pretéritos o fabuloso Municipal tinha muitas récitas com público minguado. Cansei de ver apresentações com cem ou no máximo duzentos gatos pingados. Fico jubiloso ao entrar no nobre teatro paulistano e encontrar, em uma noite de terça-feira do dia 11 de Março, a casa abarrotada. Sinal que os espetáculos de ópera incutem cada vez mais pessoas. Público juvenil ao mais senil mostra interesse na nobre arte e lota as belas cadeiras amadeiradas.

   A apresentação teve o mesmo padrão cênico da estreia com um bardo diferente. O soprano Hui He apresentou voz potente, com pequenos contratempos nos agudos compensados com médios e graves excelentes. Depositaria de uma técnica esmerada conseguiu imprimir classe a protagonista Leonora com uma atuação aforada.

   A Orquestra Sinfônica Municipal regida por John Neschling mostrou equilíbrio dos naipes, uma ou outra derrapada sempre acontece e é passível de compreensão devido a sonoridade complexa da obra. Musicalidade verdiana de grande venustidade. A utilização de um órgão eletrônico destoa do compreensível, a casa possuí um órgão de inaudita qualidade e por motivos não explicados ele não foi empregado. O Coral Paulistano mostrou qualidade vocal esmerada, os naipes masculinos destacaram-se pela precisão nas entradas e pelo equilíbrio nas notas.

   Detalhe final: ovações efusivas se ouvem ao final da récita de um público embevecido e a cortina não se abre. Os solistas recebem os apupos derradeiros assim mesmo, o regente John Neschling vem receber sua quota e se exibe com uma barba grisalha e um paleto garboso, com asserção o mais janota da noite.


Ali Hassan Ayache

quinta-feira, 13 de março de 2014

IL TROVATORE, Theatro Municipal de São Paulo, Março de 2014

IL TROVATORE ABRE A TEMPORADA 2014 DE ÓPERAS DO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE DO BLOG DE ÓPERA E BALLET

O Theatro Municipal de São Paulo abriu a temporada de óperas 2014 no último dia 08 de Março com Il Trovatore de Giuseppe Verdi, título esse que possuí características ímpares na ópera Verdiana. Começando pelo libreto: História maluca, cheia de reviravoltas e absurdos onde boa parte da ação se passa antes de subir a cortina. A violência do texto e a falta de coesão estão presentes em toda a ópera, consegue ser mais confuso que a ópera  L'Africaine de Meyerbeer. Desfilam uma cigana, cavaleiros apaixonados, morte por engano, assassinato de criança, guerras e sangue por todo lado. Tudo sem nexo que beira ao absurdo.
Il Trovatore segue em cartaz nos teatros líricos devido à música de Verdi, essa sim um absurdo de criatividade. Cenas com impacto dramático de alto nível onde são exploradas a valsa e a mazurca com melodias expressivas. Árias extensas, duetos carregados de emoção e cenas corais tem música arrebatadora. Verdi vence o obstáculo de um libreto fraco e pífio compondo música da mais alta qualidade, melodias que penetram como uma flecha na alma dos espectadores.
 A produção do Theatro Municipal de São Paulo mostrou acertos na escolha dos solistas e algumas derrapadas. Os cenários de Sergio Tramonti são interessantes, trazem dois blocos que se movem em uma única direção e caracterizam bem algumas cenas, após o terceiro ato ficam demasiadamente repetitivos e entediantes. A luz de Pasquali Mari deixou tudo na penumbra, uma escuridão condizente com o enredo, embora algumas cenas pudessem ter melhor tratamento. A opção pelo monocromático da luz amarela soa repetitiva demais e sem criatividade. Os figurinos de Alessandro Ciammarughi optam pelo tradicional e mostram uma Espanha de antigamente.
A direção de Andrea de Rosa oscila entre momentos interessantes e alguns absurdos. Utiliza os cenários de forma criativa explorando todo o espaço cênico. Os personagens são caracterizados para mostrar as mazelas e torturas que sofrem por amor e o desejo de vingança. Teatro e canto se unem para tocar o espectador. A ideia de colocar uma fogueira estilizada no centro do palco é uma bela sacada, nela a história começa e termina. Fazer Manrico morrer queimado e de pé soa tão absurda como o libreto, se está no inferno que abrace o capeta. 

Susanna Branchini, foto Internet

Vocalmente os solistas se mostraram de excelente nível, comecemos com a Leonora de Susanna Branchini, soprano detentora de bela voz lírico-spinto com agudos sólidos, projeção vocal enorme, daquelas que enchem o teatro e interpretação cênica convincente. Sua Leonora esbanja vigor e densidade vocal, mostra uma interpretação moderna da personagem, teatro e canto unidos em uma inesquecível interpretação. Stuart Neill esteve no Municipal em 2013 cantando Radames da ópera Aida de Verdi, fez um Manrico com belos agudos, tenor de voz pouco extensa compensa isso com agudos brilhantes e uma boa sustentação das notas. Interpretação cênica fraca, seu personagem se mostra sem emoção e consistência. 
Alberto Gazale mostrou bons graves com seu Il Conte de Luna, abusou deles em termos de força e vigor. Sua voz se mostra sempre consistente colocando credibilidade no personagem. Aliado a uma boa interpretação cênica fez com que seu personagem fosse sempre regular ao longo de toda a apresentação. 
A dona da noite, a rainha da cocada foi o mezzo-soprano Marianne Cornetti, a mulher arrebentou como Azucena, sobraram graves extensos e uma vocalidade de timbre impressionante. Voz escura, densa, arrebatadora e consistente em todos os registros que sobrevoam a orquestra e chegam limpos à plateia. Interpretação cênica louvável de uma grande atriz, Marianne Cornetti conhece a fundo sua personagem e a interpreta com segurança e convicção. Um grande achado essa mezzo-soprano. 

 Stuart Neill,foto Internet
Destaque o mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti, em sua pequena participação mostrou boa musicalidade com agudos coloridos e um fraseado correto. Fez uma Inez de bom nível cênica e vocalmente, cantora que entende a importância de fazer papéis menores e se dedica a eles com afinco, quero muito vê-la cantando personagens de maior expressão.
Correta, mas correta mesmo a cobrança de R$ 5,00 pelo programa completo. Antes distribuído gratuitamente não era devidamente valorizado pelos espectadores e muitos o descartavam nas lixeiras do centro. Cobrando ele passa a ser valorizado e só quem se interessa em tê-lo paga. Quem não compra recebe um programa menor e bem mais simples.

sexta-feira, 7 de março de 2014

LA SONNAMBULA, Liceu, Barcelona, Fevereiro de 2014 / February 2014


(review in english below)
(www.facebook.com/fanaticos.opera)

 Mais uma vez assisti a La Sonnambula de V. Bellini, na encenação de Marco Arturo Marelli, desinteressante e já muito vista, passada num hotel / estância de inverno. O enredo pode ler-se aqui.



 Embora a orquestra tenha tido um bom desempenho, o maestro Daniel Oren não foi empolgante, impôs um tempo frequentemente "empastelado" e, com frequência, não deu a primazia aos cantores. O coro esteve em grande forma.


 A primeira nota de grande louvor vai para a Amina do soprano italiano Patrizia Ciofi. A cantora tem uma presença em palco impecável e com enorme sentido dramático, para além de uma boa figura, apesar de já não ser a jovem noiva que retrata. A voz tem uma invulgar musicalidade e, embora no registo grave ser menos sólida, no médio foi excelente e brilhou nos agudos, apesar de serem alcançados aparentemente em esforço, mas sempre lá. Acima de tudo, o que mais me impressionou foi a entrega total da cantora à personagem e a verdade com que a interpretou. Fantástica!




 Juan Diego Florez já adquiriu o estatuto de estrela planetária no firmamento operático há muito e, aqui em Barcelona, é particularmente apreciado, com toda a justiça, diria eu. São precisas décadas para surgir um cantor com as qualidades vocais de Florez para a interpretação belcantista. Tem uma musicalidade imaculada, o canto é de uma elegância única e o resultado final é fabuloso. Já tive o privilégio de o ver ao vivo várias vezes (como está registado neste blogue), até comoElvino. Nunca cancelou uma récita das que assisti e também nunca me desiludiu nas interpretações que presenciei. Continua a ser, para mim, um dos muito poucos cantores no activo que proporcionam interpretações que ilustram que a ópera é a mais fascinante expressão artística e que, nos dias de hoje, se conseguem viver momentos de prazer tão únicos como os melhores de que há registo discográfico. Apesar de ser Elvino, personagem idiota que encarna nesta ópera, encanta-nos em cada uma das suas intervenções.




 A Lisa do soprano italiano Eleanora Buratto foi óptima. A cantora tem uma voz cheia, bonita e projectou-a com mestria. A interpretação cénica foi outra mais valia que não deixou ninguém indiferente. Estou certo que a ouviremos cada vez mais vezes em papéis solistas, dada a qualidade que revelou.


 O baixo barítono italiano Nicola Ulivieri foi o elo menos forte como conde Rodolfo. A voz é agradável e esteve sempre bem nas diversas intervenções, mas vi vários outros condes mais expressivos.


 Nos papéis secundários a mezzo Gemma Coma-Alabert, apesar de ter tido um ataque de tosse em pleno segundo acto, esteve bem como Teresa. Também cumpriram sem destoar Àlex Sanmartí como Alessio e Jordi Casanova como notário.




 Mas a noite foi de Patrizia Ciofi, de Juan Diego Florez e de todos os que assistiram a esta Sonnambula inesquecível no Liceu de Barcelona!






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La Sonnambula, Liceu, Barcelona, February 2014

I had the chance to see again La Sonnambula by V. Bellini, in Marco Arturo Marelli’s unattractive staging, in a winter hotel / resort. The plot can be read here.

Although the orchestra performed well, conductor Daniel Oren was not exciting, often imposing a "jammed" time and often not giving primacy to singers.
The choir was excellent.

The first note of high praise goes Italian soprano Patrizia Ciofi’s Amina. The singer has a immaculate stage performance and a huge dramatic power, in addition to a nice figure, although no longer the young bride being portrayed. The voice has an unusual musicality and although in the lower register she was less solid, the medium register was excellent and she was fantastic in the top notes, although apparently achieved in effort, but always in tune. Above all , what impressed me most was that Ciofi gave everything she has to her interpretation of the character. Fabulous!


Juan Diego Florez has long acquired the status of a planetary star in the operatic world, and here in Barcelona he
​​is particularly appreciated. I totally agree. We have to wait decades for a singer with the vocal belcanto qualities do Florez to appear.Has has an immaculate musicality, his singing has a unique elegance and the final result is fabulous. I've had the privilege of seeing him live several times (as is recorded in this blog), including asElvino. He never cancelled a performance that I attended and he also never disappointed me in the performances that I witnessed. For me he remains one of the very few singers still singing which provide performances that illustrate that opera is the most fascinating artistic expression and that in present days, we can live moments of pleasure as unique as the best that have been recorded so far. Despite being Elvino, an idiot character of this opera, he delighted us in each of his interventions.

Italian soprano Eleanora Buratto was great Lisa.She has a powerful, beautiful voice and she projected it masterfully. The artistic performance was another asset that left no one indifferent. I am sure we will hear her more often in soloist roles, given the qualities revealed.

Italian bass baritone Nicola Ulivieri was the weaker link as Count Rodolfo. The voice is pleasant and he was always well, but I have seen saw several other more exciting counts.

In secondary roles, mezzo soprano Gemma Coma-Alabert, despite having a coughing fit in the middle of the second act, was fine as Teresa. Also very well were Àlex Sanmartí as Alessio and Jordi Casanova as the notary.

But the night was of Patrizia Ciofi, Juan Diego Florez, and all who attended this unforgettable Sonnambula at the Liceu in Barcelona!

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quinta-feira, 6 de março de 2014

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domingo, 2 de março de 2014

O PRÍNCIPE IGOR, MetLive, Março de 2014 / Prince Igor, MetLive March 2014

(review in english below)

 O Príncipe Igor é uma ópera de Alexander Borodin que a New York Metropolitan Opera estreou esta temporada.
 Igor, um príncipe russo na cidade de Putivl, junta o seu exército para atacar os polovetsianos. É derrotado e, juntamente com o filho Vladimir, é feito prisioneiro. Galitsky, irmão de Yaroslavna, mulher de Igor, tenta ser eleito novo príncipe. Vladimir apaixona-se por Konchakova, a filha do Khan Konchak, líder dos polovestianos, que procura no seu prisioneiro um aliado potencial, desde que este prometa que não volta a pegar em armas contra os polovestianos. Igor recusa e foge para a sua cidade. Putvil é atacada e cai. Igor regressa à cidade em ruínas mas, ainda assim, é aclamado pelo povo.

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)

A encenação e cenografia de Dmitri Tcherniakov é vistosa e a acção é transportada para o início do Sec XX. A parte mais original surge no final do primeiro acto, após a derrota militar de Igor. Aparece num campo com mais de 12000 papoilas, onde vive ou imagina o que se passou e o que poderá acontecer. A acção é apoiada por curtas imagens filmadas a preto e branco. Os actos seguintes são convencionais, com a cidade cercada, depois destruída e, finalmente, com o início da reconstrução.

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)


A direcção musical foi da responsabilidade do maestro italiano Gianandrea Noseda.
O Coro da Metropolitan Opera esteve omnipresente e sempre muito bem.

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)

O príncipe Igor foi o baixo-barítono russo Ildar Abdrazakov. Foi o melhor da tarde, aliando as suas excelentes qualidades vocais a uma interpretação cénica exemplar da personagem atormentada que o encenador lhe atribuiu.

Todos os restantes solistas ofereceram-nos interpretações de grande qualidade. Mikhail Petrenko, baixo russo, como príncipe Galitsky, irmão de Yaroslava, Sergey Semishkur, tenor russo, como Vladimir, filho de Igor, Oksana Dyka, soprano ucraniano (timbre algo metálico) como Yaroslava, mulher de Igor, Anita Rachvelishvili, mezzo georgiana, como Konchakovna, filha de Konchak e, Stefan Kocan, baixo eslovaco, como Konchak.

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)

(fotografias de Cory Weaver / Metropolitan Opera)

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PRINCE IGOR , MetLive , March 2014

Prince Igor is an opera by Alexander Borodin, a new production of the New York Metropolitan Opera this season .

Igor, a Russian prince in the city of Putivl, joins his army to attack the polovetsians .He is defeated and  together with his son Vladimir is made prisoner. Galitsky, Yaroslava´s brother (Yaroslava is the Igor’s wife), attempts to be elected new prince. Vladimir falls in love for Konchakova, the daughter of Khan Konchak, leader of polovestians, that looks at his prisoner as a potential ally, since he promise him that he will not fight again against the polovestians. Igor refuses, and runs away to his city. Putvil is attacked and falls. Igor returns to the city in ruins but is still acclaimed by the people.

The staging and set design by  Dmitri Tcherniakov are fine and the action is transported to the beginning of the twentieth century . The most unique part comes at the end of the first act, after the military defeat of Igor. He appears in a field with more than 12,000 poppies, where he lives or imagines what happened and what might happen. The action is supported by short film segments in black and white. The following acts are conventional, with the siege city destroyed and, finally, the beginning of reconstruction.

Musical direction was the responsibility of the Italian conductor Gianandrea Noseda.


The Chorus of the Metropolitan Opera was omnipresent and always excellent.

Prince Igor was the Russian bass-baritone Ildar Abdrazakov. He was the best singer of the performance, combining his excellent vocal qualities to a perfect artistic interpretation of the tormented character that the director assigned him .

All other soloists offered us performances of great quality. Mikhail Petrenko, Russian bass, as Prince Galitsky, Yaroslava´s brother, Sergey Semishkur, Russian tenor, as Vladimir, son of Igor, Oksana Dyka, Ukrainian soprano (sometimes with metallic timbre) as Yaroslava, wife of Igor, Anita Rachvelishvili, Georgian mezzo, as Konchakovna, daughter of Konchak, and Stefan Kocan, Slovak bass as Konchak.

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