domingo, 30 de outubro de 2016

TRISTAN UND ISOLDE, METropolitan Opera, Outubro / October 2016


(review in English below)

Tristan und Isolde de R. Wagner esteve em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque em Outubro de 2016 na produção de Mariusz Trelinski que trouxe a acção para a actualidade, numa encenação muito escura, fria e desinteressante.



Logo de início, na abertura, aparece a imagem de um radar que continuará pela ópera fora. No primeiro acto a acção passa-se num navio de guerra, vendo-se vários níveis em partes ou em simultâneo, nomeadamente a ponte, onde está o Tristão como capitão, fardado de escuro, um andar intermédio com os aposentos de Isolda e Bragane e um andar inferior onde são recreados episódios do passado, nomeadamente a morte do pai do Tristão. O efeito é interessante, mas pouco eficaz.

O segundo acto começa na ponte do navio, mas o grande diálogo de amor entre Tristão e Isolda passa para uma cave escura com bidons de combustível, em total contraste com a noite estrelada que é descrita pelos intervenientes. O rei Marke aparece impecavelmente fardado de branco, tal como havia aparecido o pai morto do Tristão nas imagens projectadas no início.

No terceiro tudo é mais metafórico e confuso. O Tristão moribundo aparece numa cama de hospital, cuidado pelo Kurwenal. No que julgo serem os seus pensamentos, aparece uma criança que o retrata na infância e, novamente, a imagem do pai e o incêndio destrutivo vivido à época. A cena final da morte da Isolda decorre com ela a cantar num canto do palco, sentada ao lado do Tristão, também sentado.
É uma encenação confusa, muito escura, com incongruências, ineficaz e pouco vistosa.


O maestro israelita Asher Fisch não mostrou qualquer preocupação com os solistas pois pôs a orquestra sempre a tocar muito alto, abafando-os frequentemente. Foi um contraste total com a direcção de Simon Rattle, que ouvi na transmissão MetLive e que primou pelo respeito pelos cantores, apesar de a verdade musical não transparecer nestas transmissões.


Em contraste com a encenação, os solistas foram excelentes.
A Isolda da soprano sueca Nina Stemme foi, mais uma vez, arrasadora. É a melhor soprano wagneriana da actualidade e uma das melhores de sempre. (Que segredo haverá na Escandinávia, terra de origem da maioria dos melhores sopranos wagnerianos?). Cenicamente muito convincente, teve uma interpretação fantástica, muito expressiva e emotiva, com um colorido vocal impressionante, sempre audível sobre a orquestra (o que foi obra com este maestro). Fabulosa!

A mezzo russa Ekaterina Gubanova também fez uma Bargane de muito boa qualidade cénica e vocal, transbordando angustia nos impressionantes diálogos com a Isolda.

Continuo a achar que não há Tristãos à altura da Isolda da Stemme. Stuart Skelton, tenor australiano, fez um Tristão de qualidade, com algumas fragilidades no 2º acto, mas no 3º a interpretação foi de grande nível vocal e muito expressiva, apesar de a encenação não ajudar.

Outro cantor de excelência foi o baixo alemão René Pape que interpretou de forma exímia o Rei Marke. Voz belíssima, muito poderosa e sempre bem projectada, foi o outro que Fisch não conseguiu abafar com a orquestra.

O Kurwenal do baixo-barítono russo Evgeni Nikitin esteve à altura dos restantes. O cantor tem uma voz relativamente pequena, mas de grande beleza e foi muito expressivo na interpretação. Se as suas tatuagens já lhe causaram dissabores no passado, neste papel assentam-lhe bem.

Merece ainda relevo o excelente solo de corne inglês de Pedro Diaz.
No final do espectáculo, os cantores apareceram à frente de um pano negro (a condizer com a encenação), o que impediu um registo fotográfico minimamente aceitável.


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TRISTAN UND ISOLDE, Metropolitan Opera,  October 2016

Tristan und Isolde by R. Wagner was on stage at the Metropolitan Opera in New York in October 2016 in a production by Mariusz Trelinski who brought the action to the present times, in a very dark, cold and uninteresting staging.

During the overture, the image of a radar appears and will continue to be seen during the opera. In the first act the action takes place in a warship, in various levels seen in parts, or simultaneously, including the command room, where the Tristan is the captain, dressed in a dark uniform. In another floor is the quarters of Isolde and Bragane and in a lower floor episodes of the past are recreated, including the death of Tristan's father. The effect is interesting, but not very effective.

The second act begins in the command room of the ship, but the great dialogue of love between Tristan and Isolde takes place in a dark cave with tanks of fuel, in stark contrast to the starry night which is described by the singers. King Marke appears impeccably uniformed in white, as had appeared in the images that projected the dead father of Tristan in the beginning of the opera.

The third act it is more metaphorical and confusing. The dying Tristan appears in a hospital bed, cared for by Kurvenal. In which I believe were his thoughts, appears a child who portrays him in childhood and again, the image of his father and the destructive fire lived in childhood. The final scene of the death of Isolde happens with her singing in a side of the stage, sitting next to Tristan, also sitting.
It is a confusing staging, very dark, with incongruities and ineffective.

The Israeli conductor Asher Fisch showed no concern for the singers as he put the orchestra always playing too loud, drowning them often. It was a stark contrast to the direction of Simon Rattle that I heard during the MetLive transmission and that excelled by respect for singers, although the truth of the music does not really happens in these broadcasts.

In contrast to the staging, the soloists were excellent.
Isolde by Swedish soprano Nina Stemme was once again overwhelming. She is the best Wagnerian soprano of our time and one of the best ever. (What is the secret of Scandinavia, land of origin of most of the best Wagnerian sopranos?). Scenically she was very convincing, a fantastic interpretation, very expressive and emotional, with an impressive coloured voice, always audible over the orchestra (which was difficult with this conductor). Fabulous!

Russian mezzo Ekaterina Gubanova also made a Bargane  ofvery good quality on stage and vocal, overflowing anguish in impressive dialogues with Isolde.

I still think that there are no Tristans up to the Isolde of Stemme. Stuart Skelton, Australian tenor, was a quality Tristran, with some weaknesses in the 2nd act, but on the 3rd his interpretation was of great vocal quality, although the staging did not help.

Another singer of excellence was German bass René Pape who played an excellent King Marke. Beautiful very powerful and always in tune voice, he was the other one that Fisch could not drown out with the orchestra.

Russian bass-baritone Evgeny Nikitin was up to the others as Kurvenal. The singer has a relatively small voice, but of great beauty and was very expressive in the interpretation. If histattoos have caused him troubles in the past, in this role they are perfectly suited.

Also excellent was the English horn solo by Pedro Diaz.
At the end of the performance, the singers appeared in front of a black cloth (to match the staging), which prevented an acceptable photographic record.


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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DON GIOVANNI, METropolitan Opera, New York, Outubro / October 2016


(review in English below)

A produção de Michael Grandage do Don Giovanni de W.A. Mozart esteve novamente em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque.

É uma encenação clássica, feia, escura e pouco imaginativa, passada numa cidade espanhola no Sec. XVIII (assim diz o programa). Mas apenas se vêm três andares de janelas exteriores. Há alguma mobilidade do palco mas nada é  interessante. Apenas a cena final em que o Don Giovanni é consumido pelas chamas foi um pouco diferente da rotina em que tudo o resto decorreu, mas ainda assim sem originalidade.



O maestro Fabio Luigi dirigiu de forma sofrível, sem qualquer ímpeto mozartiano, a excelente Orquestra da Metropolitan Opera.



Em relação aos solistas, um conjunto muito heterogénio de cantores:

A soprano russa Hibla Gerzmava (Dona Anna) ofereceu-nos uma interpretação vocalmente marcante. A voz é poderosíssima e a afinação boa em todos os registos. Mas canta sempre em forte e é excessivamente dura (e com vibrato marcado) em partes que mereciam maior lirismo.



A Zerlina da mezzo Serena Malfi foi excelente e, para mim, a melhor da noite. A cantora tem uma voz jovem, muito bonita, ricamente colorida e muito expressiva, sempre bem audível. E teve uma presença em palco muito boa.



A soprano sueca Malin Byström foi uma Dona Elvira de voz lírica potente e sempre bem na afinação, embora haja algo no timbre que não sei explicar mas que me desagrada.



Simon Keenlyside, barítono inglês que sempre apreciei, fez um Don Giovanni de voz bonita, expressiva, mas com uma prestação irregular ao longo do espectáculo. Em cena foi fisicamente muito activo e convincente, tendo optado por um Don rude e pouco polido.


Os dois baixos foram as melhores interpretações masculinas, Matthew Rose foi um Masetto excelente, de voz bonita e sempre bem audível, e Kwangchul Youn um Comendador imponente, apesar de cantar pouco.

 


Don Ottavio foi cantado pelo tenor norte americano Paul Appleby. A voz foi pequena e com grandes limitações no registo mais agudo, parecia cantar em falsete. Houve várias desafinações ao longo da récita, mas não deixou de ser fortemente aplaudido, no final, pelos seus compatriotas.


O baixo-barítono checo Adam Plachetka fez um Leoporello para esquecer. Voz muito fraca que, por vezes, mal se ouvia. Foi pena, porque é uma das personagens principais da ópera e, cenicamente, não passou da mediania. A troca de casacos (e de identidades) entre ele (um homem de grande porte) e o Don (interpretado por um homem pequeno em estatura) no início do 2º acto foi ridícula, mas os cantores disto não tiveram culpa.



Não se ouviu Mozart nesta récita do Don Giovanni!








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Don Giovanni, Met Opera, New York, October 2016

The Michael Grandage's production of W. A. ​​Mozart’s Don Giovanni was again on stage at the Metropolitan Opera in New York.

It's a classic, ugly, dark and unimaginative staging, occuring in a Spanish town in Sec. XVIII (so says the program). But we only see three floors of exterior windows. There was some mobility of the stage but nothing was interesting. Only the final scene where Don Giovanni is consumed by the flames was a little different from the routine in which everything else took place, but still unoriginal.

Maestro Fabio Luigi conducted the excellent Orchestra of the Metropolitan Opera without any Mozartian momentum.

Regarding soloists, a very heterogeneous set of singers:

Russian soprano Hibla Gerzmava (Dona Anna) offered us a vocally striking interpretation. The voice is powerful and tuned in all registers. But she always sang in forte and was too harsh (and with marked vibrato) in parts that deserved greater lyricism.

Zerlina of mezzo Serena Malfi was excellent and, for me, the best of the night. The singer has a young, very beautiful, richly colored and very expressive voice, and was always audible. And she had a very good presence on stage.

Swedish soprano Malin Byström was a Dona Elvira with powerful lyrical voice and always well in pitch, although there is something in the tone I cannot explain but that displeases me.

Simon Keenlyside, English baritone that I always appreciated, made a Don Giovanni of nice expressive, voice, but with an uneven performance throughout the show. On stage he was physically very active and convincing, having adopted to be a rude and impolite Don.

The two basses were the best male interpreters, Matthew Rose was an excellent Masetto, with beautiful voice and always well audible, and Kwangchul Youn an imposing Comendatore, although his singing is short.

Don Ottavio was sung by North American tenor Paul Appleby. The voice was small and with major limitations in the high register, seemed to sing in falsetto. There were several mistakes along the performance, but he was strongly applauded in the end.

Czech bass-baritone Adam Plachetka made a Leoporello to forget. The voice was very weak and sometimes barely audible. Too bad, because it is one of the main characters of the opera and on stage, he has not passed from mediocrity. The exchange coats (and identities) between him (a large man) and Don (played by a small man in stature) at the beginning of the 2nd act was ridiculous, but the singers did not have this fault.

Mozart was not heard in this Don Giovanni performance!


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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Missa em Si de Bach, Fundação Calouste Gulbenkian, Outubro de 2016


(text in English below)

O concerto de abertura da presente temporada do Coro Gulbenkian e Orquestra Gulbenkian foi a Missa em Si menor, BWV232 de Johann Sebastian Bach, sob a direcção do maestro Michel Corboz.

É sempre um privilégio ouvir uma interpretação do Coro e Orquestra Gulbenkian dirigida por este maestro de excepção, que nos oferece invariavelmente interpretações superiores. Mais uma vez, foi o que aconteceu. Orquestra em formato mais reduzido, mais barroco, soando na perfeição.



O Coro foi excepcional, ao nível do melhor que se ouve no mundo. Impressionante quando cantou em forte, arrepiante na sonoridade mais baixa, foi marcante em todas as intervenções.

Os solistas estiveram à altura da elevada qualidade do espectáculo. O tenor Tilman Lichdi cumpriu sem destoar, apesar de ter uma voz pequena. Muito bem esteve o baritono Peter Harvey, sobretudo no Et in Spiritum Sanctum.  O soprano Sophie Bevan ofereceu-nos uma interpretação segura, afinada e bem audível, mas foi o contralto Helena Rasker que mais se destacou entre os solistas. Possuidora de uma voz imponente, sempre bem colocada e de timbre agradável, ofereceu-nos próximo do final do concerto o momento mais alto da noite, um sublime Agnus Dei.



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Mass in Bach, Calouste Gulbenkian Foundation, October 2016

The opening concert of the Calouste Gulbenkian Choir and Orchestra season was the Mass in B Minor, BWV232 by Johann Sebastian Bach under the direction of conductor Michel Corboz.

It is always a privilege to hear a performance of Gulbenkian Choir and Orchestra conducted by this exceptional maestro. He invariably offers superior interpretations. Again, it happened. The orchestra in smaller, more baroque composition, sounded perfectly.

The choir was exceptional, to the level of the best that one can hear around the world. Impressive when they sang forte, chilling when singing piano, they were remarkable in all interventions.

The soloists were up to the high quality of the performance. Tenor Tilman Lichdi was fine, despite having a small voice. Very good was the baritone Peter Harvey, especiallyin  Et in Spiritum Sanctum. Soprano Sophie Bevan offered us a reliable interpretation, tuned and well audible, but it was contralto Helena Rasker that stood out among the soloists. Possessing an astonishing voice, always in tune and beautiful timbre, she offered us, near the end of the concert, the highest moment of the night, a sublime Agnus Dei.

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terça-feira, 18 de outubro de 2016

ONDE ESTÃO OS CANTORES LÍRICOS PORTUGUESES?



Já por diversas vezes eu e outros escrevemos neste blogue que seria muito interessante e importante que os cantores líricos portugueses fossem mais vezes ouvidos nos espectáculos de ópera em Portugal. Deixo alguns “porquês” que não consigo compreender.



Há uma geração de bons cantores consagrados (alguns com carreiras internacionais de topo) e outra de jovens muito talentosos que raramente conseguimos ouvir em Portugal. Porquê?

Ao ver a presente temporada do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), o único teatro nacional de ópera, é chocante a quase ausência total de cantores portugueses. Porquê?

Assisti há dias à primeira ópera da temporada do TNSC e única das que considero popular e bem conhecida de todos, a Carmen. Todos os papéis principais foram interpretados por cantores estrangeiros. Se tivesse assistido a umas belas interpretações, enfim, mas foram todas francamente más (embora umas piores que outras). E os portugueses só cantaram (e bem) os papéis secundários. Porquê?

Ainda sobre a temporada do São Carlos, ela é a antítese do que seria uma temporada interessante e apelativa para um público que se tem visto privado de ópera de qualidade nos últimos anos. Poucos espectáculos, óperas agrestes para o “grande público” e, com excepção da Carmen, ausência de óperas populares que ajudam a cativar e a conquistar novos públicos. Porquê?

 

Tive conhecimento muito recentemente (pelo JAM que também escreve neste blogue e dele aqui transcrevo algumas palavras) que corre na net uma petição com reivindicações dos cantores líricos portugueses, que pode ver aqui, caso não a conheça:


Embora concorde com muito do seu conteúdo, não vou assiná-la porque discordo da forma como está escrita, num tom excessivamente panfletário que, em minha opinião, lhe tira força. Mas merece ser discutida e poderia servir de pretexto para uma análise mais séria da realidade do TNSC e das políticas domésticas em relação ao espectáculo lírico.

Entretanto, é com grande tristeza que vejo que os nossos cantores líricos, para poderem sobreviver, ou vão dedicar-se à agricultura, ou têm que emigrar (como milhares de outros portugueses). A geração mais jovem, para conseguir alguma dignidade e independência, foi quase escorraçada do País, que ainda virá a pagar um preço muito elevado. Porquê?

(João Merino, um excelente cantor português que teve que cultivar cogumelos)


(Ricardo Panela, outro excelente jovem cantor português que emigrou)


Será que no TNSC não há quem perceba todo este despautério? Que tal, para começar, fazer uma aposta num par de óperas populares com cantores portugueses nos papéis principais (e há várias possibilidades em Mozart, Verdi e Puccini)?  Estou certo que (evitando encenações pseudo-modernas e agressivas, e aproveitando os telões que estão no espólio do teatro) seria uma aposta ganha e poderia ser um bom começo para dignificar as temporadas do TNSC. Porquê não apostar?