segunda-feira, 16 de março de 2015

LA DONNA DEL LAGO, Gulbenkian. MetLive, Março de 2015

(text in english below)

La Donna del Lago, ópera de G Rossini com libreto de Andrea Leone Tottola baseado na obra de Sir Walter Scott, viu-se na Fundação Gulbenkian, em mais uma transmissão em directo da Metropolitan Opera de Nova Iorque.

O enredo, inverosímil como tantos outros, passa-se na Escócia no Século XVI. Há 3 homens interessados em Elena, a Senhora do Lago - dois tenores (o rei James V disfarçado durante quase toda a ópera de Uberto e Rodrigo, chefe de um clã inimigo) e um mezzo (Malcom, por quem Elena está apaixonada). Depois de vários acontecimentos bélicos, Rodrigo é morto, e Malcom e Douglas, (pai de Elena) são feitos prisioneiros. O rei James V perdoa a ambos e Elena e Malcom acabam juntos e a Escócia fica em paz.

(fotografias /photos Ken Howard, Metropolitan Opera)

A encenação de Paul Curran foi minimalista e desinteressante. O amplo palco esteve quase sempre vazio, encimado por uma projecção de diversos céus nublados. Os membros do coro foram o principal elemento cénico. No final, dominou o dourado da sala de trono do rei James V.



A Orquestra da Metropolitan Opera foi superiormente dirigida pelo jovem maestro italiano Michele Mariotti.




Elena foi interpretada pelo mezzo Joyce DiDonato. Foi uma actuação extraordinária! Beleza vocal, delicadeza e elegância foram algumas das qualidades dominantes. Joyce DiDonato é uma das melhores interpretes rossinianas da actualidade e voltou a demonstrá-lo nesta récita. Terminou da melhor forma com a ária final “Tanti affetti” que, frequentemente, canta no final dos seus concertos líricos, mas que aqui soube ainda melhor por ser cantada na ópera para a qual foi escrita.



Juan Diego Flórez, tenor, foi o rei James V disfarçado de Uberto. Os leitores habituais deste blogue sabem que é, talvez, o tenor que mais aprecio na actualidade. Mais uma vez achei que teve uma interpretação fabulosa. Tem um timbre único, uma capacidade vocal impressionante e, nas notas mais agudas, é insuperável. Em Rossini, há Juan Diego Florez e os outros! Toda a actuação foi marcante mas na abertura do 2º acto, na ária “Oh fiamma soave” foi inigualável na transmissão de suavidade e, simultaneamente, dor que imprimiu ao seu canto.



O mezzo Daniella Barcelona foi o Malcom. Apesar de ficar sempre mal uma interpretação feminina neste papel masculino (escrito para contralto), a cantora foi muito credível. Tem uma figura que ajuda e, apesar de vestir kilt, por vezes quase esquecíamos que era uma mulher. Tem uma voz poderosíssima e muito expressiva, também de beleza assinalável, o que muito ajudou.



John Osborn, tenor, interpretou o Rodrigo, chefe dos Highlanders. Também esteve bem, tem uma voz bem timbrada, chega às notas mais agudas com facilidade e qualidade mas, ocasionalmente, cantou em esforço. E teve a desvantagem de contracenar com Juan Diego Flórez...



Oren Gradus, baixo, foi Douglas, pai de Elena. Uma interpretação decepcionante, sobretudo quando comparado com os restantes solistas. A voz foi pequena e pouco expressiva.



Foi um festival de bravura e pirotecnia vocal da mais elevada qualidade, que fez justiça à partitura de Rossini.

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LA DONNA DEL LAGO, Gulbenkian. MetLive, March 2015


La Donna del Lago an opera by G. Rossini with libretto by Andrea Leone Tottola from the novel by Sir Walter Scott, was seen at Gulbenkian Foundation, in another live broadcast of the Metropolitan Opera in New York.

The plot, farfetched as many others, is set in Scotland in the sixteenth century. There are 3 men interested in Elena, the Lady of the Lake - two tenors (King James V in disguise for most of the opera as Uberto, and Rodrigo, head of an enemy clan) and one mezzo (Malcolm, whom Elena is in love). After several warlike events, Rodrigo is killed, and Malcolm and Douglas, (Elena's father) are taken prisoner. King James V forgives them all and both Elena and Malcolm end up together and Scotland is at peace.

The staging of Paul Curran was minimalist and uninteresting. The large stage was almost always empty, topped by a projection of several cloudy skies. The choir members were the main scenic element. In the end, there was the golden king's throne room James V.

The Orchestra of the Metropolitan Opera was superiorly directed by the young Italian conductor Michele Mariotti.

Elena was interpreted by mezzo Joyce DiDonato. It was an extraordinary performance! Vocal beauty, delicacy and elegance were some of the dominant qualities. Joyce DiDonato is one of the best Rossinian performers of today and she showed again this afternoon. She ended in the best way with the final aria "Tanti affetti" which she often sings at the end of her lyrical concerts, but here was sung in the opera for which it was written.

Juan Diego Flórez, tenor, was the King James V disguised as Uberto. Regular readers of this blog know that he is perhaps the tenor who I most appreciate today. Again I thought he had a fabulous performance. He has a unique timbre, an impressive vocal ability and in the higher notes, is unsurpassed. In Rossini today, there are Juan Diego Flórez and the others! His whole performance was outstanding but the opening of the 2nd act in the aria "Oh fiamma soave" he was at the top in the vocal transmission of softness and simultaneously pain.

Mezzo Daniella Barcelona was Malcolm. Despite being always annoying a feminine interpretation in this male role (written for contralto), the singer was very credible. Her figure helps and, despite wearing kilt, sometimes we could forget that she was a woman. She has a very powerful and very expressive voice, also of remarkable beauty, which greatly helped the performance.

John Osborn, tenor, was Rodrigo, head of the Highlanders. He also had a good performance, his voice has a nice timbre and hits high notes with ease and quality, but occasionally he sang in effort. And he had the disadvantage of singing opposite Juan Diego Flórez ...

Oren Gradus, bass, was Douglas the father of Elena. A disappointing performance, especially when compared to the other soloists. The voice was small and devoid of expression.

It was a bravura vocal festival full of vocal pyrotechnics of the highest quality, that did justice to Rossini's score.


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sexta-feira, 13 de março de 2015

ESTER , Teatro São Luiz, Lisboa, 6 de Março de 2015

(Fotografia de José Frade)

Texto de José António Miranda

Música de António Leal Moreira (Ester), Diogo Dias Melgás (Lamentação de Quinta-Feira Santa) e Sara Ross (Alentos)
Textos de Gaetano Martinelli (libreto da oratória Ester) e autor anónimo (Livro das Lamentações, Bíblia)

Direcção musical:  Jan Wierzba
Direcção teatral: Luca Aprea
Cenografia: Luca Aprea e Stefano Riva
Roupas: José António Tenente
Luzes: Miguel Cruz
Assuero: Carolina Figueiredo
Ester: Patrycja Gabrel
Aman: Pedro Cachado
Mardocheo: Manuel Brás da Costa
Harbona: Rita Marques
Athach: Pedro Matos

Orquestra do Estúdio de Ópera da Escola Superior de Música de Lisboa
Coro do Estúdio de Ópera da Escola Superior de Música de Lisboa (Dir coro: Clara Alcobia Coelho)
Cravo: Joana Bagulho
Produção: Escola Superior de Música de Lisboa (ESML)
Co-produção: São Luiz Teatro Municipal (Lisboa), IPL

                                                 (Fotografia de José Frade)

Uma proposta inteligente e belíssima e uma demonstração de que não é necessário mobilizar grandes recursos para encenar e apresentar um espectáculo lírico de qualidade muito superior àquela que tem em geral sido patenteada nos últimos tempos no TNSC.
Simultaneamente o espectáculo revela a sensibilidade cosmopolita da direcção artística do Estúdio de Ópera da ESML (Nicholas McNair): a ideia subjacente à sua concepção, a de juntar num único objecto cénico obras de diferentes contextos e épocas, tem como exemplos recentes William Christie/Phelim McDermott no MET em 2012 (The enchanted Island), Teodor Currentzis/Peter Sellars no Teatro Real em 2013 (The Indian Queen), Carlos Mena/Joan Antón Rechi na Zarzuela em 2014 (De lo humano…y divino).

                                                 (Fotografia de José Frade)

Um simplicíssimo dispositivo cénico rotativo serve aqui de cenário para a exposição da oratória de Leal Moreira, sendo os textos bíblicos da Lamentação de Melgás apresentados por um coro de ajudantes de cena/espectadores, que de algum modo funcionam por vezes também como intérpretes cénicos da música de Sara Ross.
Esta música, fragmentos de atonalidade que pontuam todo o espectáculo, funciona à perfeição como argamassa unificadora, ao mesmo tempo que acentua por contraste as diversidades musicais e as semelhanças narrativas das duas obras representadas.

Inteligência e sensibilidade reunidas obtiveram portanto como resultante um espectáculo de grande qualidade. A preparação cénica dos cantores foi patente demonstrando um minucioso trabalho de direcção.

                                            (Fotografia de José Frade)

O desempenho vocal dos solistas foi globalmente de grande mérito, com particular realce para as intervenções de Carolina Figueiredo, Rita Marques e Manuel Brás da Costa: um grupo de jovens cantores que poderia sem problemas apresentar-se neste reportório em outros palcos.

O coro ultrapassou muito bem as dificuldades da polifonia barroca. Especialmente brilhante foi a orquestra, que mostrou uma qualidade interpretativa ímpar indiciando seguramente um cuidadoso labor de preparação, mas reveladora sobretudo do rigor e da sensibilidade da direcção de Jan Wierzba.

E assim se pode ver também aqui uma clara explicitação da habitual realidade doméstica: tem de ser um palco lírico secundário o local de apresentação para um público em geral menos informado de um espectáculo de maior qualidade produzido entre nós, enquanto que ao lado (TNSC), na cena lírica principal se exibem para um público (por ora ainda) mais conhecedor espectáculos importados de menor valia.

                                              (Fotografia de José Frade)

A habitual alternativa secular para os nossos melhores protagonistas continua a ser a emigração, agora de forma explícita incentivada.


José António Miranda,   09/03/2015

terça-feira, 10 de março de 2015

MACBETH no Teatro Nacional de São Carlos — 27 de Fevereiro e 1 de Março de 2015

(imagens da internet)

Assisti à penúltima e última récitas da ópera Macbeth de Giuseppe Verdi. Trata-se de um ópera estreada em 1847, num dos períodos mais produtivos do compositor, mas, sobretudo, num período de maturação estilística de Verdi, havendo já muito daquele Verdi da trilogia popular (Il Trovatore, Rigoletto e La Traviata). Esta ópera foi, aquando da estreia em Paris em 1865, globalmente revista, sendo essa versão, claramente superior à original, aquela que hoje em dia se representa. Trata-se da primeira obra de Verdi que tem por base um peça do dramaturgo inglês William Shakespeare que foi adaptada pelo seu libretista Francesco Maria Piave. Para o meu gosto pessoal, trata-se de uma das óperas mais entusiasmantes de Verdi, com todo um conjunto de árias de dificuldade muito elevada e com um ritmo alucinante entre cenas.


O texto de Shakespeare é uma trama de crime guiado pela sede de poder e, também, da culpa geradora de uma tremenda angústia que conduz à loucura. Trata-se de uma peça muito rica que foi adaptada com qualidade por Piave, muito embora sem a genialidade do libretista de Otelo e Falstaff — Arrigo Boito. Poderão ler uma sinopse e conjunto de textos interessantes, além do libreto com excelente tradução para português, no programa de sala do TNSC de 2007.


A encenação de Elena Barbalich já era conhecida de parte do público, uma vez que se trata de uma reposição da encenação de Macbeth de 2007. É uma encenação interessante e que permite, de forma extremamente eficaz, o desenrolar da acção atendendo aos pormenores do libreto.


Destaca-se uma circunferência em forma de íris e com 8 partes espelhadas que, ao longo da acção, toma diversos papéis: serve como uma espécie de olho que permite as revelações das bruxas; de mesa aquando do banquete; de caldeirão nas revelações do III acto; torna-se escura e opaca quando os 8 reis empunham, cada um, um espelho; de ligação permanente entre a realidade, a revelação, a loucura e uma metáfora de observação que, no fundo, olha também para nós, elementos do público.


O jogo de luzes entre o vermelho e o branco é interessante, nomeadamente quando Duncano é assassinado: o fundo branco torna-se vermelho e, mais tarde, quando Duncano surge coberto do seu sangue vermelho-vivo, o fundo torna-se branco em contraste. Também são interessantes os flashes de luz branca aquando das revelações, ou o jogo de projecções baças e mal definidas das alucinações.


O vestuário é de época e rico em detalhes. Peca pela direcção de actores no que diz respeito aos solistas. É demasiado estática e não promove o dramatismo.


É, pois, uma encenação bem interessante e agradável de acompanhar e que enriquece a ópera, não tentando ser pretensiosa ao atribuir novos significados à acção. Aliás, comparativamente à nova produção do MET de que aqui se deu conta, creio que esta encenação é muito mais interessante. Não posso concordar com quem ache que se trata de uma encenação destituída de interesse ou qualidade, ou, muito menos!, que se trate de uma encenação obsoleta, indigente ou carente de outros demais adjectivos negativos. Antes pelo contrário!

A Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Domenico Longo apresentou um nível bom. Foi intensa a espaços e conseguiu criar momentos de dramatismo elevado, com um tempo interessante e, globalmente, favorável aos cantores. Foi, sem atingir o brilhantismo, uma interpretação de qualidade.

A ópera tem, como personagens principais, Macbeth — homem ambicioso e manipulável, com pouco recursos para lidar com a ambivalência que lhe geram os seus desejos e os seu actos —, Lady Macbeth — mulher implacável, perturbada, sem escrúpulos e com uma sede de poder que deixaria Maquiavél envergonhado —, e as Bruxas — elemento central do desenrolar da acção e  que lhe introduz sentido mágico.


Macbeth foi interpretado pelo barítono Àngel Òdena. Dotado de uma voz bem timbrada e agradável e dono de bons recursos dramáticos, foi um Macbeth convincente. Terminou em plano muito elevado na sua ária Pietà, rispetto, amore. É verdade que, cenicamente, não foi extraordinário, mas creio que esteve algo diminuído pela direcção de actores que, inclusive, o obrigou a um exercício acrobático e algo perigoso, ao fazê-lo subir uma cadeira muito alta envolto no seu manto comprido. Foi, apesar disso e no meu entender, o melhor da noite e um Macbeth de elevado nível vocal.


Lady Macbeth foi Elisabete Matos. Dotada de uma voz poderosa, metálica e de ampla tessitura, esperava-se uma Lady Macbeth de nível muito elevado. Cenicamente apenas cumpriu, não conseguindo passar a imagem de mulher perturbadamente sedenta de poder a qualquer custo, talvez pela sua postura demasiado estática. Vocalmente, cumpriu sem deslumbrar, o que muito se deveu à forma estranha como finalizava as notas mais agudas, a tendência para a estridência e à dificuldade em imprimir lirismo ao seu fraseado. Assim, quer em Vieni! t’affretta e La luce langue esteve longe de brilhar e perto de desiludir. Na famosa ária da loucura Una macchia è qui tuttora estava em melhor plano (foi mesmo, globalmente, a sua melhor ária) até que falhou, por completo, o pianissimo final ao dizer Andiam, o que, infelizmente, foi a imagem que ficou. Disseram-me que estava doente, pelo que, se assim for, se desculpa e se agradece o esforço.

O Coro do TNSC esteve, nas suas várias intervenções, num plano razoável, tendo, sobretudo no coro inicial, apresentado alguns elementos desencontrados dos restantes e com recurso frequente à estridência.

O Banquo de Giacomo Prestia deslumbrou com a sua voz potente e bem colocada que, dada a curta extensão do papel, não o permitiu brilhar mais. Esteve muito bem na sua ária Studia il passo, o mio figlio!

Macduff foi o tenor Enzo Peroni que, com uma voz relativamente pequena, baça e sem brilho vivo, cumpriu sem encanto o seu curto papel, nomeadamente na ária O figli, o figli miei!

Destaco a interpretação de Bárbara Barradas que, apesar do curto papel, conseguiu brilhar nas suas intervenções, tendo estado particularmente bem nos coros finais do 1.º acto (nomeadamente no quarteto que canta a morte de Duncano) e 2.º acto com uns agudos que sobressaiam sobre a orquestra, bem como no 4.º acto. Concordo com a opinião de J.A. Miranda quando afirma que esta — e do que vi sobretudo na récita de 27 (na última esteve mais comedida) — parecia estar numa competição para demonstrar  estar preparada para ser, ela própria, a diva. Ainda assim, dada a qualidade que evidenciou, fiquei muito agradado. Aliás, Bárbara Barradas, pelas suas recentes excelentes interpretações no Il Viaggio a Reims e como Barbarina no Le Nozze di Figaro da FCG, está há muito a pedir papéis de maior relevo e destaque!

Os restantes elementos foram competentes e eficazes, nomeadamente o Malcolm de Marco Alves dos Santos.


Foram, no cômputo geral, duas récitas homogéneas e agradáveis no TNSC. Nesta temporada, apesar do baixo orçamento, o São Carlos tem revelado vontade de retomar alguma da qualidade de outros tempos. Não posso, pois, concordar com opiniões tendentes a que o TNSC tenha apresentado um espectáculo medíocre. Posso concordar, isso sim e infelizmente, que parece haver uma nuvem negra sobre o futuro deste teatro. Entra director, sai director. Não anuncia o substituto. Logo não anuncia temporada. Antes se prenuncia a falta dela. Mas, entretanto, só há vazio e a incerteza. E fica seguramente o descrédito das entidades ligadas à cultura (ou falta dela) que a gerem. Fica a inépcia do Secretaria de Estado da Cultura. A cultura — a maior riqueza de um povo e aquilo que o faz perdurar e unir-se — reduzida a uma secretaria de estado sem expressão é, desde logo, sintomático da avareza intelectual dos nossos "dirigentes"... Assim, lentamente e, como diria Eça, "num galopezinho muito a direito e muito seguro", assiste-se ao cortejo fúnebre e lento do TNSC, não sem que se vislumbrem raros laivos de vida, aliás como acontece nos estertores da morte... E isso é lamentável!

sexta-feira, 6 de março de 2015

MET Orchestra (Direcção de James Levine) com Anna Netrebko - Carnegie Hall – Fevereiro 2015 –Crítica de Francisco Casegas



 No passado dia 8 de Fevereiro tive a oportunidade de assistir ao meu primeiro concerto no emblemático Carnegie Hall. O Programa consistiu (por esta ordem) na 2ª sinfonia de Beethoven, na ária “Song to the Moon” da ópera “Rusalka” e canção “Cäcilie” de Richard Strauss, “Three ilusions” de Carter e por fim na 2ª sinfonia de Schumann.

Estava inicialmente prevista a actuação de Elina Garanca e a intrepretação das “7 Frühe Lieder” de Berg, mas devido a doença teve de ser substituida por Anna Netrebko que possivelmente devido a ter recebido a notícia muito em cima da hora, apresentou um programa muito breve (menos de 10 minutos).

Tinha bastante curiosidade de ver ao vivo Elina Garanca, mas ainda mais curiosidade de ver Netrebko portanto não fiquei demasiado aborrecido por esta mudança de última hora (iria nessa mesma semana ouvir ambas na MET).
Na interpretação da 2ª sinfonia de Beethoven James Levine imprimiu à orquestra da MET uma excelente dinâmica do inicio ao fim elevando esta interpretação a um altíssimo nível.

Em relação à interpretação de Anna Netrebko, foi extraordinária, como já nos tem habituado, em ambas as canções. Uma voz potentíssima, (ajudada pela extraordinária acústica do Carnegie Hall) aliada a uma técnica vocal extraordinária que provam que não é por acaso que é considerada por muitos a maior “Diva” do mundo operático nos dias de hoje. Foi mesmo muita pena ter sido tão breve a sua actuação pois queremos sempre ouvir mais e mais quando toca a intrepretações suas. Em relação a Netrebko quero ainda dizer que estiveram presentes seguranças à entrada do palco, medida adoptada para prevenir outra invasão de palco como aconteceu na estreia de Iolanda na MET poucos dias antes.


 Na intrepretação das “Three ilusions” de Carter (que faleceu no passado ano de 2012 com 103 anos!), composição de 2002-2004 e estreada em Boston em 2005, a orquestra esteve muito competente embora a composição em si seja desconhecida para mim e não me tenha entusiasmado por aí alem.

Na intrepretação da 2ª sinfonia de Schumann penso que a orquestra mostrou um pouco menos de dinâmica em relação à intrepretação da sinfonia de Beethoven mas a intrepretação do 3º movimento foi sublime com a orquestra a mostrar uma delicadeza e intensidade enormes  que este movimento requer.

No geral foi um concerto de excelente nível onde tive a oportunidade de ver duas das minhas grandes referências do mundo óperático, Levine e Netrebko, pela primeira vez.

Por fim, apenas quero partilhar um aspecto curioso que encontrei no Carnegie Hall. Havia rebuçados para a tosse à disposição das pessoas à entrada. A ideia parece dar resultado visto que as tosse durante o concerto foram muito raras. Fica a sugestão para as salas de espectáculo portuguesas.

https://www.youtube.com/watch?v=StYkNyeViEA –Link para o video dos agradecimentos finais da orquestra

segunda-feira, 2 de março de 2015

MACBETH, Teatro Nacional de São Carlos, 23.02.2015





Está em cena no Teatro Nacional de São Carlos a ópera Macbeth, de Verdi, com libreto de Francesco Maria Piave, baseado na tragédia homónima de Shakespeare.

Embora tenha sido originalmente composta entre 1846 e 1847 e estreado no Teatro della Pergola, de Florença, no dia 14 de Março de 1847, Verdi procedeu a uma extensa revisão da partitura para o Théâtre Lyrique de Paris, onde foi representada a 19 de Abril de 1865, em francês.
Foi esta versão revista, embora retraduzida para italiano e expurgada do bailado do 3º acto, obrigatório em Paris, que acabou por se estabelecer no repertório dos teatros de ópera e que é, actualmente, a versão normalmente levada ao palco e gravada. Aliás, que seja do meu conhecimento, apenas existe uma gravação discográfica da versão original de 1847, na chancela “Opera Rara”.

É uma ópera, na versão revista, que apresenta já muitas das características do Verdi da maturidade e em que a prevalência da componente dramática é já bastante evidente. As linhas vocais e as sonoridades criadas estão já muito mais ao serviço do drama do que da pura arte canora. Embora subsistam componentes mais associadas ao chamado “belcanto” da primeira metade do século, como o recurso à coloratura e ao modelo de ária com cabaletta (veja-se a ária de abertura de Lady Macbeth), note-se que as linhas vocais estão mais vinculadas ao texto e servem muito mais a dramaturgia. Se compararmos, por exemplo, com o posterior Il Trovatore, vemos bem essa diferença.



Também no São Carlos se optou por apresentar a versão revista de 1865 em italiano e sem o bailado.
A encenação ficou a cargo de Elena Barbalich e constitui uma reposição de uma produção de 2007, então estreada no São Carlos.
Todas as cenas são dominadas pelo jogo entre jogos de sombras com cortinas translúcidas e um círculo espelhado, de grandes dimensões, que tanto assume a posição de uma espécie de sol eclipsado, como de caldeirão das bruxas ou de mesa de jantar na cena do banquete.
Os efeitos visuais são bastante bem conseguidos e, aliados a um subtil mas eficaz jogo de luzes, conseguem criar os ambientes tétricos tão adequados à música e ao drama.
As cortinas translúcidas permitem operar a separação entre o mundo fantástico das bruxas e dos fantasmas por estas convocados e o mundo real onde se movem os personagens.
Alguns apontamentos merecem destaque, como o trono de Macbeth – composto por cadeira com encosto vazio – com altura variável consoante a fortuna de cada momento. Outro que me pareceu bem conseguido foi o da cena da floresta, em que a projecção das árvores a avançar sobre o castelo de Macbeth me pareceu muito interessante.
Todavia, embora seja bem conseguida e bem executada, a encenação propriamente dita acaba por ser bastante convencional, na medida em que reproduz com grande fidelidade o texto, não ensaiando qualquer tentativa de apresentar uma nova visão sobre a obra ou de salientar algum aspecto menos evidente, pelo menos de que eu me tenha apercebido. O que, naturalmente, não constitui um defeito em si mesmo e é largamente preferível às encenações que violentam a obra que deveriam servir.



Apesar da ópera ter por título Macbeth, bem poderia chamar-se Lady Macbeth, tal é a importância desta personagem, verdadeiro motor da acção.
A soprano Elisabete Matos encarnou a terrífica esposa de Macbeth. Penso que a sua prestação foi em crescendo, sendo que no primeiro acto a emissão da voz me pareceu um pouco forçada. Todavia, daí para a frente a sua voz opulenta fez-se ouvir com grande esplendor. Embora nas passagens de coloratura não tenha demonstrado a agilidade ideal (o que também não era, objectivamente, expectável), demonstrou segurança no registo grave, tão necessário à personagem (tanto que, por vezes, é interpretada por mezzo-sopranos). Algumas notas agudas dadas de modo mais agreste estão perfeitamente de acordo com o idealizado por Verdi que, recorde-se, pediu expressamente uma vocalização áspera e selvagem para este caracter demoníaco. A cena do sonambulismo foi adqequada, embora ensombrada pelo ré bemol sobreagudo final, que praticamente não saiu.
Gostaria, contudo, de ter ouvido uma Lady Macbeth um pouco mais negra, mais perversa e veemente e não tão controlada. Penso que a Elisabete Matos acabou por faltar a capacidade de colorir a voz em cada momento, ao serviço da caracterização psicológica da personagem. Quem conheça as versões discográficas de Leonie Rysanek, Christa Ludwig ou Shirley Verrett, para não falar de Callas, não pode deixar de sentir algum desapontamento face às elevadas expectativas que a presença da mais famosa das cantoras líricas portuguesas da actualidade sempre suscita.

O barítono Àngel Òdena intrepretou o protagonista que dá nome à ópera. Foi, para mim, uma agradável surpresa, pois nunca tinha ouvido falar deste cantor. O timbre é escuro, uniforme e bastante belo, não se tendo notado qualquer deterioração da qualidade sonora durante toda a récita, num papel que é muito extenso e exigente. A projecção vocal foi sempre perfeita e a belíssima ária final Pietà, rispetto, amore foi, para mim, um dos momentos altos da noite no puro plano da beleza do canto.
Òdena compôs um Macbeth bastante torturado. Todavia, talvez tenha faltado alguma diferenciação tímbrica e uma caracterização vocal mais pronunciada, que conferisse uma maior espessura ao perfil dramático da personagem.



O baixo Giacomo Prestia, no papel de Banquo, esteve magnífico. A sua voz cheia e escura, aliada a uma nobreza da linha de canto, fizeram inteira justiça a um papel curto, mas que Verdi dotou de uma música transcendente.

O tenor Enzo Peroni, no papel de Macduff, cantou bastante bem a sua ária O figli, o figli miei!” – uma das mais belas árias para tenor de toda a produção verdiana – colocando em evidência um timbre claro e bonito, embora ligeiramente nasalado, segundo me pareceu.

Os demais cantores estiveram bem e cumpriram sem mácula os seus papéis.

O coro saiu algo prejudicado por alguns desacertos nas entradas das vozes nos coros das bruxas. No mais, a sua prestação foi meritória.
A direcção de Domenico Longo conferiu à orquestra um papel relevante na criação de ambiências e no desenvolvimento do drama. Com excepção dos já referidos desacertos com o coro, que já referi, apenas salientaria, em termos menos positivos, a adopção de um tempo excessivamente rápido na secção inicial do prelúdio, comprometendo a criação do ambiente tétrico e sombrio que evoca.