terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

LUCIA DI LAMMERMOOR – Bayerische Staatsoper, Fevereiro de 2015 – Transmissão em directo em Staatsoper.TV / live stream online Staatsoper.TV

(text in english below)

A Bayerische Staatsoper transmitiu em directo no dia 8 de Fevereiro a nova produção da opera de G. Donizetti Lucia di Lammermoor (Staatsoper.TV, transmissão gratuita).

A encenação, da polaca Barbara Wysocka transportou a acção para os EUA nas décadas de 50 e 60 do Século passado. Tudo se passa num grande salão abandonado e decadente onde, ao longo da récita,  são colocadas umas cadeiras e secretárias, e aparece um carro da época. 

(Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Retrata-se um confronto entre classes sociais em que Lord Enrico Ashton é um político que obriga a irmã a Lucia a casar contra sua vontade com Lord Arturo Bucklaw, em detrimento do seu amado Sir Edgardo di Ravenswood, aqui representado à imagem de James Dean. Muitas pistolas são apontadas ao longo da récita. O guarda-roupa é cuidado. Não gostei do que vi porque acho que não trouxe nada de novo e o que se cantava era frequentemente diferente do que se via.

                           (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)


A direcção musical, marcante, foi do maestro Kirill Petrenko. Orquestra e Coro da Bayerische Staatsoper estiveram muito bem. Na orquestra foi utilizada uma harmónica de vidro e foi muito interessante a apresentação do instrumento feita no intervalo.

Diana Damrau foi uma Lucia excelente. Esteve em grande forma vocal e também foi muito expressiva no desempenho cénico. O ponto alto foi a cena da loucura, nesta encenação muito diferente do habitual, mas que a cantora interpretou de forma marcante. O papel é de grande exigência técnica mas a Damrau interpretou-o ao mais alto nível, com uma coloratura impressionante e sempre afinada.

                   (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Também o Edgaro do tenor Pavel Breslik foi muito bom, talvez a melhor interpretação que lhe ouvi. É certo que ao vivo a percepção é diferente, mas na transmissão esteve sempre bem audível, voz de timbre bonito e desempenho cénico muito bom.

Dalibor Jenis foi um Enrico que cumpriu sem deslumbrar, pouco expressivo e monocórdico ao longo de toda a récita.

                      (Fotografia Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

Nos papéis secundários destacou-se Georg Zeppenfeld que foi um excelente padre Raimondo, mas também estiveram bem Emanuele D’Aguanno como Arturo, Rachael Wilson como Alisia e Dean Power como Normanno.


                     (Fotografias Bayerische Staatsoper, Wilfried Hösl)

É para mim sempre um grande prazer ver esta ópera, mesmo quando a encenação não ajuda, como foi o caso.

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Bayerische Staatsoper broadcast live on February 8 the new production of Donizetti’s opera Lucia di Lammermoor (Staatsoper.TV, free transmission).

The staging by Polish Barbara Wysocka set the action in the US in the 50s and 60s of last century. Everything takes place in a large abandoned and decaying hall where, along the performance, some chairs and desks are placed, and a car . The setting portrays a confrontation between social classes in which Lord Enrico Ashton is a politician who forces his sister Lucia to marry against her will to Lord Arturo Bucklaw, to the detriment of his beloved Sir Edgardo di Ravenswood, here represented at the image of James Dean. Many guns are pointed along the recitation. The dresses are interesting. I did not like what I saw because it did not bring anything new and what was sung was often different from what one saw.

The striking musical direction was of maestro Kirill Petrenko. Orchestra and Bayerische Staatsoper Choir were very good. The orchestra used a glass harmonica and it was very interesting the presentation of the instrument during the interval.

Diana Damrau was an excellent Lucia. She had a great vocal performance and she was also very impressive in the stage performance. The highest point was the scene of madness, very different in the presente scenario than in more conventional stagings, but the singer was excelente. The role is technically very demanding but Damrau interpreted it at the highest level, with an impressive coloratura, always in tune.

Edgaro by tenor Pavel Breslik was was very good, perhaps the best interpretation I heard from him. Admittedly live perception is different, but during the transmission he was always very audible, voice of beautiful timbre, and very good stage performance.

Dalibor Jenis was a Enrico who sung without impressing, monotonous throughout the performance.

In supporting roles the best was Georg Zeppenfeld as priest Raimondo, but also good were Emanuele D'Aguanno as Arturo, Rachael Wilson as Alisia and Dean Power as Norman.

For me it is always a great pleasure to see this opera, even when the staging does not help, as was the case.


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sábado, 7 de fevereiro de 2015

LE NOZZE DI FIGARO, Fundação Calouste Gulbenkian, 01.02.2015



Le Nozze di Figaro, estreada no Burgtheater de Viena, em 1 de Maio de 1786, marca o início da colaboração de Mozart com o libretista Lorenzo da Ponte. Colaboração que se estenderia ao Don Giovanni (1787) e, finalmente, ao Così fan Tutte (1790).



Como é uma das óperas que mais me emociona e que foi essencial na minha formação enquanto apreciador da arte lírica, gostaria de partilhar algumas ideias que, não sendo originais, alimentam o fascínio com que sempre ouço e reflicto sobre esta obra.

Como é sabido, Le Nozze di Figaro baseia-se na segunda parte da trilogia de Beamarchais, que começa com Le Barbier de Séville e termina com La Mère Coupable (a partir da qual Darius Milhaud compôs uma ópera homónima) É, todavia, a mais interessante das três, não só pela dimensão de crítica social e política que incorpora, como, essencialmente, pela força dramática das personagens e pelo tratamento que dá à própria natureza de um sentimento primordial como o amor.

A crítica social costuma ser identificada com o desafio e a emancipação dos servos face dos senhores, nas vésperas da Revolução Francesa. Figaro, à semelhança de Leporello, já não quer mais servir (recorde-se o E non voglio più servir com que começa o Don Giovanni) ou, pelo menos, sujeitar-se às arbitrariedades do seu amo, pelo que não tem pejo em enfrentá-lo. E a renúncia contrariada, pelo Conde, ao chamado “Direito de pernada” constitui já um sinal dessa mudança do equilíbrio de forças do antigo regime.

Mas o aspecto que me parece mais revolucionário é o modo como, na música, se equiparam as desventuras e desilusões de nobres e servos. Todos se enganam e são enganados, todos traem e são traídos, nobre com servos e servos com nobres. Todos estão à mercê do império dos sentidos e sujeitos às consequências da sua desordem. E é precisamente aí que a ópera demonstra a verdadeira igualdade, assente na natureza humana e no amor, que a todos subjuga com igual força. A fraqueza e a volubilidade da constância amorosa, com a qual todos terão de conviver, é algo que atinge todas as personagens e que paira como uma sombra sobre o suposto final feliz.



A este propósito, sempre achei que a ópera acaba com pacificação, mas que dificilmente se pode entender que acaba bem. Após esta Folle Journée, nenhuma das personagens poderá, genuinamente, acreditar na solidez dos sentimentos que são expressos a final e que servem de cimento à junção dos quatro casais: Conde – Condessa, Figaro – Susana, Cherubino – Barbarina e Bartolo – Marcellina. O grau de ambiguidade dessas reconciliações constitui apenas, na minha maneira de ver, um mero interlúdio numa partida em que não há vencedores nem vencidos, mas em que a inocência fica, definitivamente, comprometida.
E esta linha de falsos finais felizes é levada a um extremo ainda mais perturbador no Così fan Tutte (veja-se, a este propósito, a advertência de Don Basilio no trio do 1º acto: così fan tutte le belle, non c’è alcuna novità) em que a ambiguidade final é ainda mais acentuada depois de Ferrando e Guglielmo se terem empenhado em perder a aposta com Don Alfonso sobre a fidelidade das suas noivas apenas para vencerem no jogo de sedução da noiva do outro.



E é esse império dos sentidos, essa complexidade psicológica nunca completamente esclarecida, que Mozart, muito para além do texto, ilustra através de uma música sublime, que nos maravilha com a sua invenção melódica; que nos faz rir com as cenas de conjunto em que todos enganam todos; que suscita a nossa reflexão através das contradições das personagens; que nos emociona até às lágrimas com a pungência da sua expressividade e força dramática, que reconhecemos da vida real.

Le Nozze di Figaro é, como referi, uma da minhas óperas favoritas e foi com grande expectativa que assisti à récita semi-encenada no passado dia 1 de Fevereiro, na Gulbenkian, sob a direcção de Paul McCreesh.
O Francisco Casegas fez já uma excelente apreciação dessa récita neste blog, pelo que tentarei não duplicar as apreciações.
Desde logo, um aspecto muito positivo deve ser sublinhado: a ópera foi apresentada em versão integral, com as normalmente suprimidas árias de Marcellina e de Don Basilio, no 4º acto.



A orquestra apresentou-se numa formação de pequena dimensão, tendo sido privilegiados tempos relativamente animados (excessivamente nas duas árias de Cherubino, na minha opinião) e uma acentuação mais marcante, em detrimento de algum cantabile das linhas melódicas e, em especial, da sensualidade das sonoridades das cordas. Todavia, concepções estilísticas à parte, a orquestra pareceu-me sempre num nível de execução superlativo, com especial destaque para as madeiras, tão importantes nesta obra.
Notaram-se algumas falhas nas entradas das vozes e alguns desacertos nos tempos, especialmente durante os difíceis concertantes, para o que terá contribuído a falta de contacto visual directo entre maestro e cantores, não obstante os monitores colocados em cena.
O acompanhamento dos recitativos secos foi sóbrio, talvez em demasia.



O baixo Matthew Rose compôs um Figaro buffo e suficientemente viril para conferir credibilidade aos confrontos com o Conde. A voz é ampla e sonora, com uma excelente capacidade de projecção em todos os momentos. Sempre bastante expressivo, quer vocal, quer cenicamente, foi, talvez, o melhor da noite, mesmo com as duas falhas de memória mais evidentes: no final do 2º acto, em que omitiu pura e simplesmente uma entrada e na magnífica ária Aprite un po’quegli occhi, em que saltou uma das linhas e teve que repetir outra para compensar.



O papel de Susanna foi interpretado pela soprano Malin Christensson, que cumpriu sem deslumbrar. Trata-se de uma parte muito difícil, talhada para uma voz de soprano lírico-ligeiro, com timbre brilhante e grande extensão. Achei a voz algo baça e com dificuldades de projecção. O seu ponto alto, para mim, foi a ária do 4º acto, De vieni non tardar, em que “arrancou” uns pianissimi bastante bem conseguidos.

A Condessa foi encarnada pela soprano norte-americana Susanna Phillips. Embora seja uma cantora com credenciais, deixou-me bastante desapontado. A Condessa de Almaviva é uma personagem melancólica, que exige um fraseado elegante, capaz de transmitir a desilusão e a emoção contidas nas suas das árias. É uma mulher que, embora jovem para os padrões actuais, sente ter já passado o seu tempo, na linha de uma Marechala Marie Thérèse von Werdenberg, mas que ainda não está morta e, por isso, é sensível aos encantos de Cherubino (de quem virá a ter um filho na terceira parte da trilogia!). O seu timbre exige nobreza e contenção mas, ao mesmo tempo, a luz da esperança no regresso ao amo, em especial na segunda parte da ária Dove sono i bei momenti. A voz de Susanna Philips é poderosa (o que se notou em demasia) e tem a extensão adequada ao papel. Todavia, acho que a dimensão melancólica faltou totalmente, o que se notou particularmente na Porgi amor, tendo privilegiado um registo mais ligeiro. Dir-se-ia uma Fiordiligi em vez de uma Condessa. A sua leitura da personagem pareceu-me uniforme, como se entre o princípio e o fim os acontecimentos não a tivessem modificado.



O Conde foi interpretado pelo barítono canadiano Joshua Hopkins. Penso que lhe faltou alguma estatura vocal e a nobreza de expressão requerida pelo papel. O Conde, tal como o Don Giovanni, tem de conseguir colorir o timbre consoante as mudanças da fortuna e consoante o seu interlocutor e penso que houve alguma monodimensionalidade na sua vocalização. Nota bastante positiva, todavia, para a difícil ária Vedrò mentr’io sospiro, em que venceu com bravura os escolhos da escrita de Mozart. Penso que conseguiu transmitir, com eficácia, o despeito de alguém que, sendo poderoso, se vê vencido por um servo colocado abaixo de si na escala social, ao mesmo tempo que se questiona até ao limite da fragilidade.



Finalmente, o Cherubino foi interpretado com graça e expressividade, revelando a mezzo soprano croata Renata Pokupic uma voz bonita e ágil.

Os demais cantores cumpriram com brio. Luís Rodrigues manteve o bom nível a que já nos habituou no papel de Don Bartolo e Cátia Moreso interpretou uma Marcellina com uma veia buffa bastante marcada, vencendo com mérito as dificuldades técnicas da sua ária. Uma palavra ainda para a Barbarina de Bárbara Barradas, que aliou uma vocalidade muito agradável a uma composição sensual da noiva de Cherubino. O Don Basilio de João Rodrigues esteve também bem, especialmente na sua ária.



Apesar de algumas reservas, devo dizer que foi um serão magnífico. O poder da música de Mozart é de tal modo forte que é impossível terminar aquelas mais de 3 horas de música sem se ficar extremamente tocado e emocionado. E foi o que aconteceu.

Para terminar, é de lamentar, mais uma vez, o comportamento do público. Telemóveis a tocar, conversa audível durante a música, tosses não disfarçadas, desembrulhar permanente de rebuçados, etc.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Concerto de gala comemorativo dos 45 anos de carreira de Edita Gruberova na Ópera de Viena - Transmissão em directo no sábado, 7 de Fevereiro, a partir da Wiener Staatsoper

Neste sábado, dia 7 de Fevereiro, comemoram-se 45 anos desde a estreia de Edita Gruberova na Ópera de Viena. Para assinalar esta data, terá lugar um concerto de gala, na qual a Primadonna Assoluta cantará árias das óperas Lucia di Lammermoor, I puritani, Anna Bolena e Roberto Devereux.

O concerto, com lotação esgotada desde há muito nas bilheteiras da Ópera de Viena, será transmitido em directo, em Live streaming, a partir deste extraordinário e emblemático teatro (será necessário um registo no site da Wiener Staatsoper e o pagamento de 15,66 Euros, e pode ser visto não só em directo, mas também até 72 horas após o concerto, sendo necessário escolher o dia e a hora em que se pretende visualizar o espectáculo):

http://www.staatsoperlive.com/en/

Sem dúvida um grande momento, a não perder, este sábado quando forem 18 horas em Portugal.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

“As Bodas de Figaro” – FCG – 01 de Fevereiro – Crítica de Francisco Casegas



(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Marriage_of_Figaro - foto de TheLoneRanger)

No passado dia 1 de Fevereiro tive a oportunidade de assistir a uma récita de excelente nível de umas das obras primas de Mozart,As Bodas de Figaro”.
  
A direcção cénica esteve a cargo de Claudio Desderi . Os cenários são muito simples, consistindo apenas de um par de cadeirões e uma mesa de maquilhagem, mudando no quarto acto para um par de árvores e um interessante jogo de luzes para simular o exterior da casa dos condes durante a noite.  

Para uma ópera semi-encenada achei que foi suficiente embora sentindo que uma ópera sem ser encenada integralmente perde sempre algum brilho.




A direcção da Orquestra Gulbenkian esteve a cargo do maestro Paul McCreesh. A Orquestra esteve a bom nível, mas teve alguns desencontros com os solistas visto que a orquestra se situava atrás da acção propriamente dita, levando a que o maestro estivesse sempre de costas para os solistas, facto que adicionou alguma dificuldade à sua tarefa.
O coro Gulbenkian esteve sempre imaculado nas suas intervenções.

 Os solistas a nível geral estiveram a um nível altíssimo. Gostaria de destacar em especial a excelente expressividade de todos os solistas em palco, tornando esta récita extremamente agradável.

O baixo Matthew Rose foi um Fígaro excelente. Sempre muito expressivo e dotado de uma projecção vocal de uma intensidade fora do vulgar. O seu semblante sempre engraçado, aliado à sua imponência física trouxeram à sua actuação um grande brilho.

O soprano Malin Christensson foi na minha opinião uma Susanna pequenina. O seu timbre doce e afinado quase nunca ultrapassou as suas limitações ao nível da projecção vocal tornando-se quase inaudível em certos momentos.

O barítono Joshua Hopkins foi um conde Almaviva excelente. Tem um timbre muito bonito e uma técnica vocal muito apurada. A sua excelente expressividade também o ajudou a brilhar ainda mais.

O soprano Susanna Phillips foi um condessa de muito bom nível. Creio que lhe faltou alguma delicadeza na ária “Porgi, Amor” mas depois compensou na ária “Dove sono” que foi de excelente nível.

O meio soprano  Renata Pokupic foi um excelente Cherubino. Foi sempre muito afinada e expressiva e penso que encaixa muito bem neste papel. Ofereceu-nos um “Voi que sapete” de elevado nível.


Quanto aos portugueses, que estiveram muito bem nos papéis secundários, gostaria de destacar a elevadíssima expressividade do Tenor João Rodrigues (Don Basílio), a excelente interpretação na ária “La vendetta” de Luís Rodrigues (Doctor Bartolo) que já nos tem habituado às suas interpretações de muito bom nível nos palcos nacionais e às excelentes interpretações de Cátia Moreso (Marcellina) e Bárbara Barradas (Barbarina) durante toda a récita mostrando excelente afinação e projecção vocal.





Francisco Casegas

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

LOS DIAMANTES DE LA CORONA de F. Barbieri — Teatro Nacional de São Carlos, 25.01.2015

(Text in English below)


Los Diamantes de la Corona é uma zarzuela em três actos de Francisco Asenjo Barbieri (1823-1894) estreada em Madrid em 1854. Baseia-se no libreto dFrancisco Camprodón que, por sua vez, se inspirou no libreto de Eugène Scribe e Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges para a ópera cómica homónima de Daniel-François Esprit Auber.

Está em cena no Teatro Nacional de São Carlos até ao dia 29 de Janeiro e tive oportunidade de assistir à récita de Domingo, dia 25 de Janeiro.

Trata-se de uma zarzuela cujo enredo se passa no século XVIII em Portugal e que trata das peripécias de uma senhora — Catalina — que é líder de um grupo de bandidos, mas que é, afinal, a futura rainha de Portugal. Poderão ler uma sinopse aqui. Não poderei dizer que é muito interessante: é uma comédia despretensiosa, mas pouco elaborada e muito óbvia.

(foto internet - I acto)

A música de Barbieri acompanha alguns elementos musicais que são intercalados pela interpretação teatral falada das personagens. Poderei dizer que tem elementos interessantes, de evidente inspiração italiana e (ainda) pouca influência espanhola. E tem bons elementos para coro. Creio que a qualidade é boa no primeiro e segundo actos, mas que destoa no terceiro onde se torna, a meu ver, mais monótona e precipitada. Ainda assim, é agradável de ouvir e permite passar quase três horas entretido.

(foto internet - II acto)

A encenação é de José Carlos Plaza e trata-se da produção espanhola para o Teatro de la Zarzuela de Madrid. É uma encenação de época, clássica, simples e muito eficaz que faz boa figura e permite o bom desenrolar da acção. Começa numa caverna, depois passa para o palácio de Campomayor e, finalmente, para o palácio da Corte. Tudo de forma natural e interessante.

(foto internet - III acto)

O guarda-roupa é rico, a direcção de actores eficaz e as luzes sóbrias.

A direcção da Orquestra Sinfónica Portuguesa foi de Rui Pinheiro que nos trouxe uma interpretação regular e que acompanhou, de forma sóbria, os cantores.


O Coro do Teatro Nacional de São Carlos esteve em bom plano, oferecendo uma interpretação segura.

A Catalina de Sonia de Munck (soprano) apresentou-se em bom plano: boa interpretação cénica aliada a uma voz agradável e bem projetada.

O Marquês de Sandoval de Carlos Cosías (tenor) foi, na minha opinião, a melhor interpretação da tarde. Tem uma presença em palco excelente, apresentando uma postura de enorme comicidade, a que aliou uma voz de timbre muito agradável com boa técnica, bom volume, projecção fácil e agudos sem esforço.

O Rebolledo de Francisco Santiago (barítono) esteve em bom plano cénico e vocal, bem como a Diana de Cristina Faus que tem uma voz de mezzo-soprano interessante. Também o Conde de Campomayor de Ricardo Muñiz (barítono) teve uma boa prestação, tal como o Don Sebastián de Gerado Bullon (tenor).


No geral assistiu-se a uma zarzuela sem um interesse por aí além, mas que se apresentou com uma encenação interessante e eficaz e um conjunto de intérpretes que, sem tocar a excelência, se apresentaram com qualidade homogénea e confiança.

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(Text in English)

Los Diamantes de la Corona is a zarzuela in three acts by Francisco Asenjo Barbieri (1823-1894) premiered in Madrid in 1854. It is based on Francisco Camprodón that, in turn, was inspired by the libretto by Eugène Scribe and Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges for the homonymous comic opera by Daniel-François Esprit Auber.

It is on stage at the National Theater of Sao Carlos until the 29th of January and I was able to attend the recitation of Sunday, January 25.

This is a zarzuela whose plot takes place in the eighteenth century in Portugal, concerning the adventures of a lady - Catalina - which is a leader of a group of bandits, but she is, after all, the future Queen of Portugal. You can read a synopsis here. I can not say it's very interesting: it is an unpretentious comedy, but little developed and very obvious.

The Barbieri music accompanies some musical elements that are interspersed by the spoken theatrical interpretation of the characters. I can say it has interesting elements, of course Italian-inspired (yet little Spanish influence). And it has good elements to the choir. I think the quality is good in the first and second acts, but that clashes in the third where it is, in my view, more dull and hasty. Still, it's nice to hear, you can spend almost three hours entertained.

The staging by José Carlos Plaza and it is the Spanish production for the Teatro de la Zarzuela in Madrid. It is a classic scenario classic, simple and very effective doing good figure and allows the proper conduct of the action. Begins in a cave, then proceeds to the palace of Campomayor and finally to the palace of the Court. Everything in a natural and interesting way. The wardrobe is rich, the direction of actors  effective and the lights are sober .

The direction of the Portuguese Symphony Orchestra was by Rui Pinheiro who brought us a regular interpretation that followed, soberly, the singers.

The São Carlos National Theatre Choir was in good plan, offering a reliable interpretation.

The Catalina of Sonia de Munck (soprano) was performed in good plan: good scenic interpretation combined with a pleasant and well designed voice.

The Marquis of Sandoval of Carlos Cosías (tenor) was, in my opinion, the best interpretation of the afternoon. He has an excellent  stage presence , presenting a huge comic posture, which he combined a very pleasant timbre of voice with good technique, good volume, easy projection and effortless highs .

The Rebolledo of Francisco Santiago (baritone) was in good scenic and vocal plan and Diana by Cristina Faus has an interesting voice of  mezzo-soprano. Also Count Campomayor by Ricardo Muñiz (baritone) had a good performance, such as Don Sebastián by Gerardo Bullon (tenor).

Overall, it was a  not so interesting zarzuela, but that was presented with an interesting and effective staging and with a set of interpreters that, despite not reaching excellency, presented a homogeneous quality.