domingo, 15 de fevereiro de 2015

IOLANTA de P. I. Tchaikovsky e O CASTELO DO BARBA AZUL de B. Bartók


Assiste-se actualmente à estreia (!) da última ópera de Tchaikovsky no Metropolitan Opera de Nova Iorque. Trata-se da ópera Iolanta, op. 69, que foi composta e estreada em São Petersburgo em 1892 no Teatro Mariinsky. O libreto é do irmão mais novo do compositor — Modest Tchaikovsky — e baseia-se na peça dinamarquesa Kong Rénes Datter (A Filha do Rei René) de Henrik Hertz.


A ópera desenrola-se em 4 cenas de um único acto e trata de uma princesa que nasceu cega e que se vê privada não só desse sentido, mas de todo o conhecimento do que é a visão, uma vez que o seu pai deliberadamente lho esconde. Iolanta desconhece o que é ver, o que é a luz, as cores, ou tudo o que a visão pode representar. Para ela, os olhos servem para chorar e isso dá-lhe alívio às suas amarguras. Poderão ler uma sinopse aqui.

Trata-se de uma ópera sobre a descoberta dos sentidos e sobre o poder do amor de transformar e curar. E a música de Tchaikovsky é esplendorosa!


O elenco escolhido foi de altíssimo nível. Para começar, a orquestra foi dirigida pelo grande maestro russo Valéry Gergiev, um especialista neste reportório e que, em 2009, já tinha dirigido muitos destes cantores no Teatro Mariinsky nesta mesma ópera e com a mesma encenação. A orquestra esteve fabulosa, a explorar todas as sonoridades tchaikovskianas.


A estrela maior era, naturalmente, a soprano russa Ana Netrebko. Iolanta é uma personagem ambivalentemente frágil. Se, por um lado, é cega e dependente de terceiros, vivendo ignorantemente com isso e maravilhada pelo mundo das pessoas e da simplicidade das coisas (a ajuda que os outros lhe dão, o som de um riacho, etc.), por outro tem um forte desejo de superação, de procura e de justiça. Netrebko esteve, como habitualmente, a um nível estrelar, com uma voz límpida, cheia, plena de vida. E cenicamente representou ao mais alto nível a fragilidade de alguém que se vê privado de um dos órgãos dos sentidos que mais liberdade nos dá. Esteve magnífica no arioso Atchevo eta prezhde ne znala (Porque não soube disto antes?), bem como no dueto com Vaudémont Tvajo malchan’je nepan atna (Não compreendo o teu silêncio) onde revelou uma excelente ligação a Beczala. Está nas suas sete quintas neste reportório russo e o prazer que tem a cantá-lo é evidente.


Vaudémont foi o tenor polaco Piotr Beczala. A personagem representa um homem que se apaixona à primeira vista pela frágil Iolanta e que, nesse instante, percebe que dará a sua vida por ela, aceitando-a tal como é. Beczala é um dos melhores tenores da actualidade (senão mesmo o melhor!) e demonstrou-o uma vez mais. A sua interpretação foi de grande nível.



Aleksei Markov foi o Duque Robert. É uma personagem que estava prometida em casamento a Iolanta, mas que, não por conhecer o seu estado, está apaixonado por outra nobre e que, por isso, pretende romper o contrato. Markov apresentou-se a um nível elevadíssimo, apresentando uma voz de barítono cheia, com uma capacidade de projecção digna de nota e enorme expressividade. A sua ária Kto mozhet sravnit’sja s Matil’doj moej (Quem se pode comparar à minha Matilda?) foi fantástica.

O baixo ucraniano Ilya Bannik foi o Rei René. Tem um grave profundo, uma excelente projecção e expressividade vocal e cénica, transmitindo com intensidade as angústias e dúvidas da personagem. O barítono Elchin Azizov do Azerbaijão foi o médico mouro Ibn-Hakia. Exibiu-se em bom nível, embora não me tenha encantado. As restantes personagens foram interpretadas por um elenco equilibrado e sem falhas.


Deixei a encenação propositadamente para o final. A produção de Mariusz Trelinski é a que este já apresentara no Mariinsky. É interessante a forma como usa elementos de vídeo que se projectam em torno de uma caixa – pequeno ponto central da acção e do palco, envolto por um estranho mundo sombrio – que funciona como o quarto de Iolanta e que, com movimentos circulares, permite descobrir outras partes do palco de modo a representar as restantes cenas desta ópera de acto único. Acho que é uma encenação eficaz e que tem como elemento mais arrepiante a escuridão com que inunda a sala quando Vaudémont faz Iolanta descobrir que é cega. Não gostei apenas do facto de, na primeira cena, as cuidadoras de Iolanta adoptarem uma postura trocista. Mas, encenação por encenação, gostei mais daquela a que assisti no Teatro Real com Peter Sellars: mais simples, mais introspectiva, a trazer-nos a luz de outra forma.


Mariusz Trelinski foi quem sugeriu a Peter Gelb a realização de uma jornada dupla, juntando a Iolanta a ópera em um acto O Castelo do Barba Azul do húngaro Béla Bartók. A razão é a forma como se tocam de alguma forma, não apenas por serem ambas histórias do imaginário fantástico. Judith está cega pelo amor que nutre por Barba Azul e obstinadamente procura que Barba Azul lhe revele os seus segredos e o seu verdadeiro eu, sabendo dos rumores que correm de que todas as suas anteriores esposas haviam sido mortas. Fá-lo, de alguma forma, de um modo masoquista, explorando e confrontando Barba Azul com as suas fragilidades de homem fúnebre, reservado e atormentado pelo passado. Mas Barba Azul, tal como René, esconde a Judith a verdade da situação em que vive e que a espera. Este é o paralelo. Mas a ópera de Bartók é um imenso drama psicológico ao nível dos melhores e mais elaborados thrillers. Poderão ler uma sinopse aqui.


O libreto baseia-se na peça La Barbe bleue de Charles Perrault e foi escrito entre 1908-10 pela mão de Béla Balázs que o dedicou em conjunto aos seus amigos Bartók e Kodály. Foi a Béla Bartók quem coube, para apresentação num concurso em 1911, escrever a música. Assim, nasceu esta ópera interessantíssima pela enorme densidade psicológica e dramática que encerra, acompanhada por uma música inspiradíssima e moderna.

A encenação é fabulosa e penso que se poderá considerar um exemplo do que é a utilização das novas tecnologias na ópera actual. Começa com o prólogo em que Bardo convoca a audiência a observar a cena que se vai desenrolar e nos questiona se fazemos parte ou não do que vamos ver. Fá-lo com vídeo em que se vêm imensos troncos de árvores numa floresta sombria e escura acompanhados pelo som horripilante do ranger dos troncos. Entretanto Bardo fala-nos com voz pesada através do sistema de amplificação do teatro. Está criado o cenário tenso e escuro que nos transporta para o sombrio castelo de Barba Azul e as suas 7 misteriosas portas. Surge Judith de vestido verde com Barba Azul de fraque. Chega num carro onde é entregue ao esposo no meio da floresta. Entram numa espécie de garagem e, rapidamente, se desenrola a acção.



As duas personagens entram depois num elevador panorâmico em que, de lado, surge uma projecção de vídeo de um corredor com várias portas. Depois é o desfilar de cenários: a câmara de tortura com a parede manchada de sangue, uma banheira onde Judith surge despida e descobre as jóias manchadas de sangue, etc.  




Tudo isto até à cena final em que há um corpo semienterrado que é o de Judith. Judith está horripilada com a sua própria imagem morta. As outras mulheres de Barba Azul dançam ao fundo e Judith antevê o seu fim. Barba Azul canta as virtudes das suas três mulheres (o amanhecer, o fulgor do sol do meio-dia, o entardecer, e a Judith o esplendor da luz da lua da meia-noite). Judith torna-se mais uma das mulheres eternas de Barba Azul. Fecha-se a sétima porta e cai o pano. Resultou tudo muito bem, num estilo muito cinematográfico e que nos conseguiu transmitir toda a tensão desta peça de uma forma que nos colou à cadeira e ao ecrã.


Para tal sensação não foi de menor relevo a interpretação excepcional de Valéry Gergiev aos comandos da competentíssima orquestra da Metropolitan Opera. Há uma mudança de paradigma musical clara entre a delicadeza exuberante de Tchaikovsky e a dureza da música escura da primeira metade do século XX de Bartók.


Além de Gergiev, a dupla de cantores esteve em destaque. A soprano alemã Nadja Michael (muito conhecida pelo seu papel de Salomé) foi uma Judith perfeita: voz completa, potente, expressiva e sofrida aliada a uma intensidade dramática e postura que conseguiu tornar a sua personagem muito credível. Aumentou a intensidade dramática ao longo de uma hora de uma forma angustiante à medida que percebia que o seu fim estava próximo, expondo a fragilidade dúbia da personagem. Formidável!


Também o baixo russo Mikhail Petrenko foi um Barba Azul  de excelência: voz escura e poderosa aliada a uma postura cénica contida, negra e misteriosa, condimentando bem a personagem.



Foi um Castelo do Barba Azul absolutamente genial e a que tiro o chapéu a Mariusz Trelinski e a Nadja Michael!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

LUCIA DI LAMMERMOOR – Bayerische Staatsoper, Fevereiro de 2015 – Transmissão em directo em Staatsoper.TV / live stream online Staatsoper.TV

(text in english below)

A Bayerische Staatsoper transmitiu em directo no dia 8 de Fevereiro a nova produção da opera de G. Donizetti Lucia di Lammermoor (Staatsoper.TV, transmissão gratuita).

A encenação, da polaca Barbara Wysocka transportou a acção para os EUA nas décadas de 50 e 60 do Século passado. Tudo se passa num grande salão abandonado e decadente onde, ao longo da récita,  são colocadas umas cadeiras e secretárias, e aparece um carro da época. 

(Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Retrata-se um confronto entre classes sociais em que Lord Enrico Ashton é um político que obriga a irmã a Lucia a casar contra sua vontade com Lord Arturo Bucklaw, em detrimento do seu amado Sir Edgardo di Ravenswood, aqui representado à imagem de James Dean. Muitas pistolas são apontadas ao longo da récita. O guarda-roupa é cuidado. Não gostei do que vi porque acho que não trouxe nada de novo e o que se cantava era frequentemente diferente do que se via.

                           (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)


A direcção musical, marcante, foi do maestro Kirill Petrenko. Orquestra e Coro da Bayerische Staatsoper estiveram muito bem. Na orquestra foi utilizada uma harmónica de vidro e foi muito interessante a apresentação do instrumento feita no intervalo.

Diana Damrau foi uma Lucia excelente. Esteve em grande forma vocal e também foi muito expressiva no desempenho cénico. O ponto alto foi a cena da loucura, nesta encenação muito diferente do habitual, mas que a cantora interpretou de forma marcante. O papel é de grande exigência técnica mas a Damrau interpretou-o ao mais alto nível, com uma coloratura impressionante e sempre afinada.

                   (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Também o Edgaro do tenor Pavel Breslik foi muito bom, talvez a melhor interpretação que lhe ouvi. É certo que ao vivo a percepção é diferente, mas na transmissão esteve sempre bem audível, voz de timbre bonito e desempenho cénico muito bom.

Dalibor Jenis foi um Enrico que cumpriu sem deslumbrar, pouco expressivo e monocórdico ao longo de toda a récita.

                      (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Nos papéis secundários destacou-se Georg Zeppenfeld que foi um excelente padre Raimondo, mas também estiveram bem Emanuele D’Aguanno como Arturo, Rachael Wilson como Alisia e Dean Power como Normanno.


                     (Fotografias Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

É para mim sempre um grande prazer ver esta ópera, mesmo quando a encenação não ajuda, como foi o caso.

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Bayerische Staatsoper broadcast live on February 8 the new production of Donizetti’s opera Lucia di Lammermoor (Staatsoper.TV, free transmission).

The staging by Polish Barbara Wysocka set the action in the US in the 50s and 60s of last century. Everything takes place in a large abandoned and decaying hall where, along the performance, some chairs and desks are placed, and a car . The setting portrays a confrontation between social classes in which Lord Enrico Ashton is a politician who forces his sister Lucia to marry against her will to Lord Arturo Bucklaw, to the detriment of his beloved Sir Edgardo di Ravenswood, here represented at the image of James Dean. Many guns are pointed along the recitation. The dresses are interesting. I did not like what I saw because it did not bring anything new and what was sung was often different from what one saw.

The striking musical direction was of maestro Kirill Petrenko. Orchestra and Bayerische Staatsoper Choir were very good. The orchestra used a glass harmonica and it was very interesting the presentation of the instrument during the interval.

Diana Damrau was an excellent Lucia. She had a great vocal performance and she was also very impressive in the stage performance. The highest point was the scene of madness, very different in the presente scenario than in more conventional stagings, but the singer was excelente. The role is technically very demanding but Damrau interpreted it at the highest level, with an impressive coloratura, always in tune.

Edgaro by tenor Pavel Breslik was was very good, perhaps the best interpretation I heard from him. Admittedly live perception is different, but during the transmission he was always very audible, voice of beautiful timbre, and very good stage performance.

Dalibor Jenis was a Enrico who sung without impressing, monotonous throughout the performance.

In supporting roles the best was Georg Zeppenfeld as priest Raimondo, but also good were Emanuele D'Aguanno as Arturo, Rachael Wilson as Alisia and Dean Power as Norman.

For me it is always a great pleasure to see this opera, even when the staging does not help, as was the case.


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sábado, 7 de fevereiro de 2015

LE NOZZE DI FIGARO, Fundação Calouste Gulbenkian, 01.02.2015



Le Nozze di Figaro, estreada no Burgtheater de Viena, em 1 de Maio de 1786, marca o início da colaboração de Mozart com o libretista Lorenzo da Ponte. Colaboração que se estenderia ao Don Giovanni (1787) e, finalmente, ao Così fan Tutte (1790).



Como é uma das óperas que mais me emociona e que foi essencial na minha formação enquanto apreciador da arte lírica, gostaria de partilhar algumas ideias que, não sendo originais, alimentam o fascínio com que sempre ouço e reflicto sobre esta obra.

Como é sabido, Le Nozze di Figaro baseia-se na segunda parte da trilogia de Beamarchais, que começa com Le Barbier de Séville e termina com La Mère Coupable (a partir da qual Darius Milhaud compôs uma ópera homónima) É, todavia, a mais interessante das três, não só pela dimensão de crítica social e política que incorpora, como, essencialmente, pela força dramática das personagens e pelo tratamento que dá à própria natureza de um sentimento primordial como o amor.

A crítica social costuma ser identificada com o desafio e a emancipação dos servos face dos senhores, nas vésperas da Revolução Francesa. Figaro, à semelhança de Leporello, já não quer mais servir (recorde-se o E non voglio più servir com que começa o Don Giovanni) ou, pelo menos, sujeitar-se às arbitrariedades do seu amo, pelo que não tem pejo em enfrentá-lo. E a renúncia contrariada, pelo Conde, ao chamado “Direito de pernada” constitui já um sinal dessa mudança do equilíbrio de forças do antigo regime.

Mas o aspecto que me parece mais revolucionário é o modo como, na música, se equiparam as desventuras e desilusões de nobres e servos. Todos se enganam e são enganados, todos traem e são traídos, nobre com servos e servos com nobres. Todos estão à mercê do império dos sentidos e sujeitos às consequências da sua desordem. E é precisamente aí que a ópera demonstra a verdadeira igualdade, assente na natureza humana e no amor, que a todos subjuga com igual força. A fraqueza e a volubilidade da constância amorosa, com a qual todos terão de conviver, é algo que atinge todas as personagens e que paira como uma sombra sobre o suposto final feliz.



A este propósito, sempre achei que a ópera acaba com pacificação, mas que dificilmente se pode entender que acaba bem. Após esta Folle Journée, nenhuma das personagens poderá, genuinamente, acreditar na solidez dos sentimentos que são expressos a final e que servem de cimento à junção dos quatro casais: Conde – Condessa, Figaro – Susana, Cherubino – Barbarina e Bartolo – Marcellina. O grau de ambiguidade dessas reconciliações constitui apenas, na minha maneira de ver, um mero interlúdio numa partida em que não há vencedores nem vencidos, mas em que a inocência fica, definitivamente, comprometida.
E esta linha de falsos finais felizes é levada a um extremo ainda mais perturbador no Così fan Tutte (veja-se, a este propósito, a advertência de Don Basilio no trio do 1º acto: così fan tutte le belle, non c’è alcuna novità) em que a ambiguidade final é ainda mais acentuada depois de Ferrando e Guglielmo se terem empenhado em perder a aposta com Don Alfonso sobre a fidelidade das suas noivas apenas para vencerem no jogo de sedução da noiva do outro.



E é esse império dos sentidos, essa complexidade psicológica nunca completamente esclarecida, que Mozart, muito para além do texto, ilustra através de uma música sublime, que nos maravilha com a sua invenção melódica; que nos faz rir com as cenas de conjunto em que todos enganam todos; que suscita a nossa reflexão através das contradições das personagens; que nos emociona até às lágrimas com a pungência da sua expressividade e força dramática, que reconhecemos da vida real.

Le Nozze di Figaro é, como referi, uma da minhas óperas favoritas e foi com grande expectativa que assisti à récita semi-encenada no passado dia 1 de Fevereiro, na Gulbenkian, sob a direcção de Paul McCreesh.
O Francisco Casegas fez já uma excelente apreciação dessa récita neste blog, pelo que tentarei não duplicar as apreciações.
Desde logo, um aspecto muito positivo deve ser sublinhado: a ópera foi apresentada em versão integral, com as normalmente suprimidas árias de Marcellina e de Don Basilio, no 4º acto.



A orquestra apresentou-se numa formação de pequena dimensão, tendo sido privilegiados tempos relativamente animados (excessivamente nas duas árias de Cherubino, na minha opinião) e uma acentuação mais marcante, em detrimento de algum cantabile das linhas melódicas e, em especial, da sensualidade das sonoridades das cordas. Todavia, concepções estilísticas à parte, a orquestra pareceu-me sempre num nível de execução superlativo, com especial destaque para as madeiras, tão importantes nesta obra.
Notaram-se algumas falhas nas entradas das vozes e alguns desacertos nos tempos, especialmente durante os difíceis concertantes, para o que terá contribuído a falta de contacto visual directo entre maestro e cantores, não obstante os monitores colocados em cena.
O acompanhamento dos recitativos secos foi sóbrio, talvez em demasia.



O baixo Matthew Rose compôs um Figaro buffo e suficientemente viril para conferir credibilidade aos confrontos com o Conde. A voz é ampla e sonora, com uma excelente capacidade de projecção em todos os momentos. Sempre bastante expressivo, quer vocal, quer cenicamente, foi, talvez, o melhor da noite, mesmo com as duas falhas de memória mais evidentes: no final do 2º acto, em que omitiu pura e simplesmente uma entrada e na magnífica ária Aprite un po’quegli occhi, em que saltou uma das linhas e teve que repetir outra para compensar.



O papel de Susanna foi interpretado pela soprano Malin Christensson, que cumpriu sem deslumbrar. Trata-se de uma parte muito difícil, talhada para uma voz de soprano lírico-ligeiro, com timbre brilhante e grande extensão. Achei a voz algo baça e com dificuldades de projecção. O seu ponto alto, para mim, foi a ária do 4º acto, De vieni non tardar, em que “arrancou” uns pianissimi bastante bem conseguidos.

A Condessa foi encarnada pela soprano norte-americana Susanna Phillips. Embora seja uma cantora com credenciais, deixou-me bastante desapontado. A Condessa de Almaviva é uma personagem melancólica, que exige um fraseado elegante, capaz de transmitir a desilusão e a emoção contidas nas suas das árias. É uma mulher que, embora jovem para os padrões actuais, sente ter já passado o seu tempo, na linha de uma Marechala Marie Thérèse von Werdenberg, mas que ainda não está morta e, por isso, é sensível aos encantos de Cherubino (de quem virá a ter um filho na terceira parte da trilogia!). O seu timbre exige nobreza e contenção mas, ao mesmo tempo, a luz da esperança no regresso ao amo, em especial na segunda parte da ária Dove sono i bei momenti. A voz de Susanna Philips é poderosa (o que se notou em demasia) e tem a extensão adequada ao papel. Todavia, acho que a dimensão melancólica faltou totalmente, o que se notou particularmente na Porgi amor, tendo privilegiado um registo mais ligeiro. Dir-se-ia uma Fiordiligi em vez de uma Condessa. A sua leitura da personagem pareceu-me uniforme, como se entre o princípio e o fim os acontecimentos não a tivessem modificado.



O Conde foi interpretado pelo barítono canadiano Joshua Hopkins. Penso que lhe faltou alguma estatura vocal e a nobreza de expressão requerida pelo papel. O Conde, tal como o Don Giovanni, tem de conseguir colorir o timbre consoante as mudanças da fortuna e consoante o seu interlocutor e penso que houve alguma monodimensionalidade na sua vocalização. Nota bastante positiva, todavia, para a difícil ária Vedrò mentr’io sospiro, em que venceu com bravura os escolhos da escrita de Mozart. Penso que conseguiu transmitir, com eficácia, o despeito de alguém que, sendo poderoso, se vê vencido por um servo colocado abaixo de si na escala social, ao mesmo tempo que se questiona até ao limite da fragilidade.



Finalmente, o Cherubino foi interpretado com graça e expressividade, revelando a mezzo soprano croata Renata Pokupic uma voz bonita e ágil.

Os demais cantores cumpriram com brio. Luís Rodrigues manteve o bom nível a que já nos habituou no papel de Don Bartolo e Cátia Moreso interpretou uma Marcellina com uma veia buffa bastante marcada, vencendo com mérito as dificuldades técnicas da sua ária. Uma palavra ainda para a Barbarina de Bárbara Barradas, que aliou uma vocalidade muito agradável a uma composição sensual da noiva de Cherubino. O Don Basilio de João Rodrigues esteve também bem, especialmente na sua ária.



Apesar de algumas reservas, devo dizer que foi um serão magnífico. O poder da música de Mozart é de tal modo forte que é impossível terminar aquelas mais de 3 horas de música sem se ficar extremamente tocado e emocionado. E foi o que aconteceu.

Para terminar, é de lamentar, mais uma vez, o comportamento do público. Telemóveis a tocar, conversa audível durante a música, tosses não disfarçadas, desembrulhar permanente de rebuçados, etc.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Concerto de gala comemorativo dos 45 anos de carreira de Edita Gruberova na Ópera de Viena - Transmissão em directo no sábado, 7 de Fevereiro, a partir da Wiener Staatsoper

Neste sábado, dia 7 de Fevereiro, comemoram-se 45 anos desde a estreia de Edita Gruberova na Ópera de Viena. Para assinalar esta data, terá lugar um concerto de gala, na qual a Primadonna Assoluta cantará árias das óperas Lucia di Lammermoor, I puritani, Anna Bolena e Roberto Devereux.

O concerto, com lotação esgotada desde há muito nas bilheteiras da Ópera de Viena, será transmitido em directo, em Live streaming, a partir deste extraordinário e emblemático teatro (será necessário um registo no site da Wiener Staatsoper e o pagamento de 15,66 Euros, e pode ser visto não só em directo, mas também até 72 horas após o concerto, sendo necessário escolher o dia e a hora em que se pretende visualizar o espectáculo):

http://www.staatsoperlive.com/en/

Sem dúvida um grande momento, a não perder, este sábado quando forem 18 horas em Portugal.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

“As Bodas de Figaro” – FCG – 01 de Fevereiro – Crítica de Francisco Casegas



(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Marriage_of_Figaro - foto de TheLoneRanger)

No passado dia 1 de Fevereiro tive a oportunidade de assistir a uma récita de excelente nível de umas das obras primas de Mozart,As Bodas de Figaro”.
  
A direcção cénica esteve a cargo de Claudio Desderi . Os cenários são muito simples, consistindo apenas de um par de cadeirões e uma mesa de maquilhagem, mudando no quarto acto para um par de árvores e um interessante jogo de luzes para simular o exterior da casa dos condes durante a noite.  

Para uma ópera semi-encenada achei que foi suficiente embora sentindo que uma ópera sem ser encenada integralmente perde sempre algum brilho.




A direcção da Orquestra Gulbenkian esteve a cargo do maestro Paul McCreesh. A Orquestra esteve a bom nível, mas teve alguns desencontros com os solistas visto que a orquestra se situava atrás da acção propriamente dita, levando a que o maestro estivesse sempre de costas para os solistas, facto que adicionou alguma dificuldade à sua tarefa.
O coro Gulbenkian esteve sempre imaculado nas suas intervenções.

 Os solistas a nível geral estiveram a um nível altíssimo. Gostaria de destacar em especial a excelente expressividade de todos os solistas em palco, tornando esta récita extremamente agradável.

O baixo Matthew Rose foi um Fígaro excelente. Sempre muito expressivo e dotado de uma projecção vocal de uma intensidade fora do vulgar. O seu semblante sempre engraçado, aliado à sua imponência física trouxeram à sua actuação um grande brilho.

O soprano Malin Christensson foi na minha opinião uma Susanna pequenina. O seu timbre doce e afinado quase nunca ultrapassou as suas limitações ao nível da projecção vocal tornando-se quase inaudível em certos momentos.

O barítono Joshua Hopkins foi um conde Almaviva excelente. Tem um timbre muito bonito e uma técnica vocal muito apurada. A sua excelente expressividade também o ajudou a brilhar ainda mais.

O soprano Susanna Phillips foi um condessa de muito bom nível. Creio que lhe faltou alguma delicadeza na ária “Porgi, Amor” mas depois compensou na ária “Dove sono” que foi de excelente nível.

O meio soprano  Renata Pokupic foi um excelente Cherubino. Foi sempre muito afinada e expressiva e penso que encaixa muito bem neste papel. Ofereceu-nos um “Voi que sapete” de elevado nível.


Quanto aos portugueses, que estiveram muito bem nos papéis secundários, gostaria de destacar a elevadíssima expressividade do Tenor João Rodrigues (Don Basílio), a excelente interpretação na ária “La vendetta” de Luís Rodrigues (Doctor Bartolo) que já nos tem habituado às suas interpretações de muito bom nível nos palcos nacionais e às excelentes interpretações de Cátia Moreso (Marcellina) e Bárbara Barradas (Barbarina) durante toda a récita mostrando excelente afinação e projecção vocal.





Francisco Casegas