segunda-feira, 14 de novembro de 2016

LOHENGRIN de Richard Wagner — Wiener Staatsoper, 18.9.2016

(Review in English bellow)


Lohengrin é uma ópera romântica em 3 actos com música e libreto de Richard Wagner. Foi estreada em 1850 na cidade de Weimar por Franz Liszt.

Trata-se de uma ópera que se baseia na história de Percival, personagem da literatura medieval germânica. A relação com a derradeira ópera de Wagner — Parsifal — é evidente, expondo-se muitas das mesmas temáticas em ambas as óperas e podendo estabelecer-se uma relação entre as suas personagens ou duos de personagens. Fala-se de nobreza de carácter, honra, verdade, justiça, humildade, confiança. Sempre em espelho com o seu contrário. No fundo, da dicotomia do bem e do mal. Mais uma vez, Wagner põe na mulher o gérmen do mal, podendo comparar-se Ortrud (e também Elsa von Branbant) a Kundry. Também se pode comparar Friedrich von Telramund a Amfortas: estandartes de bravura e honra, são seduzidos pela luxúria e pelo poder. A ligação à tríade de personagens do Livro do Génesis é evidente: a serpente encarna o mal e seduz a mulher Eva, deixando-se o homem Adão tentar e não resistindo a projectar a sua culpa em Eva. A relação entre Parsifal e Lohengrin é evidente e está para além do grau de parentesco: ambos representam a redenção e o poder místico. 


A encenação de Andreas Homoki é bastante banal. A acção passa-se numa taberna. Estrutura em madeira, mesas e muitas cadeiras (moda que não passa). Logo na abertura, mostram Elsa a, já vestida de noiva, recusar casar com Friederich. Tudo isto torna Friederich mais mesquinho, pois toda a sua acção parece poder interpretar-se como vingança.


Há um elemento constante: primeiro na tela que cobre o palco e, depois, num quadro ao fundo da taberna. São dois corações e uma inscrição que diz Es gebit ein Gluck (qualquer coisa como Existe uma alegria — não sou versado em alemão…). Durante o casamento de Lohengrin e Elsa, Ortrud rasga o quadro, em sinal de que o amor está desfeito. Tudo o mais é muito convencional, ou pouco fiel ao texto.


Desde logo o cisne aparece apenas como um elemento de porcelana. Lohengrin aparece de branco entre a multidão que anuncia a sua chegada numa barca e, no final, Gotfried aparece da mesma forma.

A Orquestra da WSO foi dirigida por Graeme Jenkins e apresentou um nível muito elevado, proporcionando momentos de extrema beleza e grande intensidade dramática. O Coro da WSO foi, igualmente, fantástico, oferencendo vários dos grandes momentos da tarde/noite.

O Konig Heinrich de Gunther Groissbock foi de muito boa qualidade. Tem uma óptima presença em palco, uma voz sempre audível e com um timbre bonito. 

Tomasz Konieczny fez de Friedrich von Telramund. A voz é potente, escura e agradável, com boa projecção. A interpretação cénica foi, igualmente, convincente.

A Ortrud de Petra Lang foi soberba. Para mim, a melhor da noite. Interpretação intensa, maléfica, doentia, manipuladora, aliada a uma voz cristalina, com agudos vivos e arrepiantes. O seu final foi arrasador!

Ricarda Merbeth foi uma Elsa von Brabant de qualidade e com bom equilíbrio vocal. Só não ponho a sua interpretação noutro nível porque achei que lhe faltou alguma intensidade cénica para o papel (ser mais misteriosa, frágil e manipulável).

Klaus Florian Vogt foi um Lohengrin óptimo. Deve ser dos tenores mais rodados neste papel. A voz tem um timbre lindíssimo, os agudos são fáceis, a projecção impecável, o fraseado muito elegante, o que faz dele um dos melhores tenores wagnerianos da actualidade. Sei que muitos discordarão, mas continuo a achar a sua voz muito leve. Para mim, peca apenas por isso. Cenicamente, é convincente, embora um pouco estático, privilegiando a qualidade do canto.

O restante elenco cumpriu muito bem. 


Foi uma récita muito agradável, que poderia ter alcançado outro nível com uma encenação mais interessante. Mas sobressaiu pelos desempenhos de elevada qualidade de todos os intervenientes musicais, pelo que foi um mimo para os ouvidos.

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(Review in English)

Lohengrin is a romantic opera in three acts with music and libretto by Richard Wagner. It was first performed in 1850 in the city of Weimar by Franz Liszt.

This is an opera that is based on the story of Percival, character of German medieval literature. The relationship with the ultimate Wagner opera - Parsifal - is evident, exposing many of the same themes in both operas and being able to establish a relationship between their characters or characters duos. The opera is about character of nobility, honor, truth, justice, humbleness, confidence. Or its exact opposite. In the end, its about good and evil dichotomy. Again, Wagner puts woman as an evil germ. Ortrud (and Elsa von Branbant, too) can be compared to Kundry. You can also compare Friedrich von Telramund to Amfortas: they are standards of bravery and honor, but are seduced by lust and power. The connection to the triad of characters from the Book of Genesis is clear: the serpent embodies evil and seduces the Eve, Adam is tempted and project his guilt on Eve. The relationship between Parsifal and Lohengrin is evident. And it is beyond the degree of kinship: both represent the redemption and the mystical power.

The staging by Andreas Homoki is quite banal. The action takes place in a tavern. Wooden structure, tables and many chairs (fashion that does not pass). In the opening, Elsa appears already dressed as a bride, refusing to marry Friederich. All this makes Friederich more stingy, because all the action seems to be able to be interpreted as revenge. There is a constant element: first in the curtain covering the stage and then a draw in the tavern background. There are two hearts and an inscription that says Es gebit ein Gluck (something like There is a joy - I am not versed in German...). During the marriage of Lohengrin and Elsa, Ortrud tear the picture as a sign that love is broken. Everything else is very conventional, or little faithful to the text. Since then the swan appears only as a porcelain element. Lohengrin appears in white among the crowd that are announcing his arrival in a boat and, in the end, Gotfried appears in the same way.

The Orchestra of WSO was directed by Graeme Jenkins and showed a very high level, providing moments of great beauty and great dramatic intensity. The WSO Chorus was also fantastic, offering many of the great moments of the afternoon/evening.

The Konig Heinrich of Gunther Groissbock was of very good quality. He has a great stage presence, a voice always audible and a beautiful timbre.

Tomasz Konieczny made Friedrich von Telramund. The voice is powerful, dark and nice, with good projection. The scenic interpretation was also convincing.

The Ortrud of Petra Lang was superb. For me, she was the best of the evening. Great and intense interpretation, full of evil, sickness, manipulation, that she combined with a clear voice, and vivid and chilling treble. Her final phrases were overwhelming!

Ricarda Merbeth was one Elsa von Brabant of goog quality and vocal balance. I can't metion her interpretation to be of top level because I think she lacked some scenic intensity for the role (to be more mysterious, fragile and manipulable).

Klaus Florian Vogt was a great Lohengrin. He is certainly one of the most experienced tenors in this role. His voice is extremelly beautiful, high note flows very easily with elegant projection and phrasing, which makes him one of the best Wagnerian tenors of today. I know many will disagree, but I still think his voice is a bit light. Scenically, he is convincing, although a bit static, privileging the quality of the singing.

The remaining cast went very well.


It was a very enjoyable evening, which could have reached another level with a more interesting staging. But it stood by the musical performances that transformed the evening in a balsam for the ears.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

OEDIPUS REX, Teatro de São Carlos, Lisboa, Novembro de 2016





A opera - oratória de Igor Stravinski com libretto de Jean Cocteau / Abade Jean Daniélou esteve em cena no Teatro de São Carlos numa encenação de Ricardo Pais, com Cenografia e Figurinos de António Lagarto e Desenho de Luz de Rui Pedro Simão.

Transcrevo o texto introdutório publicado pelo Teatro de São Carlos:
Stravinski compôs a ópera-oratória Oedipus Rex para celebrar os 20 anos de atividade artística de Diaghilev. O texto, escreveu-o Jean Cocteau, confiando-o posteriormente ao seu amigo e abade Jean Daniélou, que o reverteu para latim. Estreada em 1927 no Teatro Sarah Bernhardt, e não sendo uma das obras mais conhecidas de Stravinski, contudo uma das mais importantes, Oedipus Rex alicerça-se numa simplicidade sonora onde os intervenientes da tragédia de Sófocles se movem quase hipnoticamente, dando a impressão de estátuas vivas tal como pretendido pelo compositor. A natureza ritualística do drama é enunciada pelo speaker, assumindo-se o coro como um dos atores que comenta segundo os cânones da tragédia grega as contrariedades do jovem Édipo que, ao desvendar o enigma da temível esfinge às portas de Tebas, viria a transformar-se no mais humano e pungente dos mitos”.

Confesso que não conhecia a obra e não fiz o “trabalho de casa”, pelo que fui confrontado com o espectáculo sem me ter preparado previamente. E foi uma agradável surpresa. A produção apresentada no São Carlos é visualmente muito interessante. A simplicidade reinou e o resultado final foi bom.

A direcção musical de Leo Hussain teve alguns desacertos, sobretudo no início. Os solistas estiveram muito bem, ao nível do que seria desejável ouvir-se sempre no nosso teatro nacional de ópera.

 O Oedipus foi o tenor Nikolai Schukoff que nos ofereceu uma excelente interpretação, cénica e vocal. O pastor de Marco Alves dos Santos foi outra boa interpretação, como também esteve bem Davone Tines como Créon/Tirésias. A única senhora solista foi Cátia Moreso que foi uma Jocaste correcta mas algo dura. Finalmente o mensageiro/Narrador foi João Merino que quase não cantou, mas teve sempre uma boa presença.





Um bom espectáculo em São Carlos.




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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

IL BARBIERE DI SIVIGLIA, Royal Opera House, Londres / London, Setembro de / September 2016


(text in English below)

Na Royal Opera House de Londres tive oportunidade de rever esta produção de Moshe Leiser e Patrice Caurier de Il Barbirere di Siviglia, de G. Rossini, talvez a melhor encenação que vi da opera. É uma festa de cor, comicidade e bom gosto do início ao fim. Os adereços são de uma simplicidade genial, pouco mais há que uma árvore, uma cadeira, um cravo e um armário. Por todo o lado se abrem e fecham portas e janelas e tudo resulta na perfeição. Os trajos são intensamente coloridos. No início parte dos membros da orquestra aparecem subitamente em palco, em várias ocasiões os polícias narigudos e, no final do primeiro acto, o palco eleva-se e oscila até uma altura muito apreciável. Uma festa!



O jovem maestro hungaro Henrik Nánási dirigiu com muita elegância a orquestra. O coro esteve afinadíssimo.


Foi um espectáculo de luxo em que os cantores, para além de serem todos de qualidade superior, foram excelentes actores em palco.

O Fígaro foi o barítono italiano Vito Priante de voz poderosa e muito bonita, grande agilidade cénica e excelente figura. Começou de forma impressionante na aria Largo al factotum e assim se manteve até ao fim.



A mezzo argentina Daniela Mack foi uma Rosina expressiva de voz escura, potente e ágil, com uma coloratura invejável que logo exibiu na ária Una voce poco fa.



O Conde da Almaviva / Lindoro foi uma surpresa muito agradável para mim. Interpretado pelo tenor mexicano Javier Camarena, esteve ao nível de outros grandes intérpretes deste difícil papel. Foi particularmente impressionante no registo mais agudo, sempre afinado e, aparentemente, sem esforço. A coloratura foi magnífica e, no final, na ária Cessa di piu resistere ofereceu-nos um espectáculo invulgar de pirotecnia vocal.



O Don Bártolo foi, para mim, o melhor da noite. Grande sucesso do excelente barítono português José Fardilha, que já destaquei recentemente aqui. Há seguramente muitos “Don Bartolos” por aí, mas nenhum supera o José Fardilha! Fabuloso.



O baixo italiano Ferruccio Furlanetto foi, mais uma vez, o Don Basílio. Outra interpretação de topo, cénica e vocal, deste excelente cantor de voz gigante e cavernosa que sempre me impressiona quando o vejo.



A criada Berta foi interpretada pela soprano neozelandesa Madeleine Pierard que deixou uma excelente impressão na sua ária do 2º acto.



Enfim, a festa da ópera!!






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The Barber of Seville, Royal Opera House, London, September 2016

In the Royal Opera House in London I had the opportunity to review the production of Moshe Leiser and Patrice Caurier of Il Barbirere di Siviglia by G. Rossini, perhaps the best staging I saw of this opera. It is a colourful production, plenty of humour from start to finish. The props are of a genial simplicity, there is little else than a tree, a chair, a harpsichord and a closet. Everywhere doors and windows open and close and everything works perfectly. The costumes are intensely colored. At the beginning, some of the orchestra members suddenly appear on stage. On several occasions the policemen with large noses appear. At the end of the first act, the stage rises and oscillates to a very considerable height. A celebration!

Young Hungarian maestro Henrik Nánási directed the orchestra with elegance. The choir was in perfect tune.

It was a luxury performance in which singers, as well as being all of superior vocal quality were also excellent actors on stage.

Figaro was Italian baritone Vito Priante with a powerful and very beautiful voice, great stage agility, and excellent figure. he began impressively in the aria Largo al factotum and so he remained until the end.

Argentine mezzo Daniela Mack was Rosina with expressive powerful and agile dark voice, with stunning coloratura well exhibited in the aria Una voce poco fa.

The Count of Almaviva / Lindoro was a very pleasant surprise for me. Played by Mexican tenor Javier Camarena, he was at the level of other great interpreters of this difficult role. He was particularly impressive in the high register, always in tune and seemingly effortless. The coloratura was magnificent and, in the end, in the aria Cessa di piu resistere offered us an unusual show of vocal pyrotechnics.

Don Bartolo was, for me, the best of the night. Great success of the great Portuguese baritone José Fardilha. I have recently highlighted his performance here. There are certainly many "Don Bartolos" out there, but none surpasses Jose Fardilha! Fabulous.

Italian bass Ferruccio Furlanetto was, once again, Don Basilio. Another top interpretation, scenic and vocal, this excellent singer of giant cavernous voice that always amazes me when I hear him.

The maid Berta was interpreted by New Zealand soprano Madeleine Pierard that left a great impression on her aria from the 2nd act.

The opera celebration!!


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sábado, 5 de novembro de 2016

Vespro della Beata Vergine, de Claudio Monteverdi, Fundação Gulbenkian, Novembro 2016



A Fundação Gulbenkian ofereceu-nos mais um concerto de elevada qualidade, as Vésperas de C. Monteverdi, interpretada pelo excelente agrupamento Les Cornets Noirs e pelo Coro Gulbenkian, sob a direcção do maestro Michel Corboz. Com ele há sempre uma garantia de qualidade e esta noite, confirmou-se a premissa. 
A abertura da parte posterior do palco com visualização do magnífico jardim foi um bónus adicional.


Os solistas foram Arianna Saval, Soprano, Patrycja Gabrel, Soprano, Michael Feyfar, Tenor Fernando Guimarães Tenor, Manuel Rebelo, Baixo, André Baleiro, Baixo. 
Como acontece sempre nos concertos dirigidos por Corboz, houve grande uniformidade na qualidade dos solistas, embora uns se tenham destacado, nomeadamente os tenores. O Duo Seraphim foi particularmente impressionante, bem como as várias intervenções fora do palco, tanto de solistas instrumentistas como vocais.


Foi mais um concerto de grande qualidade na Fundação Gulbenkian.


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