terça-feira, 20 de junho de 2017

O CAVALEIRO DA ROSA / DER ROSENKAVALIER, METropolitan Opera, Abril / April 2017



(review in English below) 

O Cavaleiro da Rosa de Richard Strauss, com libretto de Hugo von Hofmannsthal, esteve em cena na Metropolitan Opera House de Nova Iorque. Oficialmente é a despedida da Renée Fleming da opera. Veremos…


A encenação é de Robert Carsen. A acção foi colocada no início do século passado, parodiando uma aristocracia decadente. O primeiro acto passa-se num salão cheio de retratos de nobres e com uma enorme cama num dos lados. Muita da acção passa-se sobre a cama. Há um corredor com passagem para várias outras salas, das quais só se vê o acesso e as enormes portas.

No segundo, as paredes estão revestidas de pinturas gregas e no início há 2 enormes canhões no palco. Herr von Faninal o pai de Sophie é comerciante de armas. O pessoal está todo armado com espingardas e pistolas. A valsa vienense final é caricaturada por "militares" que a dançam sem par.
O terceiro acto passa-se num bordel, propriedade de um homem que aparece como travesti, com as paredes revestidas de quadros de mulheres despidas. Há um interessante efeito visual quando por detrás destes aparecem dançarinas exóticas em determinados momentos. Apesar do ambiente burlesco, a cena final é de belo efeito.



O maestro Sebastian Weigle ofereceu-nos uma interpretação muito correcta, a fazer justiça à partitura e à música de Strauss. A Orquestra esteve ao mais alto nível.



O Octavian da mezzo Elina Garanca foi insuperável. A voz é excepcional e o desempenho cénico irrepreensível, apesar de no 3º acto aparecer vestida como um travesti que torna excessivamente ridícula a situação, apesar de se passar num bordel. Mas nas duas vezes que aparece disfarçada de Mariandel é cenicamente brilhante e sempre muito cómica. Em contraste total, no segundo acto, quando apresenta a rosa prateada a Sophie, tem um desempenho vocal de grande emotividade e beleza, tal como no terceto final.

 


A Marechala (Princesa Marie Therèse von Werdenberg) da soprano Renée Fleming apareceu sempre magnífica em palco, a voz mantém grande qualidade, é um soprano cremoso e ágil, mas a personagem merecia um pouco de mais introspecção que não existiu. A confrontação com o inevitável envelhecer e a natural evolução da vida não tiveram grande expressividade. Apenas no terceto final foi mais emotiva.




O Barão Oches do baixo Günther Groissböck foi outro intérprete excepcional. O cantor tem uma voz bonita, sempre bem colocada e audível ao longo de toda a sua longa interpretação. Cenicamente foi muito cómico, a encenação também ajuda, mas a idade nem tanto. É muito novo para o papel (tem 40 anos), o que não lhe tirou qualidade interpretativa mas obrigou-o a preparar cada pormenor da sua interpretação para que não perdesse a comicidade desejável. E conseguiu-o.



O cantor italiano foi o tenor Matthew Polenzani que cantou afinado mas o timbre estava estranho.



O Barítono Markus Brück fez Herr von Faninal muito credível, sempre bem audível e com boa presença em palco.



A soprano Kathleen Kim esteve também fantástica como Sophie. Soprano de grande qualidade esteve sempre bem no registo mais agudo, em perfeito contraponto com a Garanca.










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DER ROSENKAVALIER, METropolitan Opera, April 2017


Richard Strauss's Der Rosenkavalier, with libretto by Hugo von Hofmannsthal, was on stage at the Metropolitan Opera House in New York. Officially it was Renée Fleming's farewell to the opera. We'll see…

The staging was by Robert Carsen. The action was set at the beginning of the last century, parodying a decadent aristocracy. The first act takes place in a hall full of portraits of nobles and with a huge bed on one side. Much of the action is spent on or around the bed. There is a corridor with passage to several other rooms, from which you can only see the access and the huge doors.
In the second act, the walls are lined with Greek paintings and at the beginning there are 2 huge cannons on the stage. Herr von Faninal, Sophie's father is a gun dealer. The people are all armed with rifles and pistols.
The third act takes place in a brothel owned by a man who appears as a transvesti, with the walls covered with pictures of naked women. There is an interesting visual effect when behind them exotic dancers appear at certain times. Despite the burlesque atmosphere, the final scene is of beautiful effect.

Maestro Sebastian Weigle gave us a very correct interpretation, according to the score and the music of Strauss. The Orchestra was at the highest level.

Octavian by mezzo Elina Garanca was unsurpassed. Her voice is exceptional and the stage performance impeccable, although in the 3rd act she appears dressed like a transvesti that makes the situation excessively ridiculous, although it happens in a brothel. But the two times that she appears disguised as Mariandel she is brilliant and always very comical. In total contrast, in the second act, when presenting the silver rose to Sophie, she has a vocal performance of great emotion and beauty, as in the final trio.

The Marschallin of soprano Renée Fleming appeared always magnificent on stage, the voice maintains great quality, is a creamy and agile soprano, but the personage deserved a little more introspection that did not exist. The confrontation with the inevitable aging and the natural evolution of life did not have great expressiveness. Only in the final trio she was more emotional.

Baron Ochs of bass Günther Groissböck was another outstanding performer. The singer has a beautiful voice, always in tune and well audible throughout his long performance. On stage he was very humorous, the staging also helped, but his age not so much. He is very young for the role (he is 40 years old), which did not jeopardize his interpretive quality but forced him to prepare every detail of his interpretation so that he did not lose the desirable comedy. And he got it.

The Italian singer was tenor Matthew Polenzani who sang in tune but his timbre was strange.

Baritone Markus Brück made a very credible Herr von Faninal, always well audible and with good stage presence.

Soprano Kathleen Kim was also fantastic as Sophie. She was always well on her high soprano, in perfect counterpoint with Garanca.


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terça-feira, 13 de junho de 2017

FIDELIO, METropolitan Opera, Março / March 2017

(review in English below)

Fidelio de Beethoven esteve em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque numa encenação vistosa de Jürgen Flimm. A acção passa-se algures numa cadeia do Sec. XX. 


No primeiro acto à direita do palco estão 3 andares de cárceres, à esquerda os aposentos de Rocco e Marzelline e no centro decorre grande parte da acção, por entre mesas, caixas de armas e vários outros objectos. O ambiente sombrio é bem conseguido desde o início. Os presos estão todos vestidos de branco o que faz um belo contraste visual com tudo o resto, sobretudo nos momentos corais em que saem das celas.
No segundo acto uma escada metálica central dá acesso às catacumbas ainda mais sombrias onde agoniza o Florestain. No final, depois da libertação dos prisioneiros, aparece uma estrutura no exterior, com um cavalo ao centro, à volta da qual todos se agrupam e festejam a liberdade.



A superior direcção musical foi do maestro Sebastian Weigle e, mais uma vez, ouvimos soberbas interpretações da Orquestra e do Coro da Metropolitan Opera.



O tenor David Portillo fez um Jaquino dinâmico de voz bonita e sempre bem colocada.



Também a Marzelline da soprano Hanna-Elisabeth Müller foi muito credível na interpretação. Excelente presença em palco e voz poderosa e melodiosa, sobre a orquestra.



Outro grande intérprete foi o baixo barítono Falk Struckmann como Rocco.



O Don Pizarro do baixo barítono Greer Grimsley foi malévolo em palco mas vocalmente, apesar de uma boa interpretação, deixou-se afogar pela orquestra aqui e acolá.



O baixo barítono James Morris foi um Don Fernando aceitável.



Klaus Florian Vogt como Florestain foi o melhor da noite. Tem uma voz magnífica que associa um timbre muito claro e límpido a uma superior capacidade de projecção, tendo oferecido uma interpretação emotiva e muito bela.



A Leonore da soprano Adrianne Pieczonka foi impressionante. Boa presença cénica e voz poderosíssima, sempre sobre a orquestra mas, ocasionalmente, rude.


Um bom espectáculo!








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FIDELIO, METropolitan Opera, March 2017

Beethoven's Fidelio was on stage at the Metropolitan Opera in New York in a showy staging of Jürgen Flimm. The action happens somewhere in a prision of Sec. XX. In the first act to the right of the stage are three floors of cells, to the left the rooms of Rocco and Marzelline and in the center much of the action takes place, between tables, boxes of arms and several other objects. The dark environment is well achieved from the start. The prisoners are all dressed in white, which makes a beautiful visual contrast to everything else, especially in the choral moments when they leave the cells.
In the second act a central metallic staircase gives access to the still darker catacombs where Florestain lies. In the end, after the release of the prisoners, a structure appears on the outside, with a horse in the center, around which all group and celebrate freedom.

The superior musical direction was by maestro Sebastian Weigle and, once again, we heard superb interpretations of the Orchestra and the Choir of the Metropolitan Opera.

Tenor David Portillo was a dynamic Jaquino of beautiful voice and always well tuned.

Also Marzelline by soprano Hanna-Elisabeth Müller was very credible in the interpretation. Excellent presence on stage and powerful and melodious voice, always over the orchestra.

Another great performer was bass baritone Falk Struckmann as Rocco.

Don Pizarro of bass baritone Greer Grimsley was malevolent on stage but vocally, despite a good performance, he was drowned by the orchestra here and there.

Bass baritone James Morris was an acceptable Don Fernando.

Klaus Florian Vogt as Florestain was the best of the night. He has a magnificent voice that associates a very clear tone to a superior capacity of projection, having offered an emotional and very beautiful interpretation.

Leonore by soprano Adrianne Pieczonka was impressive. Good stage presence and powerful voice, always over the orchestra but occasionally slightly rude.

A good performance.


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terça-feira, 6 de junho de 2017

PETER GRIMES – Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2017



De José António Miranda, mais um texto rigoroso e lúcido, como nos habituou: 

PETER GRIMES   (Benjamin Britten)

Ópera em três Actos, um Prólogo e um Epílogo   (Londres, Sadler’s Wells, 1945)

Libreto de Montagu Slater segundo o poema The Burrough, de George Crabbs

    Direcção musical: Graeme Jenkins
    Encenação: David Alden
    Cenografia: Paul Steinberg
    Roupas: Brigitte Reiffenstuel
    Luz: Adam Silverman
    Coreografia: Maxine Braham
    Responsável pela reposição: Ian Rutherford
    Peter Grimes: John Graham-Hall
    Ellen Orford: Emily Newton
    Balstrode : Jonathan Summers
    Auntie: Rebecca de Pont Davies
    Primeira Sobrinha: Bárbara Barradas
    Segunda Sobrinha: Mariana Castello-Branco
    Bob Boles: James Kryshak
    Swallow: Graeme Danby
    Mrs. Sedley: Maria Luísa de Freitas
    Reverendo Horace Adams: Carlos Guilherme
    Ned Keene: João Merino
    Hobson: Nuno Dias
    Orquestra Sinfónica Portuguesa
    Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
    Produção: English National Opera ENO (Londres 2013)
    Co-produção: Vlaamse Opera (Gand/Antuérpia); Ópera de Oviedo; Deutsche Oper (Berlim).


A história de Peter Grimes é um exorcismo da opressão: mistura de ode ao carácter opressivo da insularidade britânica cruzado com a natureza também opressiva das pequenas comunidades em relação a tudo o que é diferente. O mar e o álcool são portanto os ingredientes maiores desta tragédia em que tudo se desenrola num contexto de marcada nostalgia cuja poesia intrínseca a música de Britten tão generosamente expõe.

A esta realidade factual David Alden sobrepõe inteligentemente um segundo nível de leitura, supostamente mais profundo. Nesse segundo nível as motivações do inconsciente e os mecanismos ocultos dos personagens e seus contextos são cruamente expostos no quadro conceptual de uma psicanálise de pacotilha.

Mas para o sucesso de uma proposta intelectualmente tão aliciante, aliás atributo frequente do trabalho deste encenador, seria necessário que o trabalho dramatúrgico se traduzisse na criação de um verdadeiro espaço teatral único, que é muito mais do que o simples efeito da manutenção de uma cenografia homogénea e coerente ao longo da obra.

E se é claro que aquela criação poderá ter sido a intenção do encenador, a evidência que nos foi dada é que esta solução cenográfica, que deveria servir para o aprofundamento da vivência dos conflitos e problemas que nos são apresentados no libreto, não resulta sob tal perspectiva.

É certo que estivemos a ver uma produção que nos chega pela mão de Ian Rutherford, e na qual portanto a participação directa do encenador não terá existido. Mas se esta circunstância pode ajudar a justificar alguns problemas menores, ela não chega para explicar o sucedido.


De facto, para a criação de um espaço teatral único seria necessário que tivesse sido conseguida a fusão dos dois níveis de leitura, o realista suportado nas palavras e nas notas da obra escrita, e o fantástico idealmente decorrente da análise desses elementos, pelas opções dramatúrgicas e plásticas da encenação.

Tal não sucedeu porém aqui, e o resultado deste exclusivo trabalho a nível da cenografia fez aparecer no final o conjunto como uma proposta esquizofrénica, em que alguns momentos de intenso realismo, como a cena terminal, contrastam violentamente com outros de perfeito delírio surrealista, sem que seja possível estabelecer entre ambos um nexo de associação ou de causalidade que de algum modo os unifique e lhes confira alguma coerência.

Sinais desta duplicidade são por exemplo os momentos histriónicos do coro, globalmente muito bem trabalhado na excelente coreografia de Maxine Braham, mas deixado a nível individual ao bom critério dos coralistas, disso resultando momentos contraditórios e mesmo ridículos, ou ainda a géstica marionetista das duas sobrinhas nas cenas de realismo, resquícios do seu comportamento nos momentos de desmando surreal.

Como acontece com frequência uma ideia brilhante acaba aqui por ser desbaratada na sua operacionalização devido à ausência de uma unidade conceptual estilística. Trata-se portanto de um problema que é intrínseco a esta proposta global de David Alden, sendo aliás recorrente no percurso profissional deste encenador.

Curiosamente a orquestra demonstrou idêntico comportamento esquizofrénico, desta vez não por culpa da direcção de Graeme Jenkins, muitíssimo empenhada, mas sim como claro resultado da sua impreparação para a tarefa expressiva, consequência da sua inexistência virtual enquanto agrupamento sinfónico.

Não há milagres, e todos sabemos que um conjunto de instrumentistas, mesmo recheado de óptimos executantes, não é sinónimo de uma orquestra. A música de Britten surgiu assim como um puzzle mal montado, em que as várias peças foram justapostas mas sem o cuidado necessário para que as junções se tornem invisíveis ao primeiro olhar: a ondulação do mar, omnipresente no tecido sonoro, esteve ausente.

Se este desempenho não foi problemático na sucessão da diversidade estilística da ópera, e se os momentos de tempestade ou furor puderam soar apesar de tudo aceitáveis, foi deplorável ver como os esforços do director nos momentos de mais intenso lirismo não conseguiram qualquer tradução a nível do som.

Em aparente contraste com este problema, o desempenho global no que respeita às vozes foi um dos pontos positivos do espectáculo.

O coro, quiçá como resultado colateral do trabalho coreográfico que lhe foi exigido, emergiu da rotina funcionária em que tem estado mergulhado e ofereceu-nos alguns momentos de grande qualidade. Quanto aos cantores, deve realçar-se a grande segurança e à vontade de Bárbara Barradas, muito melhor tecnicamente do que em prestações anteriores, e em vias de se tornar uma das principais intérpretes líricas nacionais.

Já no respeitante ao desempenho dramático não poderá dizer-se o mesmo: os gestos estiveram todos lá, mas tudo soou dramaticamente como um postiço, sem profundidade, revelando um trabalho de actores inexistente ou insuficiente.



Em todo o caso porém, e sobretudo por servir para nos revelar de uma forma menos convencional uma obra pouco conhecida entre nós, o espectáculo pode considerar-se como uma pedra positiva no percurso final do desolador jardim da temporada que agora termina.


JAM    06/06/2017