quinta-feira, 26 de junho de 2014

Gershwins' PORGY AND BESS - Danish Royal Opera House, Copenhaga - 26.03.2014

(Review in English below)


A ópera Porgy and Bess de George Gershwin foi composta e estreada em 1935. O libreto é de George e Ira Gershwin, DuBose e Dorothy Heyward.


Estreou com bastante polémica, não só por ser uma história cujos protagonistas são pessoas de raça negra, como pela inovação musical que introduzia, numa aproximação clara ao jazz e com uma muito marcada influência folclore. Gershwin, um compositor judeu, foi acusado (e ainda hoje o é) de racismo e de uma visão sectária e demasiado preconceituosa. Mas o que é facto é que, independentemente das críticas que se possam consubstanciar em algo (?), a ópera de Gershwin tem múltiplas melodias extremamente famosas de onde se destaca Summertime que, hoje em dia, é mais famosa através do jazz.


A nova encenação da escocesa Liz Ascroft é, do ponto de vista visual, muito interessante. Baseia-se numa enorme estrutura em madeira com aspecto deteriorado, mas que representa a comunidade muito familiar em que aquele povo vivia. O cenário existe em 3 planos: uma espécie de pátio e um rés-do-chão e primeiro andar. A acção passa-se nesses 3 planos, sem nenhuma ordem especial e sem qualquer incoerência com o libreto. Pode dizer-se que em todos os aspectos a encenação é clássica: cenário, guarda-roupa, iluminação, direcção de actores. A única coisa que não percebi e que me intrigou foi a presença de Clara com o bebé nos braços do início até que parte em busca de salvar Jake do temporal. Mas foi uma encenação muito bem feita e agradável de seguir.


A orquestra da Royal Danish Opera dirigida por Michael Boder apresentou um bom nível de entrosamento e de interpretação, sem qualquer falha importante e tendo em conta os cantores. Excelente!

No que respeita aos cantores, há a destacar uma óbvia diferença de qualidade entre os elementos dos elencos feminino e masculino: a vantagem foi, claramente, para o primeiro.

Bess foi interpretada pelo soprano americano Lisa Daltrius. A voz é pujante, sobretudo no registo agudo, fazendo ecoar as notas mais altas com facilidade, mas mantendo o timbre agradável. Não podemos dizer o mesmo do registo mais grave onde não esteve tão forte. Mas teve uma boa interpretação vocal. Quanto às capacidades cénicas foi uma intérprete que conseguiu transmitir a densidade da personagem.

Clara foi interpretada pelo soprano Jeanine de Bique. O timbre da voz é bonito, a técnica eficaz e as capacidades expressivas de qualidade. Ofereceu-nos um excelente Summertime e em termos cénicos esteve muito bem.


Sabrina Carten, Serena mulher de assassinado Robins, foi a voz que mais me impressionou. É um mezzo de voz com ampla tessitura que sabe moldar bem. Os seus agudos são brilhantes e vívidos e os graves cheios. As suas capacidades cénicas são também assinaláveis. Talvez, a par da orquestra, a melhor da noite.

Judith Skinner foi Maria tem uma voz de mezzo-soprano muito adequada, com uma postura e sotaque da Carolina do Sul muito interessante e que muito contribuiu pra a construção da personagem.


Porgy foi o baixo-barítono Kenneth Overton. A voz tem um timbre agradável, mas não é um cantor particularmente dotado em qualquer registo: grave, médio ou agudo. Cenicamente, cumpriu com destreza as exigências de andar com uma canadiana improvisada. Foi, pois, melhor actor do que cantor. Teria preferido ao contrário.

Também Sporting Life, aqui interpretado pelo tenor Robert Mack, esteve, vocalmente, muito abaixo do que a personagem exige. O seu problema era que, muitas vezes, se tornava praticamente inaudível, uma vez que a projeção não é o seu forte. Poder-se-ia pensar que foi da orquestra, mas não. Outros cantores conseguiam ouvir-se perfeitamente. Já cenicamente foi o mais empenhado e capaz de todo o elenco. Desse ponto de vista, foi um Sporting Life perfeito.

Crown foi o baixo Ntobeko Rwanga. A voz não tem um timbre particularmente agradável, mas foi sempre audível. Em termos cénicos cumpriu bem, sem entusiasmar.

O Coro esteve em excelente nível, mostrando-se muito entrosado entre si e também com a orquestra.


Foi uma noite muito agradável passada num dos mais cativantes e modernos edifícios de ópera mundiais. É um edifício lindíssimo situado junto ao rio e que faz lembrar um enorme barco. Está decorado com extremo bom gosto e a sala interior tem excelente visibilidade de qualquer ponto. No intervalo fiz um tour pelos vários pisos e até os lugares de pé permitem uma visão completa do palco. Pena que a acústica não seja espectacular. Esse foi o maior defeito que senti. Dias depois, um italiano perguntou-me qual a minha opinião sobre a acústica: também ele vê aí o único defeito da sala. Será, pois, uma experiência a repetir, até porque, apesar de a Dinamarca ser um país muito caro, tem um povo muito simpático, educado e prestável, além de uma gastronomia que, para mim, foi inesperadamente surpreendente.

Deixo-vos fotos e vídeos do edifício.

video

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(Review in English)

Porgy and Bess by George Gershwin is an opera that was composed and premiered in 1935. The libretto is by George and Ira Gershwin, DuBose and Dorothy Heyward.

Debuted quite controversial, not only because it is a story whose protagonists are black people, but also because of the musical innovation introduced, in a clear approach to jazz and with a very marked influence of folklore. Gershwin, a Jewish composer, was accused (and still is) of racism and of a sectarian and too biased view. But the fact is that regardless of the criticisms that may constitute something (?), Gershwin's opera has many extremely famous melodies, which highlights Summertime that nowadays is more famous by jazz.

A new staging of the Scottish Liz Ascroft is, in the visual point of view, very interesting. It builds on a huge wooden structure with deteriorated aspect, but that is very familiar to the community in which these people lived. The scenario exists in 3 planes: a kind of courtyard and ground floor and first floor. The action takes place in these 3 plans with no particular order and without any inconsistency with the libretto. You could say that in all respects the scenario is classic: scenery, wardrobe, lighting, actors directing. The only thing I did not understand and that intrigued me was the presence of Clara with the baby in her arms until the start of searching to save Jake from the temporal. But it was a performance well done and enjoyable to follow.

The Orchestra of the Royal Danish Opera conducted by Michael Boder showed a good level of rapport and interpretation without any major failure and taking into account the singers. Excellent!

Regarding singers, we can highlight an obvious difference in quality between the elements of female and male casts: the advantage was clearly for the first.

Bess was interpreted by American soprano Lisa Daltrius. The voice is booming, especially in the high register, echoing the high notes with ease, while maintaining the pleasant timbre. We cannot say the same of most low register, which was not as strong. But had a good vocal performance. As for scenic capabilities she was a performer who managed to convey the density of the character.

Clara was played by a soprano Jeanine Peck. The timbre of the voice is beautiful, and of quality and effective technical and expressive capacities. She was excellent in scenic terms and offered us a beautiful Summertime.

Sabrina Carten as Serena, Robins’ widow, was the voice that impressed me most. She has a mezzo voice with wide tessitura she knows well how to mold. Her treble is bright and vivid and bass is full. Her scenic capabilities are also notable. Perhaps, along with the orchestra, she was the best of the night.

Judith Skinner was Maria has a voice of mezzo-soprano quite adequate, with an attitude and accent of South Carolina very interesting that contributed largely to the building of character.

Porgy was the bass-baritone Kenneth Overton. The voice has a nice tone, but he is not a particularly gifted singer in any register: low, medium or high pitch. Scenically, he complied well with the disability Porgy has. He was therefore better actor than singer. We would have preferred the opposite.

Sporting Life here played by tenor Robert Mack was vocally far below what the character requires. His problem was that often became almost inaudible, since the projection is not his best characteristic. It might be because of the orchestra, but it was not. Other singers could be heard perfectly. Scenically he was the most committed and capable of the entire cast. From this point of view, he was a perfect Sporting Life.

Crown was the bass Ntobeko Rwanga. The voice does not have a particularly pleasant timbre, but he was always audible. In scenic terms he fulfilled without enthusiasm.

The choir was in excellent level, being highly regarded among themselves and with the orchestra.

It was a very nice evening in one of the most captivating and modern buildings of opera world. It is a beautiful building situated next to the river and resembles a huge boat. It is decorated with exquisite taste and the interior room has excellent visibility from any point. At halftime I made a tour of several floors and even the standing room allow a full view of the stage. Too bad the sound is not spectacular. That was the greatest flaw I felt. Days later, an Italian asked me about my opinion on the acoustics: he also feels it as the only defect of the hall. It will therefore be an experience to repeat, because even though Denmark is a very expensive country, has a very friendly, polite and helpful people, and a cuisine that, for me, was unexpectedly amazing.


I leave you photos and videos of the building.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

DIE WALKÜRE / A VALQUÍRIA, Liceu, Barcelona, Maio de 2014 – Elenco 2

(review in english below)

No primeiro texto sobre a Valquíria que assisti em Barcelona fiz já referência à encenação que não gostei. Aqui deixo uns apontamentos sobre outra récita, cantada por solistas distintos.

Mais uma vez a Orquestra Sinfónica do Liceu dirigida pelo maestro Josep Pons esteve frequentemente mal. Para além de notas falhadas e entradas em falso, o que mais me impressionou negativamente foi a falta de entusiasmo. A música exige pausas dramáticas, trechos empolgantes, sonoridade heróica. Nada disso ouvi numa interpretação morna e desinteressante.


 O tenor holandês Frank van Aken foi um Siegmund para esquecer. Não sei se o cantor estaria bem, penso que não porque, poucos minutos depois de começar a cantar, foi perdendo qualidade vocal, cantando sempre em esforço e, frequentemente, desafinado. Por isso, quebrou todo o encanto deste acto, não tendo transmitido a paixão e atracção sexual crescentes por Sieglinde. Heroicidade também não se viu.


 Em total contraste, a Sieglinde de Eva Maria Westbroek foi fabulosa! A holandesa ofereceu-nos uma interpretação de luxo, ardentemente apaixonada no primeiro acto, débil e desesperada no segundo, e determinada no terceiro. A voz é poderosíssima, bem timbrada e perfeitamente ajustada à personagem.


 Ante Jerkunica, baixo croata, foi a melhor voz masculina da noite. O seu Hunding maléfico foi de referência. O cantor tem uma óptima presença em palco e a voz é imponente em todos os registos.




 A Fricka do mezzo sueco Katarina Karnéus foi correcta tanto na interpretação vocal como cénica, mas não mais do que isso.

O cantor mais aplaudido da noite foi o Wotan de Greer Grimsley. O norte americano tem uma excelente figura, canta bem e de forma muito expressiva apesar de, ocasionalmente, ser abafado pela orquestra. Mas, para mim, é o timbre demasiado nasalado e baritonal que me de deixou algum desconforto. Não o consegui ver como o deus impositivo que a personagem exige e, no registo grave, foi frágil.


 Catherine Foster, soprano britânica, foi uma Brünhilde correcta, com uma interpretação em crescendo. No início um pouco áspera, mas o terceiro acto foi muito bom. Destacou-se, sobretudo, no registo mais agudo. Cenicamente foi correcta.






 A cavalgada das Valquírias foi idêntica ao que relatei aqui.


 Este era, à priori, o elenco menos forte e, de facto, assim aconteceu, apesar da excelência de Eva Maria Westbroek e de Ante Jerkunika.








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Die Walküre, Liceu, Barcelona, May 2014 - Cast 2

In the first text on the Valkyrie I saw in Barcelona I have commented on the staging that I did not like. Here I leave some notes about a second performance, sung by different soloists.

Again the Symphony Orchestra of the Liceu conducted by Maestro Josep Pons was often in failure. In addition to missed notes and false starts, what impressed me most negatively was the lack of enthusiasm. The music requires dramatic pauses, exciting passages, heroic sound. Nothing that I heard in this uninteresting interpretation.

Dutch tenor Frank van Aken was a Siegmund to be forgotten  I do not know if the singer was be well, I presume not, because a few minutes after start singing the vocal quality was lost and he always sung in effort and often out of tune. Therefore, he broke all the charm of this act, having missed the passion and growing sexual attraction to Sieglinde. He was not heroic as well.

In stark contrast, Eva Maria Westbroek’s Sieglinde was fabulous! The Dutch soprano offered us a luxury interpretation, ardently in love in the first act, weak and desperate in the second, and determined in the third .The voice is very powerful, nice timbre and perfectly adjusted to the character.

Croatian bass Ante Jerkunica was the best male voice of the night. His malevolent Hunding was of reference. The singer has a great impressive voice in all registers.

Swedish mezzo Katarina Karnéus was a correct Fricka in vocal performance and on stage, but not more than that.

The most acclaimed singer of the night was Greer Grimsley that sang Wotan. The North American artist has a great figure, sings well and in very expressive way , while occasionally be drowned out by the orchestra. But, for me, his vouce is a bit too nasal and baritonal, which left me some discomfort. I could not see him as the imposing god that the character demands, and in the lower notes he lost quality.

Catherine Foster, British soprano, was a correct Brunhilde, with a growing performance. At first she was a little rough, but in the third act she was very good. She excelled especially in the high register .On stage shewas correct.

The ride of the Valkyries was identical to that reported here (the singers were the same).


This was a priori the least strong cast and, in fact, it was so, despite the excellence of Eva Maria Westbroek and Ante Jerkunika.

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

MADAMA BUTTERFLY, METropolitan Opera, Nova Iorque, Maio de 2014 / New York, May 2014


(review in english below)


Foi com grande expectativa que revi esta produção da Madama Butterfly de G Puccini na Metropolitan Opera. Não pelos cantores mas pela encenação.


 Anthony Minghella concebeu uma obra prima quando pôs em cena esta ópera. O palco é negro e vazio, com uma larga abertura ao fundo, por onde entram grande parte das personagens. O jogo de luzes é magistral, o guarda-roupa japonês requintado é imponente e um conjunto de pequenos biombos que se movem na horizontal ao longo de todo o palco, movidos por figurantes todos vestidos de negro, faz o resto. Um conjunto de 5 cadeiras presas entre si e uma caixa com os pertences da Butterfly esgotam os elementos cénicos.


O efeito é magnífico e, sobre ele, ainda há partes de uma beleza de cortar a respiração como, por exemplo, o final do 1º acto, em que o dueto de amor entre Cio-Cio-San e Pinkelton é cantado à luz de lanternas japonesas, sob uma chuva dourada.
O filho da Butterfly é aqui um boneco Bunarku japonês, manipulado por três figurantes que mal se vêem e esta é, talvez, a componente cénica mais impressionante. Não tenho palavras para descrever a magia da encenação.








(fotografias de / photos by Marty Sohy / Met Opera)

Se o caro leitor tiver oportunidade de ver, aqui ou na English National Opera, não perca, é uma das melhores encenações a que assisti em toda a minha vida!

O maestro foi Fábio Luisi que soube tirar da Orquestra da Metropolitan Opera uma sonoridade excelente, como a obra exige. Todos os momentos mais dramáticos foram notáveis. O coro, apesar de ter intervenções mais contidas, foi também excepcional.

E nos solistas houve alguma heterogeneidade:

O soprano chinês Hui He foi uma Cio-Cio-San sensacional. A figura ajuda mas o mais importante é que transmitiu com grande naturalidade os diversos estados estados de alma por que passa a Butterfly, desde os momentos de felicidade ingénua no início, até ao desespero dilacerante mas algo contido no final. E a voz é versátil, de grande potência e excelente colocação.


 Já o tenor galês Gwyn Hughes Jones fez um B.F, Pinkerton aquém do exigível. A voz é pequena, perde qualidade no registo mais agudo e é pouco emotiva. A figura do cantor também não ajuda.

Outra interpretação de grande nível foi a do mezzo americano Maria Zifchak como Suzuki. Tem uma voz grande e expressiva e esteve sempre bem em palco.



O barítono americano Dwayne Croft foi um Cônsul Sharpless muito digno, tanto vocal como cenicamente.

Os restantes intérpretes foram banais para o nível elevado habitual nesta casa de ópera, nomeadamente Scott Scully como Goro e Jeongcheol Cha como Yamadori.

Como referi acima, a ac cão dos figurantes que manipulam o cenário e os bonecos Bunaku fazem um trabalho notável.




 Uma Butterfly numa encenação sublime que, sempre que puder, voltarei a rever!!

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Madama Butterfly, Metropolitan Opera, New York, May 2014

It was with great expectation that I have seen again this production of Madama Butterfly by G. Puccini at the Metropolitan Opera. Not because of the singers, but byecause of the staging production.

Anthony Minghella concieved a masterpiece when put on stage this opera. The stage is black and empty, with a wide opening at the bottom, from where most of the players enter. The light design is also masterful, the Japanese clothes are exquisite and imposing. A set of small screens that move horizontally throughout the stage, driven by supernumeraries dressed all in black, complete the staging. A set of 5 chairs secured together and a box with the belongings of Butterfly complete the scenic elements.

The visual effect is magnificent and furthermore, there are parts of a breathtaking beauty as, for example, the end of the 1st act during the love duet between Cio-Cio-San and Pinkelton, that sung in illuminated by Japanese flashlights, under a golden rainfall.
The son of  Butterfly is a Japanese Bunarku puppet, manipulated by three extras that are barely visible. This is, perhaps, the most impressive staging component. I have no words to describe the magic of the staging effect.
If the dear reader have the opportunity to see this production, here or at the English National Opera, do not miss it, it is one of the best opera stagings I have witnessed in my entire life!

Maestro Fabio Luisi conducted the Metropolitan Opera Orchestra at its best, as the opera requires. All the most dramatic moments were remarkable. The chorus, although with discrete interventions, was also excellent.

Concerning the soloists, there was some heterogeneity:

Chinese soprano Hui He was a sensational Cio-Cio-San. Her figure helps but the most important is that she transmitted with great naturalness the various moods that Butterfly lives, from the moments of naive happiness at the beginning, to the heartrending despair at the final. And her voice is versatile, highly powerful, without losing quality when going up at higher notes.

Welsh tenor Gwyn Hughes Jones was  ​​a poor Pinkerton. His voice is small, it loses quality in the upper register, and is little emotional. The figure of the singer does not help either.

Another interpretation of high quality was American mezzo Maria Zifchak as Suzuki. She has a big and expressive voice and she was always well on stage.

American baritone Dwayne Croft was a very convincing Consul Sharpless, both vocally and on stage.


The other performers were trivial, including Scott Scully as Goro and Jeongcheol Cha as Yamadori, taking into consideration the usual high level in this opera house.

As I mentioned above, the action of the extras that manipulate the scenery and the Bunaku puppets did a remarkable job.

A Butterfly on a sublime staging that, whenever I can, I will see it again!

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segunda-feira, 16 de junho de 2014

CARMEN, Theatro Municipal de São Paulo

CARMEN, O SOBRENATURAL DE ALMEIDA E O CONSELHEIRO ACÁCIO NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA EBALLET.
 

 Como não poderia deixar de ser a ópera Carmen de Bizet apresentada nove vezes no Theatro Municipal de São Paulo foi sucesso de público com ingressos esgotados e cambistas tentando faturar. Como não poderia deixar de ser o público que frequenta teatros de ópera e concerto continua sem saber se comportar. Como não poderia deixar de ser o imponderável, ou como dizia Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida entrou em campo aos 45 do segundo tempo e surpreendeu no resultado.

O TMSP escala dois elencos para suas apresentações, em teatros pelo mundo esses elencos se alternam nas apresentações, no nosso teatro eles se alternam nas primeiras récitas e depois se misturam mostrando diversas combinações de elencos, algumas interessantes e outras sem a menor sintonia. Essas combinações mostraram que o Sobrenatural de Almeida entrou no palco.

O primeiro a surpreender foi o tenor Fernando Portari, cantor tarimbado com interessante carreira internacional. No dia 10 de Junho seu Don José se mostrou cenicamente impecável, desfilou emoções a rodo, humanizou o personagem exibindo seu lado sentimental. O problema do Portari foi vocal, fugiu dos agudos o tempo todo, sua voz se apresentou sem brilho e muitas vezes tendendo para a rouquidão. Abusou dos pianíssimos tentando compensar a falta de agudos. Seu francês é de excelente qualidade e nos diálogos foi o melhor da trupe. Um grande tenor em uma noite infeliz, acontece com qualquer um. Olha o Sobrenatural de Almeida ai!


Cena de Carmen com Luisa Francesconi e Fernando Portari, divulgação/Sheila Guimarães.

A soprano chilena Andrea Aguilar fez uma Micaëla ingênua e apaixonada, em suas intervenções sua voz esteve lírica, melódica e leve. Agudos claros com projeção que enche o teatro, conseguiu expressividade na ária Je dis que rien ne m'épouvante . Uma cantora correta com bons dotes vocais. Nem toda a pureza vocal e cênica da jovem comoveu Don José, o amor pela cigana Carmen falou mais alto.

David Marcondes encarnou o toureiro Escamillo, papel de barítono que tem mostrar bravura, força vocal e cênica. Marcondes pecou no fraseado, sua voz esteve travada e seus graves opacos. Conseguiu emprestar dignidade cênica ao personagem, mas nada que empolgasse.

Luisa Francesconi, o que dizer desse mezzo-soprano. Fiquei meio ressabiado quando vi que ela foi escalada para essa ópera, tinha outra cantora em mente. Já a conhecia pelo Werther do Theatro São Pedro e sabia que era uma grande cantora, mas Carmen é Carmen e o Municipal é bem maior que o São Pedro. A bela jovem (pode colocar bela nisso) mostrou ser uma Carmen empolgante em todos os quesitos. Cenicamente fez sua personagem ousada e sensual, daquelas com capacidade de seduzir até um monge tibetano. Mostrou-se sempre à vontade no palco com um bom francês nas partes faladas e cantadas, sua dicção prima pela qualidade. Sedutora quando necessário e dramática na medida certa no terceiro e quarto ato. Vocalmente esteve excelente em todos os registros: Agudos limpos e graves fortes e sólidos em um timbre de grande beleza. Mostrou personalidade e impôs seu estilo para a personagem com gestos e expressões na medida, Francesconi compreende as necessidades da Carmen e a interpreta na medida certa. Fiquei de queixo caído com a moça. Olha o Sobrenatural de Almeida de novo ai!



Cena Carmen, foto Internet.
 
Vinícius Atique fez um Moralès com voz consistente, barítono que evolui a cada apresentação e que deveria ter se apresentado em todas as récitas. Lembro aos leitores que sua participação na ópera é pequena e não vejo a necessidade de um cantor de fora dividir com ele o papel.


O clima no Theatro Municipal de São Paulo esteve leve nas récitas da Carmen, do mais humilde funcionário ao mais graduado solista estavam relaxados e trabalhando felizes. O motivo de tanta alegria é que o diretor da casa John Neschling esteve na Europa nesse período. Lembro que John disse a revista Veja São Paulo que o Parque do Ibirapuera cheira a xixi, sabemos que ele ama o velho continente. Em um texto de sua autoria no Facebook ele escreve sobre literatura, ele já escreveu sobre psicanálise, fez uma crítica da Carmen que ele mesmo produziu e agora pensa que é crítico literário. Estranho para quem defende que cada um fique restrito a sua área de estudo, virou o Conselheiro Acácio.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

TRISTAN UND ISOLDE, Teatro Real, Madrid, Fevereiro de 2014 / February 2014


(review in english below)

Aqui deixo um breve apontamento do wagner_fanatic sobre o Tristão e Isolda de R Wagner que viu recentemente em Madrid.


 Encenação de Peter Sellars, direcção de actores excelente, com sentido no conteúdo do texto. Imagens projectadas de Bill Viola complementares à acção e possibilitando, mesmo que não olhássemos para os cantores mas sabendo o que se passava, viajar para um universo paralelo mas cheio de significado de um amor induzido por porção, é certo, mas além do que é compreensível se nunca se viveu um assim.


 Sellars põe o Rei Marke a beijar na face o Tristão por duas vezes - a ideia transparecer mais intensamente que o Rei Marke fica mais perturbado não por Tristão lhe "roubar" Isolda como mulher, mas pelo facto de trair a confiança e admiração (embora involuntariamente como sabemos) que tinha por ele. Isto é algo que antes eu não me tinha apercebido inteiramente. Transparece com maior peso nesta produção.


 Sete anos depois de ver esta encenação, e vários Tristãos depois, alcancei a beleza e a potência emocional que esta obra tem. E imagino o que Wagner sentiu por Mathilde Wesendonk para escrever isto. Só mesmo ao alcance de poucos.

A Orquestra do Teatro Real, dirigida pelo maestro Marc Piollet, está brutal em Wagner!


 A Isolda de Violeta Urmana foi potentíssima vocalmente, estridente mas nunca gritando.

O Tristão de Robert Dean Smith, sem reservas no início, deu tudo vocalmente e de forma regular em toda a ópera.

Ekaterina Gubanova muito bem como Bargäne, principalmente no primeiro acto; voz de vigília no 2º acto muito bem mas por vezes com alguma oscilação ligeira da afinação nas notas prolongadas.

O Kurwenal de Jukka Rasileinen esteve muito bem, afinação, credibilidade vocal e excelente sintonia de lealdade (que se sentiu) com Tristão.

Franz Josef Selig foi excelente como Rei Marke. O timbre (belíssimo), a entoação que dá e o modo como viveu os monologos em termos vocais e cénicos foi arrepiante.





Um excelente Tristão e Isolda!


TRISTAN UND ISOLDE, Teatro Real, Madrid, February 2014 

Here is a brief note from wagner_fanatic about R Wagner´s Tristan and Isolde that he saw recently in Madrid.

The staging was by Peter Sellars. The stage direction was excellent with regard to the content of the text. Projected images by Bill Viola complementary to the stage action, even if we did not look to the singers but knowing what was going on, enabling us to travel to a parallel universe of meaningful of love, although induced by a portion, but beyond what is understandable, if never experienced one like this.

Sellars puts King Marke kissing Tristan's face twice - the idea showing that King Marke is more disturbed not by Tristan "steal" his Isolde as a woman, but because he betrayed the trust and admiration (though unintentionally as we know) we had for him. This is something that I had not noticed before so clearly as it is shown in this production

Seven years after seeing this staging, and several “Tristans” after, I reached the beauty and emotional power that this opera has. And I guess what Wagner felt by Mathilde Wesendonk to write this. Only for very few.


The Orchestra of the Teatro Real, directed by maestro Marc Piollet, was brutal in Wagner!

Violeta Urmana´s Isolde was very powerful vocall, but she never screamed.

Robert Dean Smith´s Tristan gave everything he has vocally, and regularly throughout the opera.

Ekaterina Gubanova’s Bargäne was very good, especially in the first act. Sometimes she showed some slight oscillation of relaying in extended notes.

Jukka Rasileinen’s Kurvenal was fine, good pitch, with vocal credibility and excellent expression of loyalty (he felt) with Tristan.

Franz Josef Selig as King Marke was excellent. The timbre (gorgeous), the intonation he gives and thw way he lived the monologues, vocal and artistic, was creepy.

An excellent Tristan and Isolde!